Opinião

Quebrar o tabu: HBP não significa perda de virilidade

Ao contrário do que muitas vezes se pensa, a Hiperplasia Benigna da Próstata não afecta a sexualidade.

A próstata aumenta progressivamente de tamanho com a idade. Este aumento resulta da acção de uma hormona sobre a próstata – a testosterona, a “hormona masculina”. Ocorre um aumento do número de células da próstata (daí o termo Hiperplasia Benigna da Próstata, vulgarmente designada por HBP) e, em consequência, o órgão aumenta de tamanho.

Em resultado da acção da testosterona e do aumento progressivo das suas dimensões, a próstata vai pouco a pouco comprimindo a uretra e causando queixas urinárias. Estas queixas resultam não só desta compressão (a uretra fica cada vez mais “estreita”) como da resposta da bexiga à obstrução, que resulta dessa diminuição de calibre. A bexiga tem de contrair com mais força, mais “pressão”, de que resulta um aumento progressivo da espessura da sua parede e alterações, igualmente progressivas, do seu funcionamento, sensibilidade e capacidade.

Assim, os homens que sofrem desta doença queixam-se, por exemplo, de um jacto urinário muito fraco, de demorarem muito tempo a urinar, muitas vezes ficando a pingar no final da micção, de terem de fazer um grande esforço para urinar, de não conseguirem esvaziar a bexiga completamente, de urinar muito frequentemente, quer de dia quer de noite, de terem uma vontade muito súbita, urgente, de urinar (por vezes não conseguindo reter a urina e apresentando perdas de urina) e de dor na barriga (geralmente abaixo do umbigo). Se não forem adequadamente tratados, podem mesmo chegar a ficar com a “urina presa” (retenção urinária), tendo por isso de colocar uma sonda ou, mesmo, de sofrer de insuficiência renal – os rins podem  mesmo deixar de funcionar, em casos mais graves da doença.

Como se percebe, estas queixas causam uma grande perturbação da qualidade de vida dos doentes. É fácil imaginar que uma pessoa que acorde 3 ou 4 vezes de noite para urinar não consegue ter um sono descansado; o mesmo acontece se perder urina, quer antes quer no fim de urinar. São sintomas que perturbam o bem-estar do doente, a sua vida pessoal, profissional, social e de relação. No entanto, ao contrário do que muitas vezes se pensa, esta doença não afecta a sexualidade, a “virilidade” masculina. Os tratamentos e as cirurgias relacionadas com a próstata (geralmente os tratamentos do cancro da próstata mas, também, alguns dos tratamentos para o aumento benigno) podem, eles sim, causar problemas de sexualidade, quer relacionadas com a erecção, quer relacionadas com o desejo (“líbido”), quer relacionadas com a ejaculação. Ou seja, a doença não afecta directamente a sexualidade, nomeadamente a erecção dos doentes, mas as consequências da doença e alguns dos tratamentos podem fazê-lo. A melhoria da qualidade de vida global dos doentes que se obtém com a maior parte dos tratamentos para a HBP permite conseguir, também, uma melhoria da sexualidade, nos seus diferentes aspectos e vertentes. Isto porque, se (bem) tratado, o homem passa a ter uma maior qualidade de vida, maior disponibilidade e maior vontade de ter uma vida sexual mais satisfatória.

O tratamento da HBP tem dois pilares fundamentais: os medicamentos e a cirurgia. Ambos têm sofrido notáveis evoluções nos últimos anos.

Em relação aos primeiros, surgiram recentemente novos fármacos para o tratamento desta doença e passaram a estar, também, disponíveis associações de medicamentos diferentes num só comprimido, que permitem um tratamento mais eficaz e adequado a cada doente. Estes avanços constituem uma mais-valia para muitos doentes com HBP, nomeadamente os que apresentam queixas muitas vezes não são (não eram) adequadamente controladas com os medicamentos clássicos. Os doentes com queixas de grande aumento da frequência urinária, que urinam muitas vezes de dia e/ou de noite, os doentes com vontade súbita de urinar, por exemplo, podem beneficiar significativamente destes novas formas de tratamento.

Também, em relação às técnicas cirúrgicas, ocorreu um desenvolvimento significativo nos últimos anos. Cada vez mais se efectuam técnicas pouco invasivas (designadas por “minimamente invasivas”), nomeadamente as que utilizam o laser e formas alternativas de energia.

Urologista no Hospital de Santa Maria e director do Instituto da Próstata e Incontinência Urinária