Európera com um ovni português

Be with me now é uma criação colectiva em busca de novos caminhos para a ópera contemporânea. Lá dentro, uma peça de um compositor português inquieto com os destinos da Europa. Estreia terça-feira, na Gulbenkian.

<i>Be with me now</i> é uma co-produção que envolve oito países
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Be with me now é uma co-produção que envolve oito países Vincent Beaume

Não espere sair reconfortado. Se pensa entrar amanhã, terça-feira, no Grande Auditório da Gulbenkian (21h), em Lisboa, para ver e ouvir Be with me now, prepare-se para uma viagem que termina com um inquietante ponto de interrogação sobre a Europa de hoje.

Começa-se com Mozart. Mas o excerto de A Flauta Mágica é apenas o arranque para um percurso musical que desembocará numa peça do compositor português Vasco Mendonça. Be with me now propõe uma espécie de colagem musico-teatral com uma história de amor atravessando diferentes cantos da Europa. “Não é bem uma ópera. É um teatro musical com uma história universal no mundo da música”, explica-nos Miguel Sobral Cid, director adjunto do serviço de música da Fundação Gulbenkian.

O espectáculo pega em “representações icónicas da ópera” e funciona por vezes como “teatro dentro do teatro”, diz Sobral Cid. “Não é um espectáculo convencional. É uma viagem no mundo da ópera com música nova, escrita para esta produção”, diz. Para além de excertos de Mozart, Britten, Stravinsky, Bellini, Wagner e de vários outros compositores, o espectáculo inclui composições originais de Daan Janssens e do compositor português Vasco Mendonça.

“Não consigo não ser do meu tempo”

A “história de amor universal” conclui-se com uma interrogação do compositor sobre os destinos do continente onde a ópera nasceu. Vasco Mendonça explica as regras do jogo: “Pediram-me para compor uma peça e usar as forças todas, as cinco vozes e os quatro instrumentos. É o único momento do espectáculo em que há tutti.”

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A composição de Vasco Mendonça aparece como um número relativamente autónomo no final do espectáculo, que faz como que “uma cartografia por lugares importantes da Europa, a partir de uma história de amor”, revela-nos o compositor. E a sua peça surge como um epílogo: “É mais um ponto de interrogação do que um ponto final. Mais do que a história de amor, interessava-me a ideia de Europa, que pode ter várias facetas: por um lado há uma circulação de artistas, há a capacidade de criação de compromissos e boas ideias; mas por outro há uma Europa a ferro e fogo. Por isso quis questionar o que podem ser as coisas menos felizes. Como cidadão inquieta-me o destino da Europa.”

Vasco Mendonça diz que “não se trata de uma peça política ou panfletária”, mas ao mesmo tempo afirma: “Não consigo não ser do meu tempo.”

O compositor desejava para este seu “epílogo” um texto “que pudesse ser lido em várias dimensões, com ambiguidade, com várias camadas”. E como andava às voltas com um poeta, Phillip Larkin, decidiu pegar num poema (“this was your place of birth...”) onde “um lugar tranquilo, feliz, de luz, em breve se vai tornar na noite. As nuvens começam a lançar sombras sobre a terra”.

A ideia era “criar alguma inquietação”, desde a estreia deste espectáculo no Festival de Aix-en-provence no ano passado. E o compositor tornou esta ideia um desafio pessoal, com um verso levado a peito: “será que estás preparado para o que a noite vai trazer?” As sombras do poema de Larkin assolam também a Europa actual, onde Vasco Mendonça vê potencialidades e ao mesmo tempo perigos angustiantes: “Estou a fazer uma carreira a nível europeu como artista, e também sou produto desta Europa do incentivo à criação e à mobilidade dos artistas. Há um lado maravilhoso nisso. Mas também há coisas que me angustiam.” O compositor, que afirma ser uma pessoa “atenta ao que se passa no mundo”, queria exprimir aquela angústia não de forma moralista, mas para termos a noção de que "isto pode correr mal”.

Esta necessidade de expressão tornou-se motor da sua criação, de um compositor mais habituado a trabalhar num registo mais íntimo e pessoal: “Neste contexto, de uma estreia com circulação europeia, senti que tinha de criar uma coisa mais austera e mais tensa”. Uma peça com ambiguidade suficiente para pensar (e fazer pensar) com a música.

Musicalmente, a peça final de Be with me now partiu “da descontrução da ideia de sino”, explica o compositor. A partir das características sonoras “do que é um ataque de sino”, o compositor fez outros gestos musicais com um perfil semelhante criando o que diz ser “uma espécie de sino humano”. Mas sinos porquê? “Há uma sensação de urgência associada ao sino. O sino tem o sentido de anúncio de catástrofe mas também de momento glorioso. E essa ideia foi-me alimentando enquanto fazia a peça.” Peça que construíu conhecendo as vozes dos intérpretes de Be with me now: “É preferível conhecer as vozes. Tive uma reunião com os 5 cantores, tirei notas sobre as vozes e os registos e compus para aquelas vozes e as suas cores específicas.”

Uma rede para uma nova ópera

Vasco Mendonça participou neste projecto ao lado de um conjunto de artistas e intérpretes de diferentes países. “Be with me now foi um projecto muito partilhado”, diz Miguel Sobral Cid, explicando como funcionou o processo de co-criação e co-produção: “Houve propostas iniciais e depois o projecto foi feito em diálogo com os artistas.”

No fundo Be with me now pretende ser um exemplo de “uma nova maneira de olhar para o espectáculo e para o teatro”, diz Sobral Cid. Para o director do serviço de música, “quando se fala de ópera pensa-se no repertório operático do século XIX, na grande ópera. Mas na verdade são raras as oportunidades de escrever dessa forma. O género tem de se renovar e ser sustentável.” Daí a necessidade de pensar não só em grandes produções, mas num espectáculo mais ligado ao espaço teatral, com os ingredientes da ópera, mas mais modesto e mais intenso. E com temas mais actuais, diz Sobral Cid.

Be with me now procura ao mesmo tempo ser um reflexo destas novas formas de co-produção: “O espectáculo é uma co-produção de oito das 11 instituições que pertencem à rede ENOA, financiada pela União Europeia, que promove formação e mobilidade de jovens artistas, intérpretes, cenógrafos e compositores”, diz Miguel Sobral Cid. A rede ENOA tem entre os seus parceiros escolas e academias, produtores de ópera, fundações e festivais. Para além da mobilidade dos artistas e da interacção e partilha de custos entre as instituições, a ENOA promove workshops de formação para artistas nas suas áreas, tendo em vista o surgimento de projectos de ópera ou músico-teatrais novos. “Ao mesmo tempo é de risco”, defende, “procurar mostrar num único espectáculo o que é a actividade da ENOA e a sua forma de funcionar”, salientando que se trata de “um processo colectivo, muito enriquecedor para qualquer das instituições. Aprendemos a trabalhar colectivamente.”

Para Sobral Cid projectos como este permitem que jovens artistas circulem pela Europa e sejam ouvidos: “Vasco Mendonça é um jovem compositor com talento e mérito, mas que [sem a ENOA] dificilmente veria ser difundida a sua obra em todos estes teatros.”

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Compositor de ópera

Vasco Mendonça, 38 anos, afirma-se hoje sobretudo como um compositor de ópera, caso raro no meio musical português. E tem tido encomendas, o que o faz sentir-se um compositor “privilegiado”, pois é no campo do teatro musical que se sente particularmente bem: “É a ópera que tem definido o meu percurso.”. E tem já uma encomenda para uma nova ópera no próximo ano, a propósito dos 500 anos do pintor Hieronymus Bosch. “Quando estou a fazer ópera é porque gosto de teatro. Não faz sentido pensar numa ópera como uma peça musical no éter”, diz o compositor. “Tem de se estar preocupado com o drama e com o palco: o tipo de transacções entre personagens, a velocidade, o tipo de drama, o tipo de trabalho vocal, não podem ser neutros com a situação teatral.”

Para ele o que importa na composição para ópera é mesmo conseguir criar o “drama através da música” dos tempos de Monteverdi. “Coisa impossível mas ao mesmo tempo um milagre quando acontece”, diz o compositor.

Em Be with me now a sua peça é menos evidentemente “operática” e Vasco Mendonça prefere pensar nela como “quase um madrigal na sua ligação íntima de texto e música”. Madrigal onde há “teatralidade”, mas que não tem a natureza de uma peça de teatro. “Sempre gostei da estranheza daquilo, dos madrigais de Gesualdo. E talvez haja aqui um certo maneirismo na escrita vocal, com características semelhantes aos madrigais seiscentistas.”

Vasco Mendonça fala com paixão desta ligação entre texto e música e da ideia curiosa “da necessidade de combater o que neles se repele, para os tornar caixas de amplificação um do outro, no encontro, na combinação e partilha dos dois meios, a palavra e a música.” Para o compositor, os caminhos dessa ligação na construção do drama musical estão em aberto: “Não há nenhum tipo de abordagem que rejeite. Não há uma direcção única para a ópera, nem fronteiras bem definidas.”

Um dos desafios da ópera contemporânea, garante, é conseguir bons libretos, que possuam aquela “qualquer coisa que não é ainda”: “A construção do libreto é terrivelmente difícil. É preciso encontrar um bom libreto que nos inspire e inflame, que nos potencie como compositor. É parecido com um fósforo que a música transforma num milagre de luz. E isso não é liquído. Mesmo grandes escritores...” Mas as dificuldades neste terreno parecem entusiasmar este compositor, que anda sempre à procura do “maravilhoso” que é quando palavra, música e drama se encontram “para criar uma atmosfera inesquecível e perturbante.”

Vasco Mendonça considera esta sua peça um ovni inquietante no espectáculo: “Pela sua natureza, tensa, ela é uma espécie de ovni em Be with me now, num contraste é assumido. As luzes mudam e a cenografia também - está fora da história." Não negando a peça e a história de amor, queria que ela abrisse um espaço, fizesse um corte claro com o que é o espaço cénico até então. É por isso que diz: "A peça tira-nos o tapete, depois de uma história com um certo grau de ingenuidade. E sabota o desejo de irmos para casa reconfortados, suponho eu.”