Atentado tem rasto em Bruxelas

Uma vez mais, pelo menos um dos atacantes era conhecido das autoridades francesas. O planeamento do ataque pode ter sido feito na Bélgica.

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Um homem põe flores diante a embaixada de França, em Bruxelas, onde se crê que o ataque foi planeado. Eric Vidal/Reuters

Acumulam-se indícios de que a chave para desvendar os segredos do atentado de sexta-feira em Paris está na Bélgica. Foram detidas cinco pessoas numa grande operação em Molenbeek, distrito de Bruxelas, “o ninho de terroristas” do país, nas palavras da especialista da RTL, Dominique Demoulin. Outras três foram capturadas na fronteira com França. Destas, uma estava em Paris na noite do ataque e alugou uma das viaturas usadas pelos jihadistas, embora viajasse numa outra no momento da detenção. A polícia francesa acredita que este último grupo seria a segunda equipa atrás do maior atentado em solo francês desde a Segunda Guerra Mundial, como escreve o Le Monde, citando fontes próximas da investigação.

O procurador de Paris foi cauteloso e deu aos jornalistas apenas o que tinha confirmado: um dos carros usados no ataque tinha matrícula belga e um bilhete de estacionamento de Molenbeek, o mesmo bairro de onde era natural o homem que em 2014 matou quatro pessoas no Museu Judaico de Bruxelas. Mas o LA Times vai mais longe do que François Molins. Cita fontes norte-americanas com conhecimento da investigação que dizem que a polícia está a assumir por enquanto que o atentado foi planeado em Molenbeek, e não na Síria ou Iraque, apesar de ter sido reivindicado pelo autoproclamado Estado Islâmico. Os jihadistas estavam familiarizados com a cultura francesa e conheciam Paris.

Eis o que se sabe ao certo, pelas palavras de François Molins. Morreram sete extremistas nos atentados, e não os oito que tinham sido inicialmente indicados e até referidos pelo Estado Islâmico. Eram três equipas de atacantes, que utilizaram dois veículos. No local da maior chacina, o Bataclan, testemunhas afirmam que, entre os disparos das espingardas automáticas, ouviam os jihadistas insultar François Hollande e dizerem que o ataque era vingança pelos bombardeamentos franceses na Síria e Iraque.

O grupo disse o mesmo quando anunciou ser o responsável pelo atentado. “Enquanto nos continuarem a bombardear, não vão ter paz”, afirmou o grupo num vídeo. “Terão até medo de ir ao mercado”, disse um dos combatentes, que se identifica como “Abu Maryam, o francês”.

Está confirmada apenas a identidade de um dos atacantes: um cidadão francês nascido em 1985, em Courcouronnes, em Essone, arredores de Paris. Tem cadastro por “delitos de direito comum”: oito condenações entre 2005 e 2010, mas nenhuma que o levasse a ser preso. Já à noite, a polícia deteve o seu pai e irmão e fazia buscas em casa do pai, na região de Romilly-sur-Seine, a região de Paris, adiantava a AFP.

Os serviços de segurança interna tinham aberto uma ficha “S”, de “Segurança de Estado”, sobre este atacante do Bataclan, por suspeitarem de que se tivesse radicalizado.

Não é a primeira vez que alguém nas listas de possíveis radicais dos serviços de segurança comete um atentado em França; isso tem sido a regra. Aconteceu o mesmo com os irmãos Kouachi, os autores do ataque à redacção do Charlie Hebdo, o seu parceiro Amedy Coulibaly, que atacou um supermercado judeu, também em Paris. Mas há mais: também tinham “fichas S” do homem que puxou de uma Kalashnikov num TGV, em Agosto, Ayoub el-Khazzani, e do autor de um atentado falhado a uma fábrica em Saint-Quentin-Fallavier, Yassin Salhi.

A designação de “Segurança de Estado” é um caos burocrático em França. O ministro francês Manuel Valls admitiu neste sábado que há mais de 10 mil nomes nessa categoria. Nem todos são vigiados – aliás, estão divididos em não menos do que 16 graus de risco e inclui até nomes de ecologistas e activistas políticos. A esmagadora maioria dos que estão na “lista S” deixa de ser vigiada, se não der indícios de comportamentos perigosos. Deles, as autoridades recebem só alertas sempre que atravessam uma fronteira.

A polícia francesa segue a pista de dois outros atacantes que terão entrado na União Europeia pela Grécia, através da ilha de Leros. Um passaporte sírio foi encontrado junto ao corpo de um dos jihadistas que se fez explodir à entrada do Stadium de France. Nada que garanta, no entanto, que o atacante fosse, de facto, cidadão sírio ou até que tenha chegado à Europa entre refugiados.

PÚBLICO -
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