A rádio favorita dos jovens marroquinos chegou e procura músicos portugueses

O grupo marroquino Hit Radio estreia-se em Portugal com uma rádio que quer abrir a antena aos artistas urbanos, músicos de hip-hop, R&B e pop que não têm espaço nos outros meios.

Foto
Jan Le Bris de Kerne é o responsável em Portugal pela Hit Radio DANIEL ROCHA

Até agora, só por acaso alguém sintonizaria uma rádio obscura que passava música portuguesa que não se ouvia em nenhuma outra. Era mesmo possível que um músico desconhecido, gravando em casa e lutando na Internet por alguma visibilidade, subitamente ouvisse uma das suas canções nessa frequência misteriosa e, entre o espanto e a euforia, se interrogasse sobre quem seria a pessoa que tinha dado pela sua existência. Agora, resolvidas todas as questões legais e burocráticas, já não há mistério: quem emite em 106.4 é a Hit Radio Portugal e quem está do outro lado da antena é o francês Jan Le Bris de Kerne.

O estúdio e o emissor estão em Sobral de Monte Agraço, cerca de 40 quilómetros a Norte de Lisboa, mas, por enquanto, muito do trabalho de Jan é feito a partir da sua casa, na capital. É aí, com um computador, que navega pela Internet procurando músicos urbanos mais ou menos conhecidos para os colocar no ar na Hit Radio. E é aí que nos recebe para contar como nasce uma nova rádio em Portugal.

Mas antes disso, é preciso perceber o que é o grupo Hit Radio, fundado em Marrocos em 2006 e que hoje está presente em 11 países africanos (Burkina Faso, Burundi, Comores, Congo, Costa do Marfim, Gabão, Marrocos, Níger, Senegal, Chade e Togo) e três europeus (Mónaco, Bélgica e agora Portugal). E quem melhor pode contar essa história é o seu fundador e presidente, o franco-marroquino Younes Boumehdi, 44 anos.

“A Hit Radio nasceu provavelmente de uma frustração”, explica, por email. “Quando eu era adolescente, em Rabat, não havia nenhum meio que se dirigisse especificamente aos jovens. A juventude marroquina era ignorada. Nessa época não havia Internet nem televisão por satélite. Devido à proximidade, no Norte de Marrocos conseguíamos captar as rádios espanholas com uma grande diversidade de programas. Eu não conseguia compreender porque é que não existia uma oferta daquelas em Marrocos.” Depois de concluir os estudos em França, Younes regressou a Marrocos e pediu uma licença para criar uma rádio de música dirigida aos jovens. Estávamos em 1993. A licença acabou por chegar, mas apenas em 2006. E a Hit Radio nasceu.

O sucesso chegou rapidamente – hoje é a rádio mais ouvida em Marrocos na faixa etária dos 15 aos 34 anos – e a expansão por outros países de África também. “A Hit Radio quer ser uma marca mundial”, diz Younes. “Esperamos poder cobrir todos os países francófonos e lusófonos de África e desenvolver a nossa presença nos países do Sul da Europa.”

A rádio trouxe mais do que música aos jovens marroquinos, conta por seu lado Jan. “Tornou-se rapidamente uma rádio vanguardista. Há programas temáticos em que as pessoas podem telefonar, com especialistas para responder a temas ligados, por exemplo, à saúde, à sexualidade, à psicologia. Recentemente fez uma campanha para convencer os jovens a inscreverem-se nas listas eleitorais e a votarem.”

Jan já tinha ouvido falar de Younes através de um amigo comum, mas acabaram por se conhecer pessoalmente quando o marroquino viajou até Lisboa. Younes diz: “Tive a oportunidade de conhecer Portugal há já algum tempo e impressionou-me sempre o seu dinamismo. A crise convenceu-me a acelerar o lançamento da rádio aí também para mostrar solidariedade e a confiança de uma pequena empresa como a nossa no futuro do país.”

Jan revê-se nisso porque ele próprio apaixonou-se por Lisboa e há sete anos decidiu mudar-se para cá. Acredita que há um espaço para preencher na divulgação de “artistas que já produzem, que têm uma vida nas redes sociais e que só esperam uma oportunidade para aparecer nas ondas da rádio”.

Uma página em branco
A filosofia da Hit Radio é “100% hits, 100% música”, 24 horas por dia". Deste alinhamento, 40% cento é música feita por portugueses (pop, R&B, um pouco de hip-hop, um pouco de kizomba) e os restantes 60% são grandes êxitos internacionais, totalmente mainstream, e que são escolhidos por um programador em Rabat.

Apesar de ter ligações à comunicação social em França e à música Jan não era um especialista nesta área. “Antes de começar a trabalhar para a Hit Radio não conhecia quase nada do hip-hop, da música urbana, do rap português”. Por isso, a sua estratégia baseou-se em duas coisas: “Primeiro, confiar nas pessoas que conhecem bem esse tipo de música e, segundo, confiar em mim e nos meus ouvidos."

Rapidamente mergulhou num universo novo. “É um mundo que pouca gente conhece mas que é super enérgico e activo. Muito rapidamente há uma chegada de informações e de músicas. Faço uma primeira selecção, segundo o meu gosto e o que acho que pode agradar ao público, mando ao chefe da programação em Rabat, e ele diz ‘isto sim, isto não’.”

O que o fascina neste momento é a Hit Radio Portugal ser “uma página em branco” – sem compromissos comerciais, com uma estrutura levíssima (apenas Jan e um jornalista, Rafael Fernandes, baseado no Porto, que lê notícias três vezes por dia), um emissor em Sobral de Monte Agraço porque foi aí que encontraram uma rádio à venda por um preço apetecível e que permite uma cobertura de Lisboa e arredores (num raio de 40 quilómetros), e uma equipa de apoio em Rabat para resolver problemas que surjam.

“O mercado da música era baseado na compra e venda de discos”, diz Jan. “Isso hoje está quase acabado. Quem tem 20, 22, 24 anos vai procurar no iTunes. As editoras já não têm a mesma vontade de ir à procura de produtos ‘arriscados’ e não querem perder tempo com um artista que ninguém sabe se vai resultar ou não. Nós podemos fazê-lo. Recebo uma música, gosto, e daí a uma hora está no ar. É um desafio extraordinário ir à procura de artistas que se sentem um pouco encerrados numa prisão mental, que pensam ‘somos do bairro, a nossa música não vai sair daqui’.”

A Hit Radio, conclui, “quer ser uma casa de artistas”. “Queremos que os jovens sintam que podem bater à nossa porta, enviar vídeos, canções. Não há editora, não há agentes entre eles e nós. Basta enviar um email, eu recebo, passo para Rabat e ponto final, está feito. Esta é a altura da nossa história em que podemos experimentar coisas novas. É o período mais excitante.”