Um nómada no seu século

Plural e inclassificável, Siegfried Kracauer penetrou com métodos novos na realidade também nova da primeira metade do século XX, decifrando-a a partir das suas manifestações de superfície. Finalmente, com Os Empregados, chega à edição portuguesa.

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Só algumas décadas depois da sua morte, tinha ele 67 anos, a sua obra irradiou com uma força que criou o efeito de uma Kracauer-Renaissance, como se chegou a dizer nalguns meios DR
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Kracauer viu em filmes dos anos 20 como O Gabinete do Dr. Caligari, de Robert Wiene, um espelho “macabro, sinistro e mórbido” da alma colectiva alemã DR

Siegfried Kracauer pertence de pleno direito à distinta categoria dos “homens póstumos”: atravessou quase sempre na sombra a cultura do século XX, cujos novos sonhos, formações e fantasmagorias interpretou e analisou com métodos próprios e sem nenhum respeito por cânones e territórios disciplinares. Só algumas décadas depois da sua morte, que ocorreu em 1966, tinha ele 67 anos, a sua obra irradiou com uma força que criou o efeito de uma Kracauer-Renaissance, como se chegou a dizer nalguns meios. Resultado já um tanto diferido desse efeito é a publicação em Portugal de um importante livro de Kracauer (o primeira a chegar à edição portuguesa) que pertence tanto à história da sociologia como da etnologia urbana. Chama-se Os Empregados, é um estudo-reportagem sobre os empregados berlinenses do final dos anos 20 do século passado, sobre a classe dos “colarinhos brancos”  a classe média, a Mittelstand – submetida à proletarização pelo processo de racionalização da empresa moderna, organizada de maneira cada vez mais abstracta, até ao ponto de ser equiparável ao mundo kafkiano. Na verdade, diz Kracauer numa passagem do seu livro, Kafka foi o primeiro autor a descrever a racionalidade impenetrável, o universo de horror que é a nova organização do trabalho.

Mas para percebermos o objecto, o alcance e o método deste singular estudo-inquérito de Kracauer temos de fazer uma retrospectiva do percurso deste intelectual que foi uma figura central, embora inclassificável, da cultura de Weimar. Se começarmos pelo poliedro que é a sua vasta obra, temos de mencionar o seu inveterado nomadismo, a vasta amplitude dos seus interesses e a pluralidade de territórios da criação e do saber onde fez incursões. Estudou Arquitectura em Darmstadt e trabalhou durante algum tempo num atelier, mas essa faceta ficou escondida. Empenhou-se, aliás, em denegá-la com tanto cuidado como aquele que investiu em preservar o “anonimato cronológico” (é a expressão que ele utiliza numa carta a Adorno), isto é, em nunca revelar a idade que tinha. Uma vez abandonada definitivamente a carreira de arquitecto, tornou-se jornalista, escritor (autor de dois romances), crítico e teórico do cinema, historiador, sociólogo, filósofo. Frequentou cada um destes campos como um outsider, de tal modo que foi vulnerável a uma suspeita que está presente em Adorno – a de que tinha características de diletante e de esteta  e que muito contribui para momentos muito conturbados da relação entre ambos, nomeadamente quando Kracauer, já no exílio, trabalhou para a Revista de Investigação Social, a publicação científica da Escola de Frankfurt, quando ela já se tinha transferido para os Estados Unidos, devido ao nazismo. O eclectismo, praticado até com a intenção programática de lutar contra a especialização intelectual e científica, foi uma marca exuberante do seu trabalho.

À parte
Kracauer nasceu em 1889, em Frankfurt, de uma família de judeus. Tendo perdido o pai quando era ainda criança, foi viver em casa do tio, Isidor Kracauer, que foi um eminente historiador da comunidade judaica de Frankfurt. Em casa, o ambiente era bastante religioso, mas o jovem Siegfried, como muitos da sua geração, aspirava sobretudo à cultura da assimilação. No entanto, entre 1921 e 1924, participou nas actividades de um importante instituto de ensino livre do judaísmo, onde pontificavam Martin Buber e Franz Rosensweig (autor de A Estrela da Redenção), dos quais Kracauer se foi distanciando, até à ruptura, em 1926, quando publicou no jornal para o qual escrevia, o Frankfurter Zeitung, uma crítica da nova tradução alemã da Bíblia que esses dois filósofos tinham iniciado. Alguns dos seus traços físicos são frequentemente referidos como sendo eventualmente decisivos nalgumas das decisões que tomou e dos comportamentos que tece. A acentuada gaguez foi certamente um motivo que o desviou do percurso de professor (mas não é suficiente para explicar a sua ostensiva marginalidade em relação à instituição universitária, à qual o seu pensamento errante e a sua fuga aos protocolos da erudição nunca se conformaram). E a indiscreta mas exótica fealdade costuma ser apontada como uma explicação para a sua timidez e reserva, para a tendência, desde a infância, de se pôr em lugares à parte. São muito curiosos os retratos que alguns contemporâneos fizeram dele: Adorno escreveu que o seu rosto tinha traços que faziam lembrar um homem do Extremo-Oriente; Asja Lacis, a lituana por quem Walter Benjamin se apaixonou, disse que tinha a fisionomia de um africano; e o crítico literário Hans Mayer definiu-o como um japonês retratado por um pintor expressionista.

Há um testemunho de Adorno, Um Estranho Realista, que faz parte de Notas Sobre a Literatura, que fixou uma imagem de Kracauer dos primeiros tempos do seu percurso. Ambos de Frankfurt, Kracauer tinha mais 14 anos do que Adorno e tinha sido solicitado por um amigo da família, no final da Primeira Guerra Mundial, para reforçar a iniciação filosófica do jovem Theodor. Este recorda essas sessões mais de 40 anos depois: “Durante anos, todos os sábados, regularmente, lemos em conjunto a Crítica da Razão Pura. Não exagero nem um pouco se disser que devo mais a essa leitura do que aos meus mestres universitários. Dotado de qualidades pedagógicas excepcionais, fez-me compreender a voz de Kant. Desde o início, graças a ele compreendi que esta obra não era uma simples teoria do conhecimento, uma análise das condições do juízo válidas nas ciências, mas uma espécie de escrita codificada onde se podia decifrar a situação histórica do espírito, com a vaga esperança de encontrar aí algo da verdade." Estas palavras foram escritas para a circunstância de uma homenagem radiofónica, em 1964, dois anos antes de Kracauer morrer. Lendo todo o texto, percebemos que este tom apologético e superlativo é temperado por considerações muito mais sóbrias, onde é possível intuir alguma ambiguidade. Percebemo-la, conhecendo a sua relação nem sempre pacífica com a Escola de Frankfurt (e a incompatibilidade com Max Horkheimer) e tendo em conta os escolhos de carácter científico e intelectual que o distanciaram de Adorno, numa altura em que o seu antigo aluno já tinha ascendido a um lugar proeminente. Em 1937, vivia Kracauer exilado em Paris, para onde tinha fugido à pressa no final de Fevereiro de 1933, logo no dia a seguir ao incêndio do Reichstag, Adorno atirou-se com violência contra a sua “biografia social” de Jacques Offenbach, acabada de publicar (um livro que tem óbvias afinidades com O Livro das Passagens, de Walter Benjamin). Interessado, como esteve sempre, pelos fenómenos culturais marginais, ele explorava aí o universo da opereta e os meios frívolos do boulevard e da imprensa parisiense, onde emergia a figura do homem desenraízado e confrontado com um mundo de fantasmagorias. Pouco tempo depois, um estudo que Kracauer devia publicar na revista da Escola de Frankfurt, uma análise da propaganda fascista, Massa e Propaganda, foi severamente mutilado e reescrito por Adorno, de tal modo que o seu autor, achando-o completamente desfigurado, recusou-se a publicá-lo. Num outro plano, há um episódio que tinha ficado para trás e não parece que tenha interferido nas relações intelectuais recíprocas: Kracauer alimentou “um amor erótico espiritualizado” pelo jovem Adorno, como confessou numa carta a um amigo. A correspondência entre ambos, só publicada em 2008, inicia-se precisamente com uma carta de amor enviada ao jovem Teddie em 1923, tinha este 19 anos e Kracauer 33. A carta termina com um aviso: “Cuidado Teddie, ninguém pode ver esta carta." Mas em 1930 Kracauer casou com Elisabeth (Lili) Ehrenreich, uma católica de Estrasburgo que tinha estudado história da arte e filologia e lhe assegurou até ao fim “a felicidade da (...) existência”.

As relações invisíveis
Os anos de Paris foram os mais duros da vida da sua vida e da sua mulher, já que muito precários e escassos eram os recursos do casal. Desde o início dos anos 20 até 1933 ele tinha sido responsável pelo suplemento cultural do Frankfurter Zeitung, um jornal importante da imprensa alemã, representante da burguesia esclarecida da república de Weimar, porta-voz de um liberalismo de Esquerda. Enquanto crítico literário e de cinema, Kracauer tinha adquirido nesse posto um enorme prestígio. Tendo sido destacado de Frankfurt para ocupar a delegação do jornal em Berlim, no final de 1929, inicia poucos meses depois os inquéritos no universo dos empregados berlinenses, publicados primeiro no jornal e depois em livro. Trata-se, pois – mas só aparentemente – de uma reportagem, ou pelo menos de um trabalho que se situa entre a literatura e o jornalismo. Através de micro-situações, de um olhar micro-sociológico onde podemos descobrir algumas afinidades com o que virá a ser o paradigma indiciário da historiografia de um Carlo Ginzburg, Kracauer mostra o conflito entre o sistema de valores dos empregados da Alemanha wilhelmiana e a nova ordem social, em que se dá uma brutal redistribuição dos papéis na econonomia de serviços e todo o mundo social fica sujeito ao “desencantamento”.

Com este estudo sobre os empregados, ganha evidência este princípio – de alcance metodológico que ele tinha enunciado algum tempo antes: “A realidade é uma construção”, isto é, uma obra de montagem, um mosaico constituído por séries de observações, mas também, em termos kantianos, o resultado das nossas operações. Walter Benjamin, numa recensão que fez de Os Empregados (e que nesta edição portuguesa aparece como posfácio), chamou-lhe trapeiro, no sentido daquele que recolhe os restos, que acumula os dejectos, e classifica-o como um Aussenseiter, um outsider. Para Benjamin, como sabemos, todos os detritos da história estavam carregados de uma força messiânica e revolucionária, e por isso é que ele termina o seu ensaio falando da “aurora do dia da revolução”. Exprimia assim uma das suas “imagens de desejo”, talvez distante do horizonte político descortinável no estudo de Kracauer. Por essa altura, este ainda se movia nos ambientes da “Esquerda sem abrigo”, onde podemos integrar muitos intelectuais de Weimar. Mas ele próprio pareceu interessado em desactivar esse sentido revolucionário quando no final do seu livro escreve que o seu trabalho é um diagnóstico (abundam os diagnósticos, nesse tempo do “pessimismo cultural”, e alguns deles servirão para legitimar a “revolução conservadora”) e, como tal, abstém-se conscientemente de propor medidas de melhoramento ou salvação. A vinculação do pensamento e do método materialista e fragmentário de Kracauer a um marxismo heterodoxo irá desparecer  pouco tempo depois de chegar aos Estados Unidos, para onde é obrigado a fugir, mais uma vez, em 1940 (como tantos outros judeus, passou por Lisboa, onde embarcou) depois de ter estado detido em “campos” franceses. De qualquer modo, o cepticismo de Kracauer manteve-o sempre à distância do movimento socialista e aproximou-o do pessimismo de um Max Weber, para quem o socialismo representava uma variante possível da racionalização e da burocratização do mundo.

Kracauer tinha assistido, em Berlim, muitos anos antes, às lições de Georg Simmel, ao qual dedicou um estudo que está incluído em O Ornamento da Massa, um livro que reúne uma série de ensaios sobre aspectos da metrópole moderna, publicado em 1963, mas que retira o seu título de um texto homónimo escrito e publicado em 1927. A Simmel foi Kracauer buscar a ideia de que é possível desvelar a figura de uma época através das suas miniaturas, a partir dos detalhes, analisando as suas abreviações materiais. Trata-se de uma sociologia que procede através da análise das “manifestações de superfície”. A vida dos empregados berlinenses é uma dessas manifestações de superfície, e todo o génio de Kracauer, na esteira de Simmel, está em configurar a época e construir uma totalidade social não apenas através de detalhes, mas através de fenómenos que parecem fúteis e insignificantes. A sua análise recorre às imagens, mais do que aos conceitos. Por isso é que devemos falar, a propósito da sua escrita, de Denkbild, de imagem do pensamento, que não é apenas um método de análise, é também um género com alguma tradição na Alemanha.

Fora da universidade, numa situação “extraterritorial”, Kracauer é um compagnon de route da sociologia. E um texto  de 1922 intitulado A Sociologia como Ciência é talvez o exemplo mais evidente de que ele investiu também em termos teóricos na construção dessa ciência. Para isso, não foi indiferente a sua estadia nessa grande metrópole do século XX que foi Berlim, uma das capitais das vanguardas e um laboratório da modernidade. Foi aí – e lendo um ensaio de Simmel como As Grandes Cidades e a Vida do Espírito  que ele descobriu o fenómeno da massa. O ornamento da massa, isto é, a massa como ornamento, “é o reflexo estético da racionalidade subjacente ao sistema económico dominante”. A cultura da massa, com o seu imperativo do entretenimento, significa então uma tendência repressiva e regressiva da racionalidade. Mas, neste domínio, as análises de Kracauer são quase sempre mais finas do que aquelas elaboradas pela teoria crítica da Escola de Frankfurt.

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Uma vez chegado à América, Kracauer conseguiu encontrar no MoMA um lugar que lhe permitiu entrar numa vida normal, livre da miséria por que tinha passado em Paris. O seu primeiro livro em inglês (mal chegou aos Estados Unidos, esforçou-se por nunca mais escrever em alemão) foi publicado em 1947 e chama-se De Caligari a Hitler. Uma História Psicológica do Cinema Alemão. Trata-se de um livro que se inscreve não tanto no campo dos estudos sobre o cinema expressionista dos anos 20, mas antes num outro debate, de ordem menos estética e artística, sobre as causas do nacional-socialismo. O objectivo desse livro é explicitado na introdução: olhar para os filmes dos anos 20 como um espelho da “alma alemã”, capaz de a restituir de maneira “macabra, sinistra, mórbida”. Ele actualizava assim a sua teoria dos fenómenos de superfície, fazendo do cinema um observatório privilegiado da manifestação e da evolução das mentalidades, da “dinâmica humana das relações invisíveis”. Esta análise, alienando a dimensão estética, tinha obviamente as suas limitações e foi objecto de uma crítica insistente: o seu método implicava a  crença numa “alma colectiva” alemã. Do cinema, voltou a ocupar-se num outro livro de 1969, Theory of Film, que representou um ponto de chegada do seu fascínio pelo cinema e pela fotografia. O cinema foi para ele um lugar de observação da modernidade, em relação à qual se situou sempre numa atitude de análise e interpretação, a partir dos detalhes aparentemente insignificantes, dos fenómenos superficiais. Por isso, o livro que deixou por acabar, ao morrer, e que viria a ser publicado postumamente, History, The Last Things Before the Last, um ensaio de filosofia da história, corresponde  a uma inflexão inesperada na sua obra, que nem os seus ensaios nem os dois romances semi-autobiográficos, Ginster, publicado anonimamente em 1928, e Georg, escrito entre 1928 e 1934, mas só publicado postumamente, deixavam prever. Extraterritorial, como ele gostava de se definir, procurou na sua obra, até ao fim, corresponder ao ideal da vagabundagem.