Morreu Cândida Ventura

Foi primeira mulher com funções directivas no PCP após a reorganização dos anos 40.

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A professora e antiga dirigente do PCP, Cândida Ventura, que em 1976 abandonou o partido  depois de ter testemunhado o fim da Primavera de Praga e a intervenção soviética, morreu esta quarta-feira no hospital de Portimão, segundo comunicado da sua editora, editorial Bizâncio

Cândida Margarida Ventura nasceu em Moçambique, na então cidade de Lourenço Marques, a 30 de Junho de 1918, filha de António Ventura, funcionário dos caminhos-de-ferro, e de Clementina de Deus Franco Pires Ventura, mas cresceu nas Caldas de Monchique, no Algarve.

As influências do pai, então funcionário da administração das termas de Monchique que “inculcou nos filhos o amor pela natureza, doando-nos a rectidão do seu carácter, a sua bondade, a compreensão, o diálogo e o respeito pelos outros como base das relações humanas”, como escreveu em O Socialismo que eu vivi, dos seus amigos, entre os quais se contavam Rui Teles Palhinha e o poeta algarvio Francisco Xavier Cândido Guerreiro, marcaram a sua  maneira de ser e de pensar, Estimularam-lhe o interesse pela História, Filosofia e política.

Segundo o blogue Silêncios e Memórias, de Jão Esteves, como a mãe era professora primária, em 1929, com 11 anos, partiu para Lisboa e ficou no Instituto do Professorado Primário. Estudou no Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, ainda no Largo do Carmo, onde – recordou - “foi de grande importância para mim a influência de professoras como Ema de Oliveira, Olímpia Bastos, Margarida Pinto, Seomara da Costa Primo. Em 1936 matriculou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa, onde conviveu, entre outros, com Mário Dionísio, Vasco Magalhães-Vilhena e Fernando Piteira Santos, com quem se casou.

No meio académico, marcado pela Guerra Civil de Espanha (1936-1939), iniciou a sua vida política e, tal como os dois irmãos, Joaquim Pires Ventura e Maria Clementina Ventura Campos Lima aderiu ao Partido Comunista Português, numa militância activa que perdurou por quatro décadas, até Agosto de 1976, desempenhando, de forma continuada, funções políticas relevantes.

Pertenceu à Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas e trabalhou com Álvaro Cunhal em 1937-1938, de quem tinha sido companheira.. Integrou o Bloco Académico Antifascista (BAAF), organização ilegal e clandestina criada em finais de 1935 que visava combater o fascismo e o governo salazarista. Foi a responsável do Socorro Vermelho Internacional na sua Faculdade e integrou a Associação Feminina Portuguesa para a Paz e o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas.

Fez parte da redacção do jornal O Diabo, participou, com outros jovens intelectuais e activistas, nos passeios de barco pelo rio Tejo de características culturais e políticas, realizados nos anos de transição da década de 30 para a de 40, e apoiou, em 1940-1941, os reorganizadores do PCP.

Em 1943, no mesmo ano em que concluiu o Curso de Ciências Histórico-Filosóficas na Universidade de Coimbra e teve papel de destaque na preparação e orientação das greves do calçado de S. João da Madeira, ocorridas em Agosto, passou à clandestinidade, tornando-se na primeira mulher com funções directivas após a reorganização. Sucedeu a Joaquim Pires Jorge como responsável do PCP na zona Norte e, como tal, chegou a viver nas casas do Porto de Nina Perdigão e de Alexandre Babo que, em Recordações de um caminheiro,  a considerava “para a nossa geração uma referência determinante, quase um mito, ligado à sua luta, à sua coragem e até à sua beleza”.

Participou na reunião ampliada do Comité Central realizada, em Maio de 1945, na Casa da Granja; interveio no II Congresso Ilegal, realizado numa casa da Lousã em Julho de 1946, onde passou a integrar, como suplente (1946) e depois como efectiva (1957), o Comité Central, apesar de em Março de 1954, na sua V Reunião Ampliada, ter sido acusada de actividade fraccionária, suspensa e readmitida em 1956.

Desenvolveu tarefas na organização operária de Lisboa, foi a responsável pela criação do boletim 3 Páginas, órgão especificamente dedicado às mulheres clandestinas das casas do PCP, e em Abril de 1958 saiu ilegalmente do país para visitar a União Soviética.

Presa a 3 de Agosto de 1960, Ao fim de 18 anos de clandestinidade foi presa, no forte de Caxias, em Agosto de 1960. Julgada pelo Tribunal Plenário de Lisboa a 13 de Maio de 1961, foi condenada a cinco anos de prisão maior, suspensão de direitos políticos por 15 anos e medida de segurança de internamento, indeterminado, de seis meses a seis anos. Libertada, por questões de saúde, a 11 de Julho de 1963, partiu em 1964 para o estrangeiro e retomou a actividade política.

A partir de 1965, viveu na Checoslováquia como representante do Comité Central do PCP naquele país e na Revista Internacional, onde escreveu sob o nome de Catarina Mendes. Aí acompanhou por dentro os acontecimentos relacionados com a “Primavera de Praga”. Regressou a Portugal no início de 1975, e no ano seguinte, consumou a ruptura com o PCP, onde usou os pseudónimos de “Joana”, “André”, “Maria” e “Catarina Mendes” e colaborou no Avante!.

Após o afastamento do PCP, manteve intervenção política e cívica noutros quadrantes político-partidários e trabalhou como professora e funcionária do Ministério dos Negócios Estrangeiros antes de voltar ao seu Algarve e fixar residência em Portimão.

Escreveu, em 1984, o livro O Socialismo que eu vivi. Testemunho de uma ex-dirigente do PCP, com Prefácio de Artur London [1915-1986], com apontamentos memorialistas em que é privilegiado o período posterior a 1968 em detrimento da riquíssima militância anterior.  Rose Nery Nobre de Melo inseriu a sua “Biografia Prisional” no livro Mulheres Portuguesas na Resistência.  Mário Dionísio lembrou-a, enquanto “Joana de olhos claros”, em Balada dos Amigos Separados. Pacheco Pereira, na trilogia dedicada à biografia política de Álvaro Cunhal, inseriu fotografias suas, nomeadamente uma num dos passeios de barco pelo rio Tejo.