The Freak, história de uma mulher-pássaro, o filme que Chaplin não conseguiu fazer

O escritor suíço Pierre Smolik teve acesso ao projecto de e conta a história num livro com o mesmo título do filme que não chegou a ser: The Freak.

Chaplin com o seu modelo da mulher-pássaro
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Chaplin com o seu modelo da mulher-pássaro Call Me Edouard
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Chaplin trabalhou no projecto durante dois anos Call Me Edouard
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O escritor teve acesso às anotações do realizador Call Me Edouard
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A protagonista do filme seria a filha de Charlie. Os dois chegaram a ensaiar Call Me Edouard
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São centendas de documentos Call Me Edouard
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Call Me Edouard

Um conto de fadas cómico, mas com final dramático: a aventura de uma mulher-pássaro, capturada para ser exibida em Londres como uma raridade. The Freak foi o filme que Charles Chaplin (1889-1977) não conseguiu fazer, o seu último projecto. Não passou do papel, de uma ideia por concretizar. Agora podemos conhecer toda a história deste projecto num livro que nos dá os bastidores: detalhes do cenário, imagens inéditas, diálogos ou anotações do próprio Chaplin.

O trabalho é do escritor e cineasta suíço Pierre Smolik, que edita nesta semana o livro. The Freak, O Último Filme de Chaplin, com edição francesa e inglesa da editora Call Me Edouard, contou com o apoio da família do actor e realizador. Smolik teve acesso ao arquivo da família deste génio que esteve por trás de filmes como O Garoto de Charlot (1921) ou O Grande Ditador (1940) e que em The Freak procurava fazer algo diferente.

“Em 1967, o seu último filme, A Condessa de Hong Kong, não teve o sucesso comercial esperado”, diz à AFP Pierre Smolik, contando que o criador da icónica personagem Charlot “mergulhou logo de seguida num outro filme”.

No livro, Smolik, que consultou as centenas de páginas que Chaplin deixou a descrever a evolução do projecto, além dos dois argumentos existentes, os diálogos e a sinopse, assim como fotografias que permitem perceber as ideias do realizador para o filme, conta que o papel principal de The Freak tinha sido entregue à filha de Chaplin, Victoria, na altura com 18 anos. O escritor conta que a rapariga teria uma asas com penas de cisnes, que a família mantém guardadas.

“Li o argumento quando o meu pai o acabou de escrever. É um conto de fadas magnífico. Um sonho muito bonito”, diz à AFP Michel, 69 anos, filho de Chaplin.

Charles Chaplin escreveu a sinopse da história em 1969, tinha 80 anos. Trabalhou no projecto nos dois anos seguintes em sua casa na Suíça. Fez as asas e chegou até a fazer alguns ensaios com a filha num estúdio no Reino Unido. Mas o filme, que contava a história de uma mulher olhada como aberração devido às suas grandes asas, acabou por não avançar mais.

Segredo de família

The Freak tinha tanto de comédia como de drama. O filme acompanhava as aventuras desta mulher com asas de pássaro que um dia caía no telhado de um escritor e professor a viver no Chile. O homem ficava com ela, dava-lhe o nome de Sarapha, e depressa a sua casa tornava-se num centro de peregrinação para aqueles que viam na mulher um anjo capaz de curar doenças. Um dia, Sarapha era raptada e levada para Londres, exposta perante uma multidão ansiosa por milagres. Cansada, a mulher-pássaro conseguia fugir. Tudo o que queria era voltar ao Chile, onde já tinha sido feliz, mas no regresso a casa caía no Atlântico e morria.

“Quando lemos [o argumento], percebemos o que The Freak teria sido: uma mistura subtil de conto, fábula, sonho, incrível, ternura com comédia satírica, humor negro, tragédia, pesadelo, suspense, poesia”, Smolik escreve no livro.

Mas por que é que o filme nunca chegou a ser realizado? “Não temos uma resposta categórica”, diz o autor, que na sua infância chegou a privar com Chaplin. Mas lembra que o realizador era já “muito velho” nesta altura e a mulher não queria que a rodagem afectasse a sua saúde.

Michael Chaplin testemunha à AFP que a história deste filme tem sido uma espécie de segredo de família. “A família protegeu o argumento. Não queríamos que caísse noutras mãos”, acrescenta. Conta que foi em 2010 que Pierre Smolik, conhecido da família, pediu acesso à documentação de Chaplin. Começava assim a aventura de contar esta história.

Ao PÚBLICO, em 2008, a filha de Chaplin, numa passagem por Lisboa, recordava como o pai queria muito fazer este filme. “Tinha um guião fantástico, lindo”, disse Victoria. “Mas não o quiseram segurar porque estava a ficar velho e era um grande risco. Isso foi um grande abanão para ele. A partir daí, começou a escrever a música para todos os seus filmes mudos. Acredito que assim que terminou a última música, para o seu último filme, deixou-se ir. Morreu no dia de Natal, com 88 anos.”

Em Abril, alguns dos materiais que a família disponibilizou a Pierre Smolik, entre as quais as asas da mulher-pássaro que nunca chegou ao cinema, vão ser expostos no museu dedicado a Charles Chaplin que abrirá portas em Abril na localidade onde este passou grande parte da sua vida, em Manoir de Ban, na Suíça.