Há eleições na Arábia Saudita mas a notícia é que as mulheres também podem votar

É apenas a terceira vez em meio século que os sauditas são chamados às urnas. Pela primeira vez, há mulheres nas filas e nos boletins de voto.

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Na corrida estão 978 mulheres e 5938 homens Faisal Al Nasser/Reuters

O reino da Arábia Saudita deu este sábado um salto de gigante para os direitos cívicos, tendo em conta a realidade social do país, ou um pequeno passo no mesmo sentido se o termo de comparação for o resto do mundo: pela primeira vez, as mulheres foram autorizadas a votar e a candidatar-se a eleições. Ainda não podem conduzir, mas já podem defender programas políticos – desde que falem escondidas atrás de uma divisória ou que um homem fale por elas.

As eleições na Arábia Saudita são um acontecimento raro até para os homens – as municipais deste fim-de-semana são apenas as terceiras desde 2005, o ano em que os sauditas puderam voltar a votar ao fim de 40 anos. Antes disso, houve algumas eleições municipais em meados da década de 1920, e entre 1954 e 1962, durante o breve reinado de Saud.

Em 2011, no auge da Primavera Árabe, o rei Abdullah anunciou um modesto pacote de reformas, que incluía uma autorização para que as mulheres pudessem votar nas eleições municipais de 2015. Abdullah morreu em Janeiro, mas o seu sucessor, Salman, cumpriu a promessa, mesmo que o seu ainda curto reinado esteja a assumir uma linha ainda mais conservadora.

Em jogo estão 284 concelhos municipais, todos eles com poderes muito limitados. Na corrida estão 978 mulheres e 5938 homens, que vão ser avaliados por cerca de 130 mil eleitoras e 1,35 milhões de eleitores.

A primeira mulher a votar na Arábia Saudita chama-se Salma al-Rashed, e as suas primeiras palavras depois do momento histórico foram registadas pela BBC: "Foi uma sensação muito boa. A palavra mudança tem muito peso, mas estas eleições são o caminho para garantir que nós vamos estar representadas."

O sentimento de conquista é comum a todas as mulheres que falaram aos jornalistas – para quem olha de fora, pode ser um dia que chega com um atraso de décadas, mas para as mulheres sauditas é História a acontecer perante os seus olhos.

"É uma sensação excelente. É um momento histórico. Agradeço a Deus estar a vivê-lo", disse Hatoon al-Fassi, activista pelo direito de voto das mulheres. "Não quero saber dos números, nem estou muito preocupada com a hipótese de nenhuma mulher ser eleita. O que realmente interessa é que pudemos exercer este direito", disse à BBC.

As limitações à participação de mulheres ainda são muitas, e quase incompreensíveis para a maioria dos restantes países – por exemplo, as mulheres que participam publicamente na campanha pelo direito a conduzir não foram autorizadas a concorrer às eleições.

Uma delas é Nassima al-Sada, que garante que vai continuar a sua luta: "Temos de mudar a forma como as pessoas pensam sobre as mulheres. Se queremos melhorar as coisas neste país, precisamos de homens e mulheres em todos os centros de decisão", disse Nassima ao jornal britânico The Guardian.

Também ela diz que as eleições deste sábado são muito importantes para os direitos das mulheres, e considera que olhar para este acontecimento apenas como uma medida de fachada é não perceber o que está em causa na Arábia Saudita.

"Muitas pessoas acham que as eleições são apenas uma fachada, apenas porque o Governo quer mostrar que estão a ser feitas reformas. Não interessa o que o Governo quer. O que interessa é de que forma é que eu posso usar este acontecimento para mudar as coisas. A globalização e as redes sociais significam que todo o mundo está interligado. A mudança vai acontecer. A única dúvida é quanto tempo vai demorar."