O pai da Web esteve em Lisboa a falar do nosso futuro online – mas não só

Não é todos os dias que podemos dizer de uma pessoa que mudou radicalmente o mundo tal como o conhecíamos. Mas Tim Berners-Lee, que inventou a Web, é uma delas.

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Tim Berners-Lee, inventor da World Wide Web Enric Vives-Rubio

O engenheiro britânico Tim Berners-Lee inventou a World Wide Web em 1989, quando “escrevia código” (vulgo programas de computador) para as experiências de física que decorriam então no CERN, perto de Genebra, na Suíça, onde trabalhava – e que é hoje a casa do maior acelerador de partículas do mundo, o célebre LHC.

Berners-Lee, hoje com 60 anos, foi o principal orador convidado de uma conferência de dois dias, intitulada O desconhecido daqui a 100 anos – Uma viagem de descobertas, que decorre até sábado na Fundação Champalimaud, em Lisboa.

Na sexta-feira, perante uma assistência de cientistas, políticos, jovens e menos jovens, o pai da Web aceitou o desafio de imaginar em voz alta o futuro do mundo, começando por dizer que “a única maneira de falar do futuro é falando do passado”.

Com alguma timidez, gesticulando e tropeçando por vezes nas palavras, lembrou então os tempos áureos dos primeiros computadores. “Foi na minha adolescência que se tornou possível um adolescente comprar o que era preciso para fabricar placas de computador”, explicou. “E quando já andava na universidade, apareceram os circuitos integrados e foi mesmo possível fabricar um computador com uma TV, um microprocessador e um pouco de solda.”

Essa paixão por “fabricar coisas” nunca o abandonou – e ainda hoje pensa que o futuro está nas mãos daqueles que se juntam e colaboram para o construir concretamente. “Eu escrevia código para experiências de física e estava interessado nos processos de criatividade colaborativa, em equipa”, frisou. Daí nasceria o ciberespaço tal como ele é hoje e o seu novo vocabulário, que já faz parte da língua corrente: http, URL, browser, Java, HTML, motor de busca…. E, mais tarde, as redes sociais, Facebook, Twitter e companhia, sem as quais já quase não conseguimos funcionar.

Alguém na assistência perguntar-lhe-ia no fim da palestra: “Não se sente culpado por ter inventado algo que nos tira todo o nosso tempo?” Resposta de Berners-Lee: “Eu inventei a World Wide Web, mas o browser é inerte, é preciso uma pessoa clicar numa bookmark para ir para algum sítio. Tudo o que ela faz na Web é o que quer fazer.” E acrescentou: “Já o email é uma outra história, o spam é um problema, mas não fui eu que o inventei, portanto isso é com outra pessoa…” Risos na sala.

De facto, Berners-Lee tem um grande de sentido de humor (britânico?). Assim, quando no fim da sessão, já cá fora, lhe perguntámos se, quando inventou a Web, há uns 26 anos, tinha vislumbrado que ela se tornaria naquilo que é hoje, responde-nos com grande seriedade: “ Absolutamente. Tinha um modelo muito preciso do que era e sabia que a sua ascensão seria exactamente exponencial, portanto era possível prever quando é que se tornaria uma solução viável. E também havia lá uns economistas que previram que íamos criar uma fundação [a Web Foundation, http://webfoundation.org/] e que íamos ter esta conferência hoje – só que nós pensávamos que ia ser ontem. Foi apenas nisso que nos enganámos.” E acrescenta logo, para o caso de não termos percebido a piada: “Claro que não foi assim…”

Mas, no início, quando ninguém parecia interessado, foi sem dúvida preciso acreditar firmemente que a Web iria vingar, insistimos. “Não é uma questão de fé”, respondeu-nos. “É uma questão de perseverança. O futuro não é aquilo em que acreditamos, é o trabalho que fazemos para que as coisas aconteçam.”

Em relação ao futuro da Web, Berners-Lee declarou aliás, durante a sua interacção com a assistência no fim da palestra, que um dos seus maiores receios – se não o maior – é “que algum governo ou alguma empresa consigam tomar controlo da Web/Internet”. E salientou estar, através da sua fundação, “a lutar activamente para que isso não aconteça”.

Todavia, uma das maiores preocupações de Berners-Lee em relação aos próximos 100 anos prende-se com algo completamente diferente: “Temos de sair deste planeta, isso é uma prioridade”, disse durante a palestra. Isso porque “há muitas hipóteses de o virmos a estragar”, sejam elas intencionais ou não: aquecimento global, perigosos vírus libertados no ambiente, manipulação genética à escala global, por exemplo. E que não é certo que consigamos resolver os problemas que criamos. Mais uma vez, insistiu que também para isso, temos de fazer as coisas todos juntos, seja qual for a nossa religião, cultura, nacionalidade. O que, segundo ele, como mostra a nossa história, é muito mais difícil do que pode parecer.