O imposto que Jamie quer mas Cameron não

Taxar produtos com açúcar e refrigerantes? Jamie Oliver conseguiu pôr o tema na ordem do dia entre os britânicos. Mas o Governo não quer ouvir falar no imposto.

O documentário de Jamie Oliver sobre o açúcar, Jamie’s Sugar Rush, entra a matar: numa das primeiras cenas vemos Mario, uma criança de seis anos, a ser levado para a sala de cirurgias de um hospital para lhe serem arrancados seis dentes.

Não é que Mario não lave os dentes as vezes recomendadas, o problema é que é uma criança que “gosta muito de doces” — e os doces e refrigerantes, que consome constantemente, apodreceram-lhe os dentes ao ponto de os médicos terem de os arrancar para tentar salvar a dentição definitiva.

E, explica um dos médicos que Jamie entrevista, Mario está longe de ser um caso isolado. São 26 mil as crianças que todos os anos dão entrada nos hospitais britânicos para extracção de vários dentes — em alguns casos, da totalidade dos 20 dentes de leite.

Este é o princípio de uma história de terror que Jamie quis mostrar aos britânicos. Quando pergunta ao médico se o açúcar é em parte responsável por esta situação, aquele responde de forma taxativa: “É inteiramente responsável.”

As contas são simples: a dose máxima de açúcar recomendada por dia é de sete colheres de chá. Mas, segundo o documentário, muitas pessoas consomem,  sem dificuldade, mais de 40. É fácil perceber como. Com a ajuda de uma nutricionista, Jamie prepara um pequeno-almoço aparentemente saudável: sumo de laranja, cereais, iogurte e mirtilos. Só aqui temos 14 colheres de açúcar, o dobro do recomendado.

O programa continua por hospitais, onde Jamie visita pessoas que tiveram de amputar membros por causa da diabetes tipo 2 (são cerca de 7000 por ano no Reino Unido), uma doença que está a aumentar de forma preocupante entre a população e que representa já 10% do total de custos do sistema nacional de saúde britânico.

O foco de Jamie são as crianças — que começam também a sofrer, a níveis preocupantes, de diabetes tipo 2. Para demonstrar os efeitos que a publicidade a produtos carregados de açúcar tem nos miúdos, uma criança vai com a mãe a um supermercado usando uns óculos que permitem perceber para onde se dirige o seu olhar — a conclusão é que todos os doces estão estrategicamente colocados em prateleiras à altura dos olhos de um miúdo de cinco ou seis anos.

Há duas semanas, Jamie Oliver recebeu um forte apoio à sua causa com a divulgação de um relatório sobre os efeitos do açúcar na saúde das crianças, que defende um imposto até 20% sobre os refrigerantes. O relatório, intitulado Sugar Reduction: the Evidente for Action, foi elaborado pelo Public Health England, um grupo de aconselhamento do Governo, mas, segundo a imprensa britânica, a sua publicação foi sucessivamente adiada para evitar uma situação embaraçosa ao Governo.

É que, apesar do diálogo que tem mantido com Jamie Oliver, o primeiro-ministro David Cameron já manifestou publicamente a sua oposição a um imposto sobre o açúcar. E depois da publicação do relatório, Cameron reafirmou a sua posição, apesar de dois terços dos médicos britânicos serem favoráveis à ideia. Segundo o documento, o açúcar, sob diversas formas, representa entre 12 e 15% do consumo energético diário dos britânicos, quando não deveria ultrapassar os 5%.

A maior empresa produtora de doces no Reino Unido, a Cadbury, entrou também no debate dizendo que um imposto sobre os produtos com açúcar não vai levar as pessoas a alterar a forma como se alimentam. “A Dinamarca retirou o imposto sobre o açúcar porque não levou a mudanças no comportamento dos consumidores”, argumentou a responsável da Cadbury, Mary Barnard. “Podemos fazer mais pela saúde? Sim e devemos fazer mais, mas também tem de haver espaço para doces nas nossas vidas. Detestaria ver desaparecer a alegria que a Cadbury representa há décadas.”

No documentário de Jamie, Ian Wright, director-geral da Federação de Alimentos e Bebidas, nega que haja uma “estratégia promocional agressiva” para atrair crianças para este tipo de produtos. Quando Jamie o interroga sobre a quantidade de anúncios que surgem online e na televisão, nos programas de maior sucesso como o Britain Got Talent, responde que “se a família vê o programa junta, cabe aos pais explicar às crianças o que devem ou não consumir”.

Além disso, argumenta, “demonizar uma coisa, como o açúcar, entre tudo o que existe, não é a melhor forma de apresentar a questão”. Reconhece que “a obesidade é um problema”, mas explica que a posição da federação é de que “a escolha dos consumidores é o melhor caminho, porque a intervenção dos governos é algo que, simplesmente, não funciona”. 

Jamie Oliver declara guerra ao açúcar