Mais de 300 anos à espera de resposta

Esta é a Europa do século XVII que nos é descrita por 2600 cartas que nunca foram entregues. Um projecto internacional está a estudá-las.

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Cortesia: Signed, Sealed & Undelivered/Museu das Comunicações de Haia
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Há atrasos nos correios e… atrasos nos correios. Trezentos anos é muito tempo, sobretudo quando as cartas acabaram por nunca chegar ao seu destino, ou, se chegaram, quem as devia ler preferiu deixá-las por abrir.

Um baú de pele forrado a linho guarda 2600 cartas, 600 delas ainda seladas, escritas entre 1689 e 1706. Confiado ao Museu das Comunicações de Haia, em 1926, foi apenas “redescoberto” em 2012, quando Rebekah Ahrendt, uma investigadora da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, andava a traçar o percurso de um grupo de teatro que percorria a Europa na viragem do século XVII para o XVIII e deu com uma referência que descrevia um conjunto de cartas nunca entregues à guarda do museu holandês.

“As cartas que estavam no baú eram uma espécie de porquinho-mealheiro dos correios”, diz esta professora do departamento de música, citada num longo texto publicado no site de Yale, uma das cinco universidades envolvidas no projecto internacional Signed, Sealed & Undelivered (as outras são as de Oxford, Leiden, Groningen e o Massachusetts Institute of Technology). É que, naquela altura, explica Rebekah Ahrendt, os serviços dos correios eram pagos pela pessoa a quem a carta se dirigia. Se esta não fosse encontrada ou não quisesse recebê-la, o responsável dos correios podia guardá-la na esperança de um dia vir a ser pago, caso o destinatário decidisse reavê-la.

Este baú, guardado pelo influente Simon de Brienne, chefe dos correios de Haia, e pela sua mulher, Maria Germain, inclui cartas escritas em francês, espanhol, italiano, holandês e latim e os remetentes são de origens diversas. Há camponeses que mal sabem escrever, mas há também editores, aristocratas, músicos, actores e até espiões. Os investigadores de Signed, Sealed & Undelivered chamam-lhe um “arquivo acidental” – só por acaso foi mantido intacto, já que o mais natural seria que o chefe dos correios tivesse destruído todas estas cartas passados alguns anos – e sublinham a particularidade de reunir mensagens de vários quadrantes sociais.

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O baú que continha as 2600 cartas, à guarda do Museu das Comunicações de Haia desde 1926 Cortesia: Signed, Sealed & Undelivered/Museu das Comunicações de Haia

Daniel Starza Smith, um dos membros da equipa que inclui ainda técnicos do museu de Haia, diz que esta verdadeira arca do tesouro tem ainda o mérito de congelar um período da história da Europa feito de conflitos, perseguições religiosas e outras grandes convulsões. São 2600 cartas cheias de relatos do quotidiano, alguns deles bastante dramáticos, com muitas intrigas, escândalos e coscuvilhices. Há cartas com outras lá dentro, cartas que escondem pedaços de tecido e páginas de livros proibidos, cartas de amor dobradas em forma de diamante ou com pombas recortadas segurando ramos de flores. Muitas têm problemas de conservação e terão de ser estabilizadas antes que alguém lhes possa tocar.

Uma tentação

Se é verdade que se conhecem muitíssimos exemplares de correspondência das elites europeias dos séculos XVII e XVIII – realeza, aristocratas e intelectuais, religiosos ou não –, o mesmo não se passa com remetentes de outras origens sociais. As cartas trocadas entre as pessoas “comuns”, explica o investigador de Oxford, eram na esmagadora maioria das vezes deitadas fora. “Os seus registos frequentemente não sobreviviam e, por isso, esta é uma fantástica oportunidade para ouvir novas vozes históricas. É muito comovente poder descobrir esta resposta emocional do passado”, diz, citado na página oficial do projecto.

Para Starza Smith, os milhares de instantâneos da vida dos séculos XVII/XVIII que o baú guarda são uma “tentação” para qualquer arquivista. Tentação que é, ao mesmo tempo, um desafio técnico e moral, reconhece. Ler cartas que não nos foram destinadas, algumas relativas a episódios de grande intimidade, mesmo passados mais de 300 anos, constitui uma invasão de privacidade e é, por si só, discutível. E fazê-lo destruindo parte do suporte dessas mensagens – o que aconteceria se o selo que fecha 600 destas missivas fosse quebrado – seria, pura e simplesmente, inaceitável. É por isso que esta equipa de académicos e arquivistas vai recorrer a delicados scanners de raio-x para “entrar” nestas cartas sem ter de as abrir. Uma tecnologia já usada para ler os célebres e extremamente frágeis Manuscritos do Mar Morto.

“Estas cartas encorajam-nos a pensar nelas como objectos fechados, como um dispositivo mecânico, como estruturas em papel desenhadas para manter seguras comunicações internacionais”, acrescenta o investigador, admitindo que a equipa está particularmente fascinada com as várias técnicas de dobragem – sem envelope, as folhas em que são escritas são dobradas de forma a esconder o texto – e com o que os diversos selos em lacre podem dizer sobre o seu remetente e a forma como viveu.

“Mesmo a maneira como a carta é fechada é muito pessoal, funciona quase como uma assinatura”, explica David van der Linden, o homem que “redescobriu” a arca em 2012, lembrando que, na altura, os correios eram de tal forma eficientes que, em apenas quatro dias, uma carta enviada de Paris chegava a Amesterdão, mais ou menos o mesmo tempo que demora hoje. Nos séculos XVII/XVIII, como hoje, a segurança nas comunicações era fundamental, daí estes selos e complexos métodos de dobragem, acrescenta este investigador da Universidade de Groningen.

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Muitas das cartas estão já abertas, mas outras terão de ser "lidas" com um scanner de raio-x Cortesia: Signed, Sealed & Undelivered/Museu das Comunicações de Haia

A cantora e o mercador

Numa delas, revela o diário britânico The Guardian, uma mulher dirige-se a um rico mercador judeu de Haia em nome de uma “amiga em comum” que se viu obrigada a deixar a cidade. Cantora de ópera, descobrira ao chegar a Paris que estava grávida desse mercador e precisava de ajuda para regressar. “Pode adivinhar sem dificuldade a causa do seu desespero”, escreve a amiga da cantora lírica. “Não posso traduzi-lo em palavras. O que poderia dizer é excessivo. Dê-se por satisfeito em pensar nisso e faça-a regressar à vida procurando trazê-la de volta.” Talvez por antecipar o conteúdo da mensagem, o destinatário não quis, sequer, que a carta lhe fosse entregue. Noutras, descreve Van der Linden num dos textos da página oficial de Signed, Sealed & Undelivered, há intensas declarações de amor – rejeitadas pelo destinatário, é preciso acrescentar – e até uma lista de encomendas enviada a um editor. “Conheço bem esses títulos da época”, diz o investigador, “são todos livros pornográficos.”

Defende ainda Ahrendt que estas cartas não guardam apenas mensagens, em tipos de letra mais ou menos cuidados, guardam também sons, já que alguns dos remetentes, praticamente analfabetos, escrevem foneticamente nos seus dialectos próprios, explicou ao diário britânico The Telegraph.

“A colecção inclui também cartas únicas trocadas entre membros de famílias de huguenotes, evidenciando a tensão em que viviam, devido ao exílio e à separação”, acrescenta Van der Linden, referindo-se aos protestantes franceses, intensamente perseguidos nos séculos XVI e XVII, refugiando-se muitos deles em Inglaterra e nos Países Baixos. “Estas cartas mostram o custo emocional das migrações, de viver longe de casa.” A historiadora de música Rebekah Ahrendt acrescenta: “Muitas das inquietações nelas expressas são as mesmas de hoje: pais que se preocupam com os filhos, mulheres zangadas com maridos delinquentes.”

O facto de muitos se terem apaixonado por esta história de pessoas que ficaram mais de 300 anos à espera de resposta na volta do correio mostra, diz Daniel Starza Smith, que há uma certa nostalgia da carta enquanto artefacto que é capaz de encantar e que pode envolver vários sentidos, basta pensar na beleza da caligrafia, no cheiro da tinta e no toque do papel.