Rússia, finalmente, assume: “Temos um problema com o doping

Face às evidências, os responsáveis russos admitem agora que o vírus da dopagem infectou o desporto daquele país e anunciam medidas para o combater na tentativa de evitar sanções aos seus atletas.

O atletismo russo continua ensombrado pelo escândalo do doping
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O atletismo russo continua ensombrado pelo escândalo do doping EDUARD KORNIYENKO/Reuters

A Rússia contra-ataca. Debaixo de fogo com as conclusões do relatório da comissão independente da Associação Mundial Antidopagem (AMA) que investiga os casos de doping trazidos a público pela estação televisiva alemã ARD, em Dezembro de 2014, não restou outra alternativa aos responsáveis russos a não ser admitir o óbvio e prometer mudanças. Foi isso mesmo o que trataram de fazer nesta quarta-feira Vitaly Mutko, ministro do Desporto, e Mikhail Butov, secretário geral da Federação Russa de Atletismo. Enquanto o primeiro anunciou que o seu país iria adoptar novas medidas de combate ao doping, como a introdução de novas metodologias para os testes e a abertura de processos-crime contra atletas com resultados positivos, o segundo foi taxativo: “Temos consciência do problema que temos. Temos um problema com o doping.” E ao final do dia, foi o próprio presidente russo, Vladimir Putin, a falar sobre o escândalo pela primeira vez: “Devemos fazer tudo na Rússia para nos livrarmos deste problema.”

Numa tentativa de limitar os danos, Putin frisou nesta quarta-feira que as sanções, a serem aplicadas, não podem ser generalizadas, mas limitadas aos casos dos atletas “apanhados”. Isto a dois dias de o conselho directivo da Federação Internacional de Atletismo (IAAF, sigla na sua versão inglesa), liderado pelo britânico Sebastian Coe, se reunir para discutir uma eventual suspensão do atletismo russo da próxima edição dos Jogos Olímpicos, a Rússia anunciou que está disposta a nomear um “especialista estrangeiro” para dirigir o laboratório de antidopagem de Moscovo, que viu ser-lhe retirada a acreditação internacional na sequência do relatório da AMA.

O laboratório moscovita agora “desacreditado” encontra-se sem director depois de Grigori Rodtchenkov, seu anterior responsável, se ter demitido na sequência da revelação das conclusões do relatório da AMA que o acusava de estar no centro de um esquema de dopagem generalizado e incluía a destruição de testes positivos. Defende-se ainda que todo esta estratégia contava com a complacência governamental.

Segundo o documento elaborado pela AMA, o laboratório de antidopagem russo partilhava o edifício com um centro de investigação estatal ligado ao desporto e dirigido por um médico apontado como sendo o cérebro de todo o programa de dopagem, Sergei Portugalov. O clínico daria conselhos aos atletas sobre dopagem, administrava injecções e ajudava no encobrimento de resultados positivos.

Para além da Rússia, o relatório da AMA alertou ainda para a hipótese do problema do recurso ao doping não se circunscrever apenas àquele país. O Quénia e a Etiópia são outros dois casos sobre os quais paira uma nuvem de suspeição, para além da China. E também faz questão de sublinhar que situações do género podem afectar também outros desportos que não apenas o atletismo, casos da natação, esqui de fundo e remo.

Contudo, numa altura em que o desporto russo está debaixo de fogo, a Rússia, país organizador do próximo Mundial de futebol em 2018, recebeu um apoio inesperado. O Comité Olímpico Internacional (COI) declarou não ter nenhuma razão para duvidar da credibilidade dos testes antidoping realizados durante os Jogos Olímpicos de Inverno, que decorreram em 2014, em Sochi. Na base desta confiança está o facto de o laboratório que efectuou os testes ter sido o existente naquela cidade russa e não o de Moscovo, agora sob suspeita.

Na tentativa de fugir a eventuais suspeitas, a Federação Internacional de Natação (FINA, sigla na versão inglesa) decidiu transferir para Barcelona todas as amostras de sangue e urina recolhidas durante os Mundiais de natação disputados em Kazan e que se encontravam à guarda do laboratório moscovita. A FINA revelou ainda que vai retirar da Rússia a grande maioria das amostras de nadadores russos recolhidas fora de competição e que são, normalmente, analisadas pelo laboratório de Moscovo.

Mas todo este escândalo não se limita à generalização de práticas de dopagem, pois ligadas a elas estão fortes suspeitas de corrupção. E aqui, o nome mais visado é o do senegalês Lamine Diack (82 anos), que abandonou a presidência da IAAF depois de 15 anos no cargo, e que é acusado de ter encoberto a dopagem de atletas russos a troco de dinheiro. com agências