Polícia prendeu o investidor que sobe o preço dos medicamentos só porque sim

Ao aumentar mais de 55 vezes o tratamento para a toxoplasmose, Martin Shkreli tornou-se famoso. Mas outras práticas de fraude terão levado o americano à prisão.

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A prisão de Martin Shkreli, esta manhã, em Nova Iorque Andrew Burton/AFP

Martin Shkreli, um investidor na indústria farmacêutica que se transformou no símbolo da ganância, ao aumentar o preço de um medicamento para a toxoplasmose de 13,5 para 750 dólares por comprimido, foi preso nesta quinta-feira no seu apartamento de Manhattan, no âmbito da investigação de um caso de fraude com acções de uma outra empresa por ele fundada.

Shkreli, de 32 anos, está a ser investigado por procuradores federais de Brooklyn sob a acusação de se ter apropriado ilegalmente de acções da empresa de biotecnologia Retrophin, que fundou em 2011, usando-as para pagar dívidas de outros negócios, quando também geria o fundo de investimento MSMB Capital Management, que perdeu milhões de dólares.

Na Retrophin, Shrkeli usou uma estratégia comercial semelhante à que está a impor na Turing e, mais recentemente, na KaloBios, duas empresas farmacêuticas que comprou por pouco dinheiro e com um objectivo concreto em vista: fazer disparar o preço de medicamentos produzidos por poucos fabricantes, baratos, mas essenciais para uma franja do mercado.

No caso da Turing, em causa estava o Daraprim, o único medicamento aprovado pela Food and Drug Administration (a agência que regula o mercado do medicamento e dos alimentos) aprovado nos EUA para a toxoplasmose, uma doença parasitária. Na Europa, existem versões baratas deste medicamento, cuja designação genérica é pirimetamina, e que é importante para tratar infecções parasitárias em doentes de sida e não só.

Já este mês, depois de adquirir a KalosBios por 1,50 dólares por acção, Shkreli anunciou planos para vender licenças de utilização de uma versão de benznidazol, o tratamento padrão contra a doença das Chagas na América Central e do Sul. Esta droga não tem autorização de comercialização nos EUA mas é dada gratuitamente pelos Centros de Controlo e Prevenção das Doenças às cerca de 300 mil pessoas nos EUA que sofrem desta doença por se tratar de um produto experimental.

Mas numa conferência de imprensa há poucos dias, Shkreli anunciou que planeia passar a vendê-la a preços semelhantes aos praticados pelas farmacêuticas que produzem os medicamentos que curam a hepatite C — 60 mil a 100 mil dólares por tratamento. Hoje em dia, na América do Sul, um tratamento para dois meses custa entre 50 e 100 dólares, diz o New York Times.

“O homem mais odiado da América”
A história de Shkreli captura a imaginação americana e não só: ele vem de uma família de imigrantes albaneses e croatas, que ganharam a vida a trabalhar nas limpezas, mas tiveram um filho que pouco depois dos 20 enriqueceu em Wall Street. Martin Shkreli é, ao mesmo tempo, a imagem do sonho americano e tudo aquilo que não deve ser, sublinha a Bloomberg. Donald Trump chamou-lhe “um miúdo mimado” depois de ter aumentado o preço do Daraprim mais de 55 vezes e a BBC “o homem mais odiado da América.”

Na sua empresa anterior, a Retrophin, Shkreli aumentou os preços de um outro medicamento, chamado Thiola, que permite tratar pedras nos rins resistentes a outras formas de tratamento, aumentando o preço de 1,50 para 30 dólares por comprimido. O investidor acabou por ser expulso pelos administradores da sua própria empresa em 2014, e em Agosto passado iniciaram um processo contra ele, pouco antes de Shkreli se tornar conhecido em todo o mundo por fazer disparar os preços do Daraprim.

“Shkreli é o paradigma do servidor infiel”, lê-se na queixa que iniciou o processo da Retrophin, citado pela Reuters. “A partir de 2012, e até deixar a empresa, Shkreli usou o seu controlo sobre a Retrophin para enriquecer e pagar as dívidas aos investidores no fundo MSMB (os quais tinha defraudado).”