Lisboa não é uma cidade estrangeira para Faustin Linyekula

Artista na Cidade 2016, o bailarino e coreógrafo congolês Faustin Linyekula vai ocupar as salas e os espaços de Lisboa com uma série de peças e actividades que apontam sempre para um mesmo e vasto sentido: como pode um corpo contar a história de um homem ou de uma comunidade.

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Ricardo Campos

Faustin Linyekula está em casa. Não apenas porque é o convidado de Lisboa enquanto Artista na Cidade 2016, não apenas porque cresceu a aprender na escola que os congoleses fazem parte da Europa e têm a Europa dentro deles, mas também porque nas primeiras férias da sua vida, em 2002, escolheu Lisboa como destino. E, ao aterrar na Portela, avistou um avião abandonado, ostentando a bandeira da República do Zaire. O avião, que pertencera à frota particular do ditador Mobutu e estava estacionado em Lisboa desde 1991, causou não apenas estranheza no coreógrafo e bailarino congolês mas uma peculiar sensação de pertença cinco anos depois de Mobutu ter sido deposto.

“Lisboa não me é uma cidade estrangeira, porque há um pedaço da minha história aqui”, explicou Linyekula no Teatro Camões, na sua apresentação oficial como Artista na Cidade esta quinta-feira.

E essa não é uma questão menor. Em 2006, recusou uma carreira ascendente na Europa e resistiu aos pedidos da família para que permanecesse em Paris (a sua estada equivalia ao garante de que as divisas do exterior continuariam a chegar, confessou nas respostas que deu a Thomas Walgrave, director artístico do Festival Alkantara), para se instalar numa região periférica da República Democrática do Congo, em Kisangani, onde fundou os Studios Kaboko, convencido de que o seu corpo precisava de estar rodeado da realidade que conhecia para poder estimular a criação. “Não tenho muita imaginação, mas a vida oferece-nos tantas dádivas que tenho apenas de estar alerta”, disse.

Essa relação intensa e íntima entre corpo e história pessoal fê-lo duvidar durante muitos anos de que fosse capaz de trabalhar com artistas não-congoleses. Só que a descoberta de que o carácter local tem, frequentemente, uma ressonância universal levou-o a criar com Gregory Maqoma, Les Ballets de Lorraine ou Raimund Hoghe. Sans-Titre, a peça que Hoghe coreografou para os dois, será, aliás, umas das várias revisitações do percurso de Lineyula espalhadas por várias salas lisboetas – a 2 e 3 de Novembro, no Teatro São Luiz.

Antes disso, no entanto, a programação da bienal arranca com um outro momento em que Faustin alarga a sua criação a alguém chegado de fora. Portrait Series: I Miguel, de 14 a 24 de Janeiro no Teatro Camões, é um solo desenhado pelo coreógrafo para o bailarino da Companhia Nacional de Bailado Miguel Ramalho, interpretado com música ao vivo do percussionista Pedro Carneiro. Trabalhado entre Kisangani e Lisboa, parte da interrogação do congolês diante daquele corpo com uma história própria e desconhecida: “Que tipo de conversa podemos ter?”

Como uma conversa

É sintomático que Linyekula se refira à criação, ao encontro com o outro, como uma conversa. Repetidas vezes, o coreógrafo tem-se apresentado não tanto como um bailarino mas como um contador de histórias. Durante anos, revelou na conferência de imprensa, foi perseguido pela obsessão da sua própria história como indivíduo e na forma como, por camadas, essa história se relacionava com uma outra mais comunitária e uma outra mais universal. Em parte, esse esgravatar interior foi espoletado pela transição do Zaire para o Congo, de encontrar um sentido no período confuso e turbulento de um país abanado de forma violenta com a saída de cena de Mobutu. “Quando o corpo tem a coragem suficiente para começar a dançar, talvez tenha uma maior probabilidade de sobrevivência”, disse ainda.

A obsessão por histórias encontrará em Le Cargo aquele que se antevê como o momento-chave de Faustin Linyekula como Artista na Cidade. O belíssimo e comovente solo que apresentou em 2014 no Festival Alkantara, em que começa por dizer que não vai contar histórias e apenas dançar (para logo em seguida trair essa promessa), será apresentado a 24 de Janeiro na Associação Moinho da Juventude (Cova da Moura) e em Maio e Junho noutros bairros multiculturais da Grande Lisboa.

Para quem procura questionar um país em toda a sua complexidade de vivências de êxodos, exílios e pós-colonialismos, seria inevitável a imersão em contextos em que as marcas de todos esses factores no corpo do bailarino pudessem ver-se diante de um espelho mais fiel.

Essa busca por habitar e rever-se na cidade será uma das marcas mais vincadas da permanência de Linyekula por Lisboa em 2016. Depois de Tim Etchells (2014) e Anne Teresa de Keersmaeker (a causadora da bienal, quando em 2011 várias instituições de Lisboa perceberam que estavam a agendar espectáculos da coreógrafa belga para o ano seguinte e decidiram montar uma rede de programação), alastrando a um festival de leituras encenadas no D. Maria II, um espectáculo de rua durante as Festas de Lisboa (ambas em Junho), uma criação com finalistas da Escola Superior de Teatro e Cinema (Julho) ou um laboratório com artistas de vários países destinado a reflectir sobre o tempo enquanto elemento dramatúrgico (Janeiro e Fevereiro).

De resto, como nas edições anteriores, o Artista na Cidade constitui uma ocasião perfeita para, de chofre, tomar contacto com um dos mais estimulantes criadores contemporâneos: Sur les Traces de Dinozord (Alkantara/Culturgest, Junho), The Dialogue Series: IV Moya (Alkantara/São Luiz, Junho), Le Festival des Mensonges (São Luiz, Outubro), More More More… Future (Gulbenkian, Novembro), Statue of Loss e Tryptique Sans Titre (CCB, Novembro). Os votos de bom ano estão assegurados.