Félix Morgado proíbe trabalhadores de favorecerem candidaturas à Associação Montepio Geral

Iniciativa surge após reunião com João Proença, da lista D, que se queixou da pressão exercida por directores do banco para que os associados votem em Tomás Correia.

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Félix Morgado lidera o banco Montepio Enric Vives-Rubio

O presidente executivo do banco Caixa Económica Montepio Geral José Morgado Félix veio, esta sexta-feira, pedir aos trabalhadores do banco que mantenham uma “atitude equidistante” perante os vários candidatos às eleições para a direcção da associação mutualista, actualmente liderada por Tomás Correia, e que se recandidata.  

Numa nota enviada hoje por correio electrónico, o presidente da Caixa Económica/Banco Montepio Geral (detido pela Associação Mutualista) dá conta que a 4 de Novembro a comissão executiva recomendou aos directores uma orientação “neutra” sobre o acto eleitoral, adoptando “uma atitude equidistante perante os candidatos e as listas que se apresentam ao sufrágio dos associados devendo cada um cumprir com os seus deveres profissionais e éticos”. Uma iniciativa que gerou tensão entre alguns quadros. 

Félix Morgado explica que a comissão executiva vai ser “exigente” de modo a garantir “o cumprimento” das suas directivas e que não deixará “de agir sempre que, comprovadamente, as mesmas não tenham sido acolhidas”.

A sua acção surge num quadro de grande turbulência interna, com acusações de potenciais ilicitudes cometidas por apoiantes da lista A. Foi neste contexto que três representantes da lista D, o socialista João Proença, o economista Victor Baptista e o advogado Pedro Rocha Santos solicitaram uma reunião a Félix Morgado, que decorreu ao final da tarde desta quarta-feira, para apresentarem as suas reclamações.

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Tomás Correia deixou a liderança do banco mas recandidata-se à associação mutualista Enric Vives-rubio

A missiva de Félix Morgado surge na sequência do encontro com a lista D e visa responder às dúvidas sobre a acção de Tomás Correia, partilhadas aliás pelas restantes três listas (B, C, E) adversárias da lista A.

Em causa está não só a estratégia seguida durante a campanha eleitoral por Tomás Correia  (o rosto do grupo nos últimos sete anos), como também a sua gestão como presidente da Associação Mutualista, com cerca de 600 mil associados (a maior parte clientes do banco).

Contas por aprovar
O grupo mutualista continua sem apresentar as contas consolidadas de 2014, com analistas a admitirem que possa revelar prejuízos de 200 milhões de euros e uma redução do activo da ordem de 1500 milhões de euros na associação mutualista.

A eleição para os órgãos sociais da Associação Mutualista Montepio Geral está já em curso com a votação por correspondência. Cerca de 98% dos associados que votam, fazem-no por correio. Mas a votação presencial está agendada para o próximo dia 2 de Dezembro, com apenas uma urna a funcionar na sede, na rua do Ouro, em Lisboa.

Concorrem a estas eleições cinco listas e que são encabeçadas por: Tomás Correia (A), Manuel Ferreira (B), Eugénio Rosa (C), António Godinho (D) e  Luís Alberto Silva (E).

Tomás Correia, que este Verão deixou a presidência da Caixa Económica Montepio Geral, envolto em grande controvérsia, recandidata-se ao cargo de presidente da Associação Mutualista que exerce há sete anos devido à "má imagem" que a instituição tem neste momento.

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Cerca de 98% dos associados que votam, fazem-no por correio. Enric Vives-Rubio

Concorre sob o lema "Montepio para todos", apresentando uma lista “fortemente renovada” e onde constam os nomes de Carlos Beato, ex-presidente da Câmara de Grândola, e de Fernando Ribeiro Mendes.

A lista B, por um “Montepio Mais Forte e Democrático, com uma Caixa Económica mais ética", associada à banca ética (Manuel Ferreira), só disputa o conselho geral. Já o economista Eugénio Rosa (C) confessa que, depois de anos de intervenção apenas no órgão de supervisão conselho geral, optou por se apresentar às eleições por entender que “o Montepio enfrenta um momento extremamente difícil, que resulta da gestão desastrosa de Tomás Correia”.

Por seu turno, Luís Alberto Silva (E), o actual presidente da União das Mutualidades Portuguesas, defende "os valores do mutualismo", assentes na "responsabilidade, independência, solidariedade e transparência".

A lista D, liderada pelo empresário António Gonçalves, tem o lema “Renovar o Montepio" e esta semana solicitou ao tribunal de Lisboa a suspensão do acto eleitoral. Isto, de modo a que o processo decorra "de forma justa e transparente", para assegurar "a todos os candidatos igualdade de oportunidades e de tratamento".

Gonçalves considera, nomeadamente, que “a composição da comissão eleitoral atenta contra a igualdade de tratamento” das diferentes candidaturas, pois "resulta claramente que a lista A controla, em absoluto", e não permite "a deliberação de medidas que retirem à lista A o controlo das eleições”. E afirma que a lista D está impedida de entrar nas instalações do grupo para fazer campanha eleitoral, nem pode aceder à informação necessária pois a comissão eleitoral não entregou os dados “de identificação dos associados da MGAM”, ao mesmo tempo que Tomás Correia dispõe de “todos os elementos e não se inibe de os utilizar em seu proveito.”

Pedido de “equidistância”
Em declarações ao PÚBLICO, Victor Baptista, da lista D, encabeçada pelo empresário António Godinho e que integra nomes como Bagão Félix, conta que o pedido de reunião a Morgado Félix, que ocorreu ao final da tarde de 18 de Novembro, visou “reiterar a preocupação da continuada instrumentalização e pressão sobre os funcionários” do banco “para mobilizarem e contactarem a partir dos balcões clientes para iniciativas” da lista de Tomás Correia.

Adiantou que está em causa “a intervenção de gerentes e directores a imporem aos funcionários subordinados metas quantitativas para contacto com clientes a fim de participarem e apoiarem a lista A”. Foi ainda dito ao presidente da Caixa Económica que tinham conhecimento “situações de perseguição a funcionários que denunciaram ou apoiaram as listas opositoras a Tomás Correia” em anteriores actos eleitorais.

Baptista diz ainda que foi transmitido o “descontentamento pela instrumentalização dos balcões da Caixa Económica, com kits de voto, de substituição, com os quais os funcionários instrumentalizam o cliente/associado na sua votação”. E foi reforçada “a necessidade de separação” da Associação Mutualista da Caixa Económica, um processo em curso.

Actualmente, a Associação Mutualista e o banco já dispõem de equipas de gestão independentes. A lista D afirma ter recebido de Félix Morgado o compromisso “de que não haverá qualquer perseguição a funcionários que venham a denunciar factos ou actos de envolvimento no processo eleitoral", nomeadamente, por parte de pessoas apoiantes da lista A.  

Recorde-se que a lista A é apoiada por figuras proeminentes como o padre Vítor Melícias, e o gestor Álvaro Pinto Correia (cuja formação é a engenharia civil). O padre Melícias é actualmente o presidente da mesa da assembleia-Geral da Caixa Económica e da mesa da assembleia-geral da Associação Mutualista Montepio Geral (lugar a que se recandidata), enquanto Pinto Correia está à frente do conselho fiscal da Caixa Económica e do conselho fiscal da Associação Mutualista Montepio Geral.

O facto de ocuparem funções em ambas as estruturas é tema de debate, pois não é permitido pela nova lei das caixas económicas. Pinto Correia não se recandidata aos órgãos sociais da Associação Mutualista, mas continua no conselho fiscal da Caixa Económica, cargo que desempenha em simultâneo com o de chairman da Inapa, onde está desde 2010 (empresa da qual Félix Morgado era CEO até Junho de 2015).

Até 2014, enquanto estava nos órgãos sociais do grupo Montepio e da Inapa, Pinto Correia (secretário de Estado da Construção Civil do VI Governo Provisório, liderado por Pinheiro de Azevedo, e secretário de Estado da Habitação e Urbanismo do I Governo constitucional chefiado por Mário Soares) esteve na comissão de remunerações do BES (função que não consta agora do seu curriculum oficial) e da Portugal Telecom.