Em Espanha, os eleitores estão cansados de maiorias absolutas

Abertura oficial da campanha para as eleições de 20 de Dezembro marcada por sondagem que dá vitória insuficiente para governar ao PP. Há ainda 41,6% de indecisos.

Javier Iglesias, pai de Pablo Iglesias, líder do Podemos, afixou cartazes com o filho
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Javier Iglesias, pai de Pablo Iglesias, líder do Podemos, afixou cartazes com o filho CESAR MANSO/AFP

A única coisa que parece certa sobre o resultado das eleições legislativas de 20 de Dezembro em Espanha é que nenhum partido obterá maioria absoluta. Mas esse é mesmo o desejo dos espanhóis: quase seis em cada dez espanhóis não desejam ter outra maioria absoluta como a do Partido Popular (PP) que governou durante a última legislatura. Querem coligações, que os novos partidos consigam chegar ao poder com as suas novas ideias, ainda que lado a lado com os tradicionais. Não querem que tudo fique como é costume.

“Até hoje, ficar em primeiro lugar era sinónimo de governar, mas já não é”, escreve no jornal El País o sociólogo Joan Navarro. O PP deve ganhar as eleições, com 28,6% dos votos, que lhe permitirão obter entre 120 e 128 deputados, segundo a mais recente sondagem do Centro de Investigações Sociológicas (CIS), ouvindo cerca de 70 mil pessoas, e cujos resultados foram divulgados esta sexta-feira por este diário espanhol.

Há ainda 41,6% de indecisos, quando começa a campanha eleitoral. Mas pelo que se vê neste grande estudo sobre as intenções de voto, o PP não deve conseguir formar governo sozinho. Ainda que vencedor das eleições, obtém menos votos do que o PSOE em 2011, quando perdeu de forma retumbante as legislativas. O PP precisará, provavelmente, de procurar apoio no Cidadãos, um novo partido que procura definir-se como uma formação do centro – o inquérito dá-lhe 19% dos votos, e 63 a 66 assentos parlamentares.

Quem escolherá Rivera?
Isto partindo do princípio que Albert Rivera, o líder do Cidadãos, aceitará ligar o seu destino ao do PP e à muito desgastada imagem do presidente do Governo Mariano Rajoy, que aos 60 anos leva 34 a desempenhar vários cargos. Enfrenta hoje uma série de políticos jovens, com novas ideias e novas ideias de fazer política – e carrega o peso das muitas revelações de corrupção no PP, que foram sendo reveladas ao mesmo tempo que impunha uma dura política de cortes e austeridade. Aliás, comprometeu-se a não governar se não ganhar.

As coisas poderiam ser diferentes, no entanto, se a liderança do PP mudasse. Se passasse, por exemplo, para as mãos da vice-presidente e porta-voz do Governo, Soraya Sáenz de Santamaría. Rajoy já a designou para o substituir nos debates entre os líderes políticos antes das eleições – o El País não aceitou recebê-la, mas ela deve estar presente no canal de televisão Antena 3, na próxima segunda-feira. A número dois da lista do PP por Madrid, a seguir a  Rajoy, tem marcado presença em inúmeros programas de televisão – políticos e de entretenimento, nota o El País, mas não responde a perguntas sobre a hipótese de substituir o actual presidente do Governo.

Claro que há sempre a hipótese de Rivera, o líder que mais espanhóis vêem positivamente, preferir ligar-se ao PSOE. À frente dos socialistas está Pedro Sanchez, outro líder de nova geração, mas que não está a conseguir conquistar a confiança generalizada dos espanhóis. Na região de Madrid, o PSOE poderia mesmo ser relegado para quarta força. A sondagem divulgada pelo El País prevê que tenha entre 77 e 89 deputados, e 20,8% dos votos, o que é pouco mais que o Cidadãos.

Rivera tem uma nota de 4,98 numa tabela de aprovação de líderes do CIS que vai até 10, seguido por Alberto Garzón, da Esquerda Unida-Unidade Popular, com 4,62 e de Pedro Sánchez, com 4,59. O presidente do Governo, Mariano Rajoy, é o líder político que recebe a nota mais negativa: 3,31. A tendência está em curva para a esquerda.

E depois dessa curva está lá à espera o Podemos, que é hoje a quarta força política nacional. Deve eleger 23 a 25 deputados, tendo 9,1% das intenções de voto. Está longe da força que no início do ano se previa que tivesse nestas eleições. Mas pode aliar-se a outras forças de esquerda, que juntas poderiam ter até 24 lugares, de acordo com os resultados desta sondagem.

“Ninguém estava à espera que ganhássemos as eleições”, desvalorizou esta sexta-feira o líder do Podemos, Pablo Iglésias, em Villaralbo (Zamora), no seu primeiro acto da campanha eleitoral oficial, ao lado do seu pai, com quem colou alguns cartazes. Mas o partido de Iglésias é dado como o provável vencedor das eleições na Catalunha – onde se apresenta sob a etiqueta En Comú-Podem. Segundo a sondagem do CIS, pode obter entre 10 e 11 dos 47 lugares em jogo para o Congresso nacional.