Paulo, Paulo, porque (já não) nos persegues?

Paulo Cunha e Silva era um homem da cultura em toda a plenitude, em todas as dimensões.

Quarta-feira, manhã precoce em Bruxelas, frenética reunião política, lampejou um discreto símbolo verde, ecoou o sinal de mensagens do telemóvel. No ecrã, luminoso e plano, digitada em tecla amiga, jazia a notícia implausível e devastadora: morreu o Paulo Cunha e Silva. Não sei porquê, não insistam nem perguntem, acreditei. E soçobrei. E sucumbi. Como a cidade, com a cidade, sucumbi. Estou devastado, estamos devastados. Ninguém merecia isto, este desenlace: nem ele, nem ela, nem nós. Agora não há tempo, nem há corpo. Só há memória, que é o corpo do tempo.

Já não me recordo de quando conheci o Paulo Cunha e Silva: foi decerto há bem mais de 20 anos. Lembro-me primeiro de ouvir falar dele, depois de o vislumbrar e encontrar fugazmente na então escassa noite do Porto. E mais tarde, não muito depois, de jantar com ele em casa da Gabriela, de falar com ele e dele com o Nuno, de filosofar com ele nas mais díspares ocasiões, de sonhar e projectar com ele em longos e improváveis telefonemas. E lembro-me de como o Rui e o Manuel – amantes fiéis da cultura e do seu vício – e vultos da geração acima – por exemplo, o Artur Santos Silva ou o Luís Braga da Cruz – contavam com ele. Somaram-se, entretanto, os momentos de colóquios, conferências e seminários em que, em diferentes vestes e papéis, estivemos juntos a debater, a pensar, a especular ou simplesmente a variar. Poderia ser no Rivoli ou em Serralves, na Câmara ou no Palácio dos Viscondes de Balsemão, ele estava sempre a organizar algo de novo, que – pasme-se – era mesmo novo. E por entre tantos eventos, fomo-nos cruzando mais e mais, aqui ou ali, em casa desta ou daquele, e engendramos essa amizade, robusta e límpida, capaz da palavra e do silêncio. Se à urbe fará falta a palavra, a mim faltar-me-á o silêncio.

O Paulo não era – como muitos pensavam, com a etiqueta estreita que têm da cultura – um homem da arte, um homem das artes. O Paulo era um homem da cultura em toda a plenitude, em todas as dimensões. O Paulo era um homem da filosofia, da ciência e da arte – e, só assim, no ponto de confluência das três sabedorias, aceitava falar em cultura, pensar em cultura, fazer cultura. O Paulo não estava fechado a nada, nem fechava a porta a nada: a física e a literatura podiam “flirtar”, a matemática e a religião podiam namorar, a política e a pintura podiam apaixonar, o cinema e a medicina podiam copular. Nenhum campo do humano, do mais corpóreo ao mais etéreo, do mais erudito ao mais vulgar, estava imune à vocação e à provocação da cultura. Nele tudo era contemporaneidade, senão futuro; ele, mais romano que florentino, todavia renascentista, estava sempre a par de tudo. Se a contemporaneidade, inabarcável como é, encarnasse chamar-se-ia Paulo Cunha e Silva. Com o seu apetite de tudo entender e a volúpia de nos oferecer o entendimento de tudo, ele seria o corpo ou a instalação do contemporâneo. Ele almejava o entendimento, a compreensão, o conhecimento, para que entendendo, compreendendo, conhecendo, pudéssemos amar, pudéssemos cuidar. Ele gostava de amar; ele amava gostar.

O Paulo era ainda o Porto. Não há Porto sem Paulo. Não havia Porto sem Paulo. Era o Porto da cultura, mas também e principalmente da contracultura. O Porto que resistia e se rebelava, mas também o que dormia, o que tinha insónias e o que madrugava. Era o Porto cosmopolita e underground, cosmopolita porque underground. Um Porto que residia na humidade insalubre das bandas de garagem e se alojava na altivez nua das lojas revivalistas; que se revoltava contra o deserto de ideias e de liberdades e que se inebriava com o éter de profundidades fúteis e de profundas futilidades. Um Porto que ele amava e que fazia brilhar, trazendo-o e levando-o, levando-o e trazendo-o, sem receio nem medo de o embalar. O Porto era o mundo; o Porto era o imundo.

O Paulo nunca se queixava: fazia, sonhava, convocava. Raras vezes dizia mal: avançava, convidava, estendia-se. O Paulo espicaçava, estimulava, agitava, empurrava. O Paulo inspirava. Na semana passada, no fórum do futuro, inspirou-nos e inundou-nos com o mais presente, o mais contemporâneo dos temas: a felicidade. Se nas academias todos pensam a felicidade, se nas praças todos a discutem, se nas vidas todos a perseguem, porque haveríamos nós de ser privados de a pensar, discutir e perseguir? Na sua última grande realização, por ironia, capricho ou generosidade do destino, o Paulo deixou-nos a felicidade. O Paulo, mais do que tudo, foi um libertador da cultura. Libertava cultura e libertava a cultura. Libertava-a para nós, para a cidade, para todos. Livrando e libertando, perseguia-nos. Perseguia-nos numa perseguição livre, livre e libertadora. Agora triste, infinitamente triste, só me ocorre a pergunta feito ao nosso homónimo, também romano, também génio, também criador, também libertado libertador. Sem consolo nem conforto, ouso perguntar-te: Paulo, Paulo, porque já não me persegues? Paulo, Paulo, porque já não nos persegues?

Eurodeputado (PSD)