“Somos todos filhos de João Bénard da Costa”

Houve uma geração que aprendeu a ver e a gostar de cinema com João Bénard da Costa, primeiro na Gulbenkian, depois na Cinemateca. Seis anos depois da sua morte, num momento em que a cinefilia mudou radicalmente, um documentário e uma colecção de DVDs lançam pistas sobre a pessoa por trás

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MANUEL ROBERTO

“O cinema precisa que se fala dele”, escrevia em 2003 o crítico francês Antoine de Baecque. A frase, citada em 2004 por João Bénard da Costa numa das suas crónicas no PÚBLICO, ressurge em Outros Amarão as Coisas que Amei, o filme que Manuel Mozos dedicou ao falecido director da Cinemateca, que estreia esta semana.

 A frase continuava assim: “As palavras que o nomeiam, as histórias que o contam, as discussões que o fazem reviver, modelam-lhe a verdadeira existência. […] Cada uma dessas rememorações dá ao filme o seu verdadeiro valor.

As palavras de Antoine de Baecque, no entanto, parecem aplicar-se, inalteradas, ao próprio João Bénard da Costa. Crítico, pensador, divulgador, programador, cronista, até mesmo actor, director da Cinemateca Portuguesa de 1991 a 2008, foi central para a formação de gerações de cinéfilos e cineastas portugueses. Mozos, 56 anos, chama-lhe: “o professor que gostava de ter tido e não tive.” Para Luís Mendonça, 29 anos, académico na área do cinema e crítico do site À Pala de Walsh, Bénard da Costa é um “farol que faz cada vez mais falta”. Dominique Païni, 68 anos, programador e antigo director da Cinemateca Francesa, define-o como um “cinéfilo que nunca se comportou como arquivista nem como técnico”. E José Manuel Costa, 62 anos, actual director da Cinemateca, descreve-o como “um mostrador, um transmissor de conhecimento, que dava uma importância tão grande ao cinema como à grande arte”.

Seis anos depois da sua morte, em Maio de 2009, aos 74 anos, João Bénard da Costa volta a estar na berlinda – embora, na verdade, nunca tenha deixado de o estar. Outros Amarão as Coisas que Eu Amei teve a sua estreia há um ano no DocLisboa, e desde então fez carreira por festivais internacionais (Roterdão, Viena, Marselha). Enquanto o filme circulava pelo mundo (para surpresa do seu autor, que não antecipava o interesse internacional), a Cinemateca organizava, em Janeiro e Fevereiro, um ciclo de homenagem que reproduzia o programa de televisão No Meu Cinema, exibindo a acompanhar os filmes seleccionados as introduções e comentários de Bénard. Essas introduções ressurgem  numa colecção DVD onde a distribuidora Alambique inclui oito dos filmes exibidos na RTP, assinados por Boris Barnet (À Beira do Mar Azul, 1933), Fritz Lang (Feras Humanas, 1941), Ingmar Bergman (Um Verão de Amor, 1951), Jean Renoir (O Rio Sagrado, 1951), Jean-Luc Godard (Para Sempre Mozart, 1996), Luchino Visconti (Sentimento, 1954), Michael Powell e Emeric Pressburger (Um Caso de Vida ou de Morte, 1946) e Robert Bresson (Peregrinação Exemplar, 1966). Finalmente, a mesma distribuidora repõe em sala o “filme-Rosebud” que é Johnny Guitar de Nicholas Ray (1954), o emblema maior do amor de Bénard pelo cinema, a pedra-de-toque da sua cinefilia.

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A colecção de DVD com filmes que Bénard da Costa apresentou no programa televisivo – a acompanhar os filmes, as introduções e comentários de Bénard

Johnny Guitar é (a par de O Retrato de Jennie de William Dieterle, 1948, ou O Fantasma Apaixonado de Joseph L. Mankiewicz, 1947) uma das referências recorrentes do filme-ensaio que Mozos dedicou a Bénard da Costa. Outros Amarão as Coisas que Eu Amei é um filme “assombrado” pela ideia de “morte ao trabalho” que Bénard via na fotografia e na imagem em movimento – um instantâneo que prende um momento no tempo enquanto a vida real avança inexoravelmente. Não é um documentário tradicional; antes um retrato impressionista de um intelectual que via o cinema como indissociável das outras artes e do mundo à nossa volta: “O trabalho não foi estruturado de fio a pavio, era antes um processo que se ia construindo com o tempo, em consonância com aquilo que iamos delineando como estrutura possível,” explica Mozos, que tinha material de arquivo filmado com Bénard em 1996 mas acabou por não o usar. “Havia muitas maneiras de abordar a vida e a obra do João, mas não me interessava ir para uma coisa estritamente biográfica. Queria muito mais fazer algo sobre o seu pensamento, sobre o prazer que tinha em determinadas coisas.”

O “passador”
De Paris, Dominique Païni explica esse pensamento: “O João Bénard considerava o cinema como uma varanda a partir da qual víamos todas as outras artes. Ele achava que, ao fim de cem anos, havia já uma maneira de pensar o mundo a partir da arte cinematográfica, e sobretudo da montagem. Ele estava muito em cima do avanço das ideias, da filosofia da arte noutros domínios – travou amizade com o filósofo Jean-Louis Scheffer, leu Gilles Deleuze… Estava à escuta dos pensamentos, dos avanços, dos métodos da história da arte.”

Daí que haja algo de “complementaridade” na operação que agora tem lugar: Mozos retrata a pessoa e o seu pensamento (através de imagens, sons, palavras), a colecção DVD coloca-o em acção sobre os filmes. Mas a pergunta central continua sem resposta: porquê hoje, ainda, Bénard? Porque é que esta figura tutelar de uma cinefilia do século XX, construída nas cinematecas, na devoção à película, na experiência comunal do filme em sala, continua a ressoar com uma geração para quem o modo de acesso ao cinema consiste em tudo aquilo que Bénard considerava “trair o filme” - a televisão, o DVD, o ficheiro de dados, o écrã do computador?

Para Luís Mendonça, parte integrante dessa geração “pós-Bénard”, tem tudo a ver com a comunicação de que o director da Cinemateca era capaz. “A minha descoberta do Bénard, como para muita gente da minha idade, começa na televisão, com No Meu Cinema”, refere. “Havia ali um entusiasmo contagiante, um discurso de uma envolvência tremenda – uma capacidade de abraçar todo um universo a partir das sequências que ele escolhia destacar. Desse ponto de vista, foi uma pequena escola. As suas apresentações eram pequenos acontecimentos, havia nelas qualquer coisa de inspirador.”

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enric vives-rubio

Païni, para quem Bénard foi quase “um irmão”, descreve-o como um “passador” de informação e cultura (ecoando o título do filme de Mozos, retirado a um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen). “Ele sabia reduzir o abismo entre um pensamento exigente e uma análise estética. O João Bénard, tal como eu, vinha de uma geração onde era impensável não ser político, e houve uma geração de directores de cinematecas que foram herdeiros da acção política ou da acção dos cine-clubes. Como muitos dessa geração guardámos o gosto da pedagogia, da transmissão de saberes. E, sem nos darmos conta disso, aplicámos à transmissão da cinefilia a nossa pedagogia política.”

Essa dimensão pedagógica, combinada com o contexto cultural da época e a experiência inicial de Bénard como programador na Fundação Gulbenkian a partir de 1971, explica, para José Manuel Costa, o seu papel tutelar. “Pertenço à geração que foi 'agarrada' quando ele começou a programar os grandes ciclos da Gulbenkian, na década de 1970,” explica o programador no seu gabinete na sede da Cinemateca. “Ele foi a pessoa certa no contexto certo: havia, em Portugal, uma fome acumulada durante décadas em que a cultura cine-clubista foi decisiva para manter a cultura do cinema, mas sem a possibilidade de ver os filmes. Como todos os jovens que na década de 1960 estavam apaixonados por cinema, líamos avidamente, sabíamos os títulos dos filmes de Eisenstein de cor, tínhamos visto uns fotogramas... mas não tínhamos visto nenhum. E de repente surge uma pessoa com uma vontade torrencial de mostrar a história do cinema...”

O outro lado
José Manuel Costa refere uma outra e fortíssima razão para a influência de Bénard: a célebre “folha da Cinemateca” distribuída à entrada de cada sessão com um texto de “introdução” ao filme. “A ideia da folha é uma pequena grande revolução,” explica. “Não era um acto de historiografia pura nem era feita como se faz uma crítica num jornal, mas sim para funcionar em conexão com aquele visionamento. A natureza da folha era ajudar-nos a passar 'para o outro lado': permitia perceber de onde é que aquilo vinha, em que contexto, dar algumas pistas para podermos ler o filme e levantar algumas perguntas, cativar o nosso gosto, abrir a nossa visão. É isso que depois marca tudo o resto. Se formos a analisar o que ele escreveu, ele foi um bocado historiador, mas não foi um historiador; foi muito crítico, mas não foi um crítico de cinema; foi professor, até no sentido académico, mas também não era académico… A sua génese está toda nos primeiros anos da Gulbenkian, mas isso não era um trabalho de cinemateca; era um trabalho de mostrador, de transmissor de um conhecimento.” E um trabalho que não surgia num vácuo: “Portugal tinha uma cultura cinematográfica, com muita gente decisiva que vinha do movimento cineclubista e o cinema já fazia parte da cultura geral das pessoas. Mas o João Bénard somou a isso a sensação de que o cinema é uma grande coisa, de que havia outras maneiras de o ver.”

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Talvez seja essa capacidade de transmitir a paixão do cinema que continua a fazer de Bénard incontornável, mesmo que longe de unânime. “Num país como Portugal, muito mais pequeno do que a França, um director da Cinemateca pode encontrar um público muito maior,” como refere Dominique Païni. “Ele era um cinéfilo tradicional que não se coibia de entrar em debates inúteis, e que ficou 'preso' na política dos autores. Era impensável para ele que um cineasta de cujos filmes não gostava pudesse fazer um filme de que gostasse. Mas esse pequeno defeito dogmático dava-lhe uma força na análise em profundidade de uma obra. Todos os defeitos têm o seu reverso de qualidade.” Para o antigo director da Cinemateca Francesa, a sua resistência ao digital teria certamente sido ultrapassada. “Ele não teve tempo de ver os progressos consideráveis no digital. Creio que ele hoje não poderia negar a possibilidade de ver um filme como nunca o vimos antes que nos permite.” Sobre isso, José Manuel Costa refere que “o João Bénard percebeu que já não ia ter de lidar completamente com essa questão, e esticou ao mais possível a sua visão de que o suporte original é o importante. Mas o papel da Cinemateca tem hoje de ser muito diferente do papel que o orientou a ele. O contexto mudou.”

Para Luís Mendonça, “hoje não acedemos ao seu 'lado escuro'. A dimensão política da figura, da sua relação com a própria instituição-Cinemateca, mais desconfiada com um certo cinema contemporâneo, não passa.” O que resiste, para o académico, são os textos - “cartas de amor a filmes e a cineastas. Lembro-me da apresentação dele à História de Violência de David Cronenberg (2005) e de sair completamente devastado porque não tinha gostado do filme, não tinha conseguido aceder ao filme como ele… E é importante que haja alguém que nos faça parar e pensar sobre as imagens. Ele ainda representa isso, e faz cada vez mais falta esse género de discurso; termos alguém que nos encaminha, que nos guia, sobretudo num momento em que podemos aceder ao cinema clássico com a facilidade de um clique.”

José Manuel Costa concorda. “A completa acessibilidade ao património trouxe uma falta de orientação, um vaguear num vazio. As pessoas procuram outra experiência, ter ideias que os guiem. Provavelmente, mais do que fazer um ciclo John Ford, o importante hoje é dar às pessoas pistas de leitura do Ford. O que faz falta é essa intermediação, essa contextualização, com alguma profundidade.” Para o actual director da Cinemateca, era isso que Bénard fazia como poucos. “O seu trabalho continuado, a sua produção literária, a sua presença nos órgãos de comunicação, criaram muitos seguidores. E essa transmissão prolongou-se para gerações seguintes. Somos todos filhos do cinema e somos todos filhos do João Bénard da Costa.”