El Chapo foi apanhado por acreditar na sua própria lenda

Líder do crime organizado no México descuidou-se na clandestinidade e começou a contactar actrizes para uma longa-metragem sobre a sua vida. Conseguiu fugir à polícia pelos esgotos e roubar um carro antes de ser capturado.

É a terceira vez que o grande ícone do tráfico de droga mundial é capturado no México.
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É a terceira vez que o grande ícone do tráfico de droga mundial é capturado no México. Alfredo Estrella/AFP

O mais icónico narcotraficante das últimas décadas regressou neste sábado à mesma prisão de onde orquestrou uma espectacular fuga em Julho. Joaquín El Chapo Guzmán passou as últimas horas a servir de garantia da competência do Governo mexicano, que o fez caminhar diante dezenas de câmaras de televisão no hangar da Procuradoria-Geral da República, onde o esperavam perto de 300 representantes de meios de comunicação nacionais e internacionais. E El Chapo surgiu, manietado e forçado a voltar a cara para os holofotes que, tal como ele, acreditam na sua lenda.

A vaidade traiu-o. Meses depois de escapar da prisão de El Altiplano por um sofisticado túnel de quilómetro e meio que ligava o seu duche a uma obra em curso fora da prisão, Guzmán decidiu avançar com um projecto para uma longa-metragem sobre a sua vida. Foi um capricho que lhe custou a liberdade. Os primeiros contactos de interlocutores e advogados a actrizes e produtores deixaram o rasto que a polícia acabaria por seguir, primeiro, até a uma zona montanhosa onde El Chapo se escondera inicialmente, e, mais tarde, ao seu estado natal de Sinaloa, cidade Los Mochis, onde foi capturado na sexta-feira.

A investigação começou pela complexa construção que El Chapo usou em Julho para fugir pela segunda vez de uma prisão mexicana. A partir daí, escreve o El País, conseguiram identificar o construtor-chefe dos túneis usados pelo cartel da Sinaloa para traficar droga para os Estados Unidos e um advogado de Guzmán. Sabiam que o líder do cartel se refugiara no chamado Triângulo Dourado, uma vasta zona montanhosa no Noroeste do país. Os contactos para uma longa-metragem biográfica de El Chapo fizeram o resto.

Como tantas vezes no passado, El Chapo – ou “o baixinho”, sua alcunha – conseguiu escapar à operação de Outubro no Triângulo Dourado. Embrenhou-se ainda mais nas montanhas, enquanto a polícia monitorizava os seus aliados na cidade. O seu segundo descuido foi querer regressar à cidade. Quem fez os preparativos para uma casa em Sinaloa fazia parte da equipa dos túneis do cartel e era, por isso, vigiado pela polícia. Quando El Chapo chegou na sexta-feira àquela que seria a sua casa, as forças especiais mexicanas demoraram poucas horas a actuar.

El Chapo quase logrou nova fuga. A operação para recapturar o ícone do crime organizado mexicano começou de madrugada. Guzmán aproveitou um primeiro momento de troca de tiros entre os seus seguranças e as autoridades e fugiu para os esgotos, como já fizera no passado – o cartel da Sinaloa é conhecido por construir ligações subterrâneas entre vários edifícios clandestinos, para facilitar fugas de último momento. Mas a polícia desta vez estava preparada: havia uma segunda equipa de intervenção no saneamento de Los Mochis.

El Chapo estava com o seu braço-direito, Cholo Iván. Confrontados novamente com a polícia, improvisaram. Saíram por uma tampa de esgoto que dava para a rua e conseguiram roubar um carro. Atingiram a auto-estrada, mas acabaram interceptados. Renderam-se pacificamente. 

Cholo Iván é o grande sicário do cartel de Sinaloa e também a sua vida tem contornos hollywoodescos. Como o seu patrão, Iván fugiu de uma prisão, escapou no limite a várias tentativas de detenção e entrou em acesas trocas de tiros com a polícia. Numa ocasião, a sua noiva – rainha de beleza em Sinaloa – foi abatida pela polícia ao sair de um carro armada com uma pistola. Tentavam capturar Iván, mas foi ela quem morreu. Ele conseguiu fugir e começou uma contenda pública com o general da nona zona militar de Sinaloa, a quem acusou de assassinar o povo em grandes letreiros espalhados por três cidades no aniversário da morte da noiva.

A detenção de ambos, mas, acima de tudo, de El Chapo, é um balão de oxigénio para o impopular Governo de Henrique Peña Nieto – nunca outro executivo mexicano teve uma taxa tão baixa de aprovação. O chefe de cartel transformou-se num símbolo da persistente incompetência no México em matérias de segurança e criminalidade. Daí que tenha sido o próprio Presidente a anunciar em primeira mão a captura de El Chapo, no Twitter. “Missão cumprida: temo-lo.”

Extradição

El Chapo fugiu não uma, mas duas vezes de prisões mexicanas. Semanas antes da surpreendente fuga de Julho, as autoridades mexicanas tinham recusado pedidos para a extradição do poderoso chefe de cartel para os Estados Unidos, onde enfrenta, como no México, várias acusações graves, como tráfico de droga e homicídio. Os norte-americanos ficaram desagradados com a recusa, sobretudo depois de Guzmán ter fugido de El Altiplano, perto da Cidade do México.

Há razões para crer que desta vez será diferente. A Reuters avança neste sábado que o Governo quer extraditar El Chapo para os Estados Unidos e que o processo pode estar já concluído a meio do ano. De acordo com a agência, responsáveis mexicanos estão com receio de uma terceira fuga da prisão, o que, à partida, é menos provável acontecer no vizinho a Norte. 

É pouco provável que a detenção de El Chapo enfraqueça o poderoso cartel de Sinaloa. Apesar das prisões passadas do líder, a organização cresceu ao ponto de se tornar no líder indiscutível do mercado do tráfico de droga nos Estados Unidos – onde, segundo o livro O mal menor da gestão das drogas, citado pelo El País, domina 30% do tráfico de marijuana e cocaína e mais de 60% nas transacções de heroína. O cartel é uma autêntica multinacional: existe em 17 países e gera receitas que rondam os 3200 milhões de euros anuais. De tal maneira que Guzmán e a sua fortuna de mil milhões de dólares chegaram a entrar na lista dos mais poderosos da revista Forbes.

Parte da lenda de "o baixinho" é exagerada, mas quebra-se um outro mito. Joaquín El Chapo Guzmán pode ser considerado baixo quando comparado com a média de altura mundial. Mas não o deve ser no seu país. Mede 1,68 metros, mais um centímetro do que a média de altura dos homens mexicanos registada em 2006 pela OCDE e dois mais alto do que Pablo Escobar. Mas talvez não chegasse ao ponto de criminalidade mitológica em que vive se não fosse pelo complexo de inferioridade nascido, em parte, da sua baixa estatura.

É isso mesmo que sugere o perfil psicológico de Guzmán construído na prisão de El Altiplano. “É tenaz e o seu sentimento de inferioridade reflecte-se numa expressão de superioridade intelectual e de ambição desmedida pelo poder. Tem necessidade de liderança, controla o meio envolvente e é obsessivo, embora moderado nos seus actos de vingança.”