Sete anos depois, o Autódromo do Algarve só pensa na sobrevivência

Inaugurado a 2 de Novembro de 2008, o circuito de Portimão, um dos melhores do mundo, está a recuperar da crise que quase o levou à falência e ainda sonha acolher a Fórmula 1 ou o MotoGP.

Max Mosley no Autódromo do Algarve, em 2009
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Max Mosley no Autódromo do Algarve, em 2009 DR

As ondas de choque da crise financeira internacional já abalavam Portugal quando, a 2 de Novembro de 2008, o Autódromo Internacional do Algarve (AIA) abriu oficialmente as portas. Nesse mesmo dia, o então ministro da Economia, Manuel Pinho, presente na inauguração do circuito, antecipou um futuro de sucesso ao equipamento, num ambiente festivo, contrastante com o clima pesado que se vivia em Lisboa, onde o seu colega das Finanças, Teixeira dos Santos, anunciava a polémica nacionalização do BPN, com efeitos devastadores nas contas públicas. O contexto não poderia ser pior para o ambicioso empreendimento de Portimão, que iria englobar, para além do parque desportivo motorizado, uma componente imobiliário-turística e, acima de tudo, um parque tecnológico apresentado como o embrião de um futuro cluster automóvel no barlavento algarvio. Mas o ambicioso investimento global de 200 milhões de euros iria, em pouco tempo, ruir como um castelo de cartas. Sete anos depois, a prioridade continua a ser a sobrevivência, agora longe dos holofotes mediáticos.

O projecto que a promotora Parkalgar garantia ser “à prova de bala” e que nunca se transformaria num “elefante branco” tinha afinal pés de barro. Falharam as fontes de financiamento e as prometidas comparticipações estatais para a realização de eventos desportivos, acumularam-se dívidas e, quatro anos depois da inauguração, os responsáveis recorreram a um Processo Especial de Revitalização (PER) para evitar uma iminente falência. O plano de reestruturação financeira seria homologado a 26 de Novembro de 2012 pelo Tribunal de Portimão, que aceitou reduzir em 25% os 160 milhões de dívidas acumuladas (40 milhões de euros), afectando a totalidade dos pequenos credores. Aclamado pela generalidade dos especialistas como um dos melhores circuitos a nível mundial, esfumava-se também o sonho de o AIA receber as grandes provas de Fórmula 1 (F1) ou MotoGP.

“É um grande dia. O empenho e visão dos privados foram fundamentais para um projecto com dimensão regional, nacional e internacional”, congratulou-se Manuel Pinho durante a inauguração do autódromo. Nos meses anteriores, o ministro acompanhara de perto o desenvolvimento desta infra-estrutura bastante acarinhada pelo Executivo de José Sócrates — e pela Câmara Municipal de Portimão —, que lhe reconheceu o estatuto de Projecto de Potencial Interesse Nacional (PIN), em 2005.

No dia de abertura do AIA — que estreou a pista com uma prova de Superbikes (o evento internacional de maior relevo disputado no circuito algarvio) —, dezenas de milhares de espectadores rumaram ao recinto, com filas de trânsito quilométricas que entupiam os vários acessos ao parque desportivo, localizado na Mexilhoeira Grande, uma freguesia rural do concelho de Portimão. Na sua maioria eram algarvios, entusiasmados com um equipamento que prometia trazer desenvolvimento e emprego a uma região dependente do sector turístico.

Entre a multidão de curiosos estava José Vitorino, actualmente presidente da Junta de Freguesia da Mexilhoeira Grande. “Toda a gente na Mexilhoeira estava entusiasmada com o projecto. Diziam que iria trazer muitas pessoas à terra e empregar muita gente. Mas isso não aconteceu”, lamentou ao PÚBLICO. Para o autarca, o impacto do AIA na vida da freguesia “foi zero” e deixou “as pessoas desiludidas”: “Não apareceram os empregos prometidos.”

Uma realidade bem distinta daquela que fora acenada pelos responsáveis da Parkalgar e da Câmara Municipal de Portimão (CMP) que, em 2008, previram a criação de 1650 postos de trabalho directos e outros mil indirectos, contribuindo com um acréscimo de 700 mil novos turistas na região todos os anos. Na verdade, após a homologação do PER, o universo de trabalhadores da empresa foi emagrecendo até aos 42 funcionários actuais. “Possivelmente houve precipitação neste projecto, que foi demasiado megalómano”, concluiu José Vitorino.

Primeiras contrariedades
O primeiro grande revés ocorreu poucos meses após a inauguração, no contexto da crise imobiliária internacional. No início de 2009, a falência do grupo irlandês Harte Holding, com quem a Parkalgar tinha assinado um contrato de compra e venda de 160 apartamentos turísticos e de um hotel de cinco estrelas, a construir no complexo do autódromo, constituiria um rude golpe para o futuro da empresa. De um momento para o outro, a detentora do AIA via-se privada de 42 milhões de euros, fundamentais para o financiamento e viabilização do projecto. “Foi um balde de água fria tremendo. A partir daqui tudo se complicou, com os excessos dos juros [dos empréstimos contraídos junto do Millennium-BCP], empréstimos adicionais, etc. É aqui que o problema começa a surgir”, explicou ao PÚBLICO Paulo Pinheiro, administrador executivo da Parkalgar.

Seria a primeira de uma série de fatalidades que foram empurrando a Parkalgar para o precipício. Outro duro golpe envolveria o parque tecnológico, um projecto idealizado pelos promotores do AIA e bastante apoiado pela autarquia portimonense, planeado para os terrenos do complexo desportivo que envolve o circuito. Surgiram alguns interessados, como o empresário luso-sul-africano Tony Teixeira, presidente da A1 Grand Prix, que iniciou negociações para a instalação de uma fábrica de monolugares de competição da Ferrari, que implicaria a criação de 350 postos de trabalho, num investimento total de 30 milhões de euros, comparticipado pelo município de Portimão e pelo Turismo de Portugal. Mas tão subitamente como surgiu, Tony Teixeira desapareceu do mapa, deixando atrás de si dívidas avultadas. Surgiram outros potenciais interessados, mas nunca se passou além da fase de negociações.

“Houve três ou quatro possibilidades para que o parque tecnológico pudesse ser desenvolvido, mas ou não havia capital suficiente para investir ou exigiam benesses fiscais irrealistas”, justificou Paulo Pinheiro, que aponta o dedo também ao Governo, através da AICEP (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal), acusando-o de desinteresse em relação a potenciais investidores que apresentaram projectos mais consistentes: “A resposta que nos deram foi zero. É certo que a economia já estava numa fase complicada e não havia grande capacidade de apoiar investimentos, mas nem respondiam às empresas.”

Estado falha compromissos
E as queixas em relação aos Governos liderados por José Sócrates e Pedro Passos Coelho não ficam por aqui, estendendo-se igualmente aos apoios prometidos para a realização de provas desportivas internacionais no AIA, nomeadamente uma corrida de GP2 (uma espécie de antecâmara da F1), que teve reflexos negativos na imagem externa da Parkalgar. “No Verão de 2008, face à possibilidade de estabelecermos um contrato com a GP2, falámos com Laurentino Dias [na altura secretário de Estado do Desporto] e ele disse-nos para avançar. A ideia era que esta prova abrisse as portas para recebermos a F1, o que era também a perspectiva do Governo”, explicou Paulo Pinheiro.

O Executivo elaborou uma carta, assumindo as custas de uma comissão de 6,8 milhões de euros à Fórmula One Management, presidida pelo britânico Bernie Ecclestone, para a realização da corrida, mas só avançaria com uma parte deste valor, ficando por liquidar mais de três milhões de euros. O “patrão” da F1 acabou por interpor uma acção de arresto aos bens da Parkalgar em 2012. “Isto criou-nos uma péssima imagem no mundo dos desportos motorizados. A partir daqui, ficámos conhecidos como aqueles que não pagam”, lamentou o responsável do AIA.

A imagem da Parkalgar seria também abalada internamente, em Abril de 2010, quando o jornal Sol revelou uma escuta de uma conversa telefónica entre Armando Vara, na altura administrador do Millennium-BCP (principal financiador e credor da empresa algarvia) e Laurentino Dias, ocorrida a 14 de Julho de 2009 e interceptada pelo Ministério Público e pela Polícia Judiciária de Aveiro, no âmbito da Operação Face Oculta. No diálogo entre os dois, o banqueiro defendeu uma injecção de dinheiros públicos na Parkalgar e a nacionalização do equipamento. Vara propunha mesmo que o primeiro-ministro José Sócrates interviesse directamente junto de Francisco Bandeira, então vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos (CGD), para convencer o banco estatal a financiar a Parkalgar através de duas linhas de crédito, num total de 20 milhões de euros.

“O projecto [do AIA], do ponto de vista económico, é irracional, mas está feito e, um dia qualquer, o Estado nacionaliza aquilo, que é a solução (…) Aquilo será sempre um sorvedouro de massa, enquanto estiver no privado”, concluiu o banqueiro. Laurentino Dias concordou e deixou uma sugestão: “O AICEP e o Turismo [de Portugal] podem lá pôr mais algum [no projecto da Parkalgar].” O ex-responsável pela pasta do Desporto referia-se a um eventual reforço da participação das duas sociedades de capital de risco do Estado (AICEP Capital Global e TC Turismo Capital) na estrutura accionista da Parkalgar.

Este incidente contribuiu para atestar a estreita ligação entre a Parkalgar e o Governo de José Sócrates, que sempre procurou incentivar este equipamento em Portimão, apesar de não ter cumprido muitos dos compromissos financeiros assumidos. Foi, aliás, após a tomada de posse do primeiro Executivo do ex-primeiro-ministro, em 2005, que o projecto ganhou forte impulso, com o reconhecimento do interesse público, a 8 de Setembro de 2005, num despacho conjunto assinado pelos ministros do Ambiente e Ordenamento do Território e da Economia.

Seria o primeiro investimento no Algarve a merecer o estatuto de PIN e o terceiro do sector do turismo em Portugal. Depois de cinco anos à espera do aval governamental, indispensável para iniciar o processo de licenciamentos, estavam ultrapassados os entraves burocráticos. Apesar de admitirem o contributo do Governo Sócrates, os responsáveis da Parkalgar rejeitam qualquer forma de tratamento privilegiado. “Fomos aprovados naquela altura, por isso ficámos conotados. O engenheiro Sócrates ajudou-nos no sentido de apoiar o projecto, nada mais. Não houve favores nenhuns. Essa imagem [de colagem ao anterior primeiro-ministro] sempre nos prejudicou”, garantiu Paulo Pinheiro.

A CGD recusaria o financiamento ao projecto e o Millennium-BCP acabou por liderar o processo de reestruturação da empresa, que culminou com o PER de Novembro de 2012. Mais recentemente, o banco privado abriu linhas de financiamento para a Parkalgar completar a construção dos apartamentos, já concluída, e do hotel, que será parcialmente inaugurado até ao final deste ano. As receitas da venda dos apartamentos servirão para abater dívidas.

A recuperação
Os promotores garantem que o pior já passou e estão confiantes em relação à viabilidade do projecto. “Em 2014 tivemos um ano de funcionamento simpático, com um volume de negócios entre os 15 e 16 milhões de euros. E, em 2015, podemos chegar aos 20 a 22 milhões de euros, o que estará, mais ou menos, em linha com a previsão do PER”, avançou ao PÚBLICO Manuel Niza, presidente da Parkalgar: “Um projecto desta natureza não pode ser amortizado a dez anos. Tem de ser em 30 ou 35 anos. É um investimento pesado que vai, ao longo dos anos, gerando dinheiro, que é o que está a acontecer.”

Segundo os responsáveis pelo AIA, o circuito tem actualmente uma taxa de ocupação “de quase 100%”, entre apresentações de novos modelos automóveis, testes, track days (eventos desportivos em que condutores habilitados podem conduzir o seu veículo num autódromo) e corridas nacionais e internacionais. “É fácil no sul da Europa ter um circuito ocupado 20 dias por mês. É mais complicado isso acontecer 25 dias por mês, mas ter 30 dias todos os meses, como acontece connosco, é muito pouco provável. Mas é o que estamos a fazer aqui”, garante Paulo Pinheiro, que considera ter sido afastado “o espectro da falência”.

Se a taxa de ocupação “é invejável”, o director-executivo não esconde que continua a faltar algo de muito importante: “O circuito é para ter corridas e isso cria alguma frustração. Somos o único circuito da Europa de primeira geração e merecíamos ter aqui a F1, que foi para isso que ele foi feito.” Mas, enquanto não houver apoios públicos para trazer as grandes provas internacionais, as bancadas, com capacidade para acolher 95 mil espectadores, vão continuar despidas de público.