Opinião

O clima e o mar

As negociações do clima em Paris revelam a dificuldade crescente de, à escala internacional, os governos defenderem os interesses dos seus cidadãos, com especial ênfase nas gerações vindouras, continuando reféns de interesses económicos associados à indústria (principalmente petrolífera mas não só), dos ciclos políticos de curto prazo, da desconfiança na regulação do mercado pelos governos que impera em muitos países, e da falta de solidariedade para com aqueles que neste momento mais sofrem diretamente com as alterações climáticas – os mais pobres e desfavorecidos. É lamentável que assim seja e que se continue a jogar um jogo muito perigoso sobre o qual o planeta vai dando sinais crescentes de alerta, consensualizados pela comunidade científica, mas largamente ignorados pela sociedade e pelos estados. Face à sólida informação científica acumulada ao longo de largas décadas, apenas um acordo com metas vinculativas no caminho da descarbonização da economia poderia servir os interesses da humanidade e evitar os piores cenários associados às alterações climáticas e largamente conhecidos de todos. Errar por desconhecimento é lamentável mas desculpável face à ignorância (ativa ou passiva) dos factos. Errar conhecendo as consequências é outra coisa e as futuras gerações julgarão a incapacidade das sociedades atuais se entenderem sobre um assunto que a todos afeta (mas cujas responsabilidades para o problema não são iguais, com os países desenvolvidos a terem obrigatoriamente de assumir uma maior quota parte de responsabilidade e custo nas soluções).

Sendo Portugal um dos países da Europa mais afetados pelas alterações climáticas, é do nosso interesse participar de forma ativa nesta agenda internacional do clima, dando a conhecer à sociedade o que está em causa. Com a conferência de Paris a ser provavelmente uma das últimas oportunidades para que se conseguisse um compromisso global, sólido e duradouro que permitiria limitar o aumento da temperatura média do planeta devido a causas antropogénicas a 2ºC (um indicador que apesar de controverso, tem revelado utilidade política nas conversações), constata-se no entanto que, para além da falta de ambição patente nas negociações e na proposta de acordo, existem falhas incompreensíveis como sejam a da ausência total de menção à importância do Oceano e às consequências das alterações climáticas nos ecossistemas marinhos.

De facto, apesar da crescente preocupação das sociedades com a temática, da marcante encíclica papal e declarações de outros líderes religiosos sobre o clima, e mesmo do envolvimento direto de algumas das grandes empresas poluentes que revelam vontade de alteração de práticas nomeadamente no sentido da descarbonização da indústria (principalmente através da substituição de fontes de energia fóssil por energias limpas), o tema do impacto das alterações climáticas nos oceanos continua a ser um parente pobre destas iniciativas.

Esta é uma realidade que urge alterar mas, apesar de uma presença de relevo no âmbito da cimeira de Paris, tarda em passar para a sociedade a mensagem de que sem oceanos saudáveis não existirá futuro para a humanidade.

Sabemos hoje que os oceanos são o grande regulador do clima ao distribuir calor por todo o globo através das correntes oceânicas e da sua interação com a atmosfera, absorvendo até 93% do excesso de calor provocado pelas diversas atividades humanas. Sabemos igualmente que é no oceano que se depositam grandes quantidades de CO2 através nomeadamente do plâncton marinho com mais de um terço do CO2 gerado pelas atividades humanas já absorvido pelo oceano global.

Esta realidade tem, do outro lado, consequências de enorme impacto para as sociedades humanas e para os ecossistemas marinhos: o aumento de tempestades e outros eventos climáticos extremos, a alteração das correntes marinhas e, consequentemente, dos padrões climáticos à escala local, o aumento do nível do mar com o desaparecimento da orla costeira devido ao agravamento dos fenómenos da erosão, o aumento da temperatura (13 dos 15 anos mais quentes ocorreram desde o ano 2000, com 2015 a ser provavelmente o ano mais quente desde que há registos), a movimentação de espécies marinhas para os polos com alterações significativas nas pescarias regionais, o degelo, etc. Estes fatores, por seu lado, agravam os efeitos já por si muito negativos da sobre-pesca, da pesca ilegal, da poluição marinha e da degradação dos habitats. Assim, seria de esperar que, na cimeira mais importante a nível mundial onde se aborda o tema do futuro do planeta, a gestão sustentável do oceano e o apelo às nações para reforçarem áreas marinhas protegidas eficientes e medidas de conservação e de gestão sustentável das pescarias e de outras atividades humanas que decorrem no mar, fosse um tema de importância central.

Assim não foi... mas, apesar disso, é necessário manter a esperança que o reforço do diálogo existente sobre a importância do oceano para o nosso futuro comum, conduza a medidas concretas que alterem as atuais práticas e façam a diferença na proteção da vida marinha. Só assim poderemos explicar às futuras gerações que apesar dos danos provocados, fomos capaz de estar a altura e encontrar as necessárias soluções para garantir a sustentabilidade das ações humanas no planeta combatendo os efeitos das alterações climáticas de forma eficaz. É nos oceanos que grande parte desta batalha se está a desenrolar.