Crítica

Uncharted Redux

As histórias dos três primeiros Uncharted apresentadas com notórias melhorias gráficas servem como preparação da chegada do quarto jogo numerado em 2016 e revelam alguns trechos datados.

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Uncharted é um dos nomes mais reconhecíveis da indústria dos videojogos e actualmente um dos sinónimos de PlayStation. Jóia da coroa polida com cuidado pela Sony, cada capítulo movimenta milhões de cópias e ajuda a aumentar o parque instalado de consolas; Uncharted é uma daquelas sagas exclusivas que todas as principais marcas têm e certamente não se importariam de ter mais.

Apesar de poder parecer que nunca esteve ausente, o último jogo numerado da série, Uncharted 3: Drake's Deception, foi publicado na PlayStation 3 em Novembro de 2011, espaçamento temporal que torna compreensiva a ânsia com que os fãs das aventuras de Nathan Drake esperam o próximo jogo, Uncharted 4: A Thief's EndO Fim de um Ladrão, em português —, título que se não for adiado novamente chegará à PlayStation 4 em Março do próximo ano, sendo também a primeira obra da Naughty Dog a ser produzida de raiz para a recente consola caseira da marca nipónica.

Entretanto há Uncharted: The Nathan Drake Collection, uma compilação hors d’oeuvre com versões melhoradas de Uncharted: Drake's Fortune, Uncharted 2: Among Thieves e Uncharted 3: Drake's Deception. Quando chegar à PlayStation 4 na próxima semana, haverá algumas omissões: a componente multijogador não estará presente, nem Uncharted: Golden Abyss, o único tomo da série em que a produção passou de mãos — a Naughty Dog entregou o leme à Sony Bend — e que permanecerá um exclusivo na PlayStation Vita.

Com a adaptação entregue à Bluepoint, o ponto mais notável da colecção é a sua actualização gráfica. Os três volumes apresentam-se com uma resolução de 1080p e capazes de correr a 60 fotogramas por segundo. Não demora muito às diferenças para se anunciarem perante os olhos de quem comandou as aventuras anteriormente. O cômputo geral da experiência é mais fluido, mais vibrante, algo que dá um novo ímpeto à fidelidade gráfica, um dos pontos melhor conseguidos na era PlayStation 3.

Apesar de não ser obrigatório, se começarem a exploração pela ordem cronológica e não repararem nas alterações durante a cena inicial de Drake's Fortune em que Drake e Elena partilham um barco e alguns inimigos, basta chegarem à selva para começar a constatação das melhoras visuais. Além da vegetação parecer mais natural, as texturas das pedras e os efeitos dos cursos de água, da iluminação e das sombras apresentam detalhes que não estavam lá em 2007.

As horas iniciais são uma constante tentativa de descobrir as diferenças, um pingue-pongue com a memória, percebendo o que ficou retido durante estes anos todos em que a informação não foi solicitada. Com o passar do tempo, essa percepção poderá abrandar e ser relegada para segundo plano, contudo, é chamada de novo à linha de frente sempre que nos deparamos com os momentos que foram — e continuam a ser — uma das imagens de marca da Naughty Dog.

As texturas do forte, a cadência da fuga num jipe pela densa floresta, a exploração por canais a bordo de uma moto de água onde se pode ver o trabalho colocado ao serviço dos movimentos líquidos são apontamentos que só enaltecem trechos que não tiveram dificuldade em cravar sulcos na memória de quem já os tinha jogado e que cravarão outros em quem agora chega a este universo. Ainda assim, a obra de estreia é sem grande surpresa a menos pujante e é também a mais afectada pela passagem do tempo.

Especialmente na segunda parte, percebe-se um desequilíbrio na jogabilidade, o que patrocina vários momentos frustrantes, revelando o cansaço de colocar hordas consecutivas de inimigos a dominar as mecânicas. Foi um erro aprendido e geralmente evitado nos jogos seguintes, onde a exploração, os puzzles e o desenvolvimento narrativo intercalam com os punhos cerrados e os carregadores a crivarem os corpos dos inimigos.

Há alguns aspectos mais complicados de melhorar: é verdade que a modelagem dos personagens foi melhorada, mas é também verdade que, especialmente em Drake's Fortune, em certos planos apertados são visíveis expressões datadas. E o mesmo é aplicável às animações. Não condenando a sua fluidez, também especialmente no primeiro jogo são notórios alguns movimentos menos condizentes, que deixam sem saber se aquilo deveria ter mesmo acontecido.

É inegável o impacto que a primeira obra teve. Contudo, foi no segundo capítulo que a produtora californiana lançou o magnum opus da série. Uncharted 2 é um assinalável jogo de aventura praticamente do princípio ao fim, motivando os jogadores a não pousarem o comando com cenas megalómanas, puzzles menos desenxabidos e um arco narrativo que, sem nunca fazer sombra a The Last of Us, tem um desenvolvimento de personagens assinalável e um ziguezaguear mais ou menos eficaz entre clichés. A jogabilidade está também mais equilibrada, não castigando e irritando tanto.

A colocação esporádica destes momentos que rivalizam com as criações de John Woo tem um efeito interessante: quem se estreia na série e começa a constatar o ritmo da sua disponibilidade não demora muito a aguardar expectante a chegada da próxima, afeiçoando-se à obra, fidelizados e investidos até os créditos finais deslizarem pelo ecrã.

O último jogo é aquele onde as melhorias são mais assinaláveis. Seja os efeitos das chamas na cena icónica em que têm que esperar de uma casa tornada fornalha, seja as texturas das áreas mais habitadas no segundo e no décimo capítulo, por exemplo. Há uma atmosfera de mais fácil impregnação, o que atesta dois pontos: a qualidade da matéria-prima que a Naughty Dog deixou e o trabalho que a Bluepoint fez para a exaltar.

Nunca é transmitida a sensação de que estamos perante produções feitas para a PlayStation 4, todavia, em diversos momentos a nossa atenção é dominada por melhorias que seriam possíveis na PlayStation 3. É um trabalho sólido e sem grande mácula, o que não é de estranhar se olharmos para o currículo da Bluepoint Games: God of War Collection, The Ico & Shadow of the Colossus Collection, Metal Gear Solid HD Collection, Titanfall, encontrando-se neste momento a adaptar Gravity Rush à PlayStation 4.

Uncharted: The Nathan Drake Collection não vive só de aparências, tendo sido adicionados novos modos de dificuldade nas duas extremidades da régua, pelo que os mais veteranos poderão provar a sua habilidade no modo “Brutal” depois de terminarem os jogos no modo “Crushing”, até aqui o mais exigente. Aqueles que não querem ser incomodados podem optar pelo modo “Explorer”.

Ainda escrevendo sobre os modos que se estreiam, existe um Modo Fotográfico que, à distância de um botão (para baixo no d-pad), permite manipular vários parâmetros de uma máquina fotográfica virtual e gravar imagens que podem posteriormente ser partilhadas nas redes sociais e nas mensagens enviadas aos amigos. Há também um modo que coloca um temporizador no jogo e permite comparar o tempo com os amigos, involuntariamente testando aquilo que cada um ainda se lembra dos puzzles e do caminho a explorar.

Muitos fãs sentem falta de Nathan Drake, um explorador descendente de Francis Drake e com aventuras em espiral na veia de Indiana Jones, Sully, Elena, Chloe; de um lote de personagens que deixou uma marca indelével na PlayStation 3 e de que muitos esperam uma marca ainda maior na PlayStation 4 com a publicação de A Thief's End.

The Nathan Drake Collection pode ser compreendido como uma preparação para essa chegada, um reavivar de memórias e a eventual angariação de novos jogadores. Todos os compradores desta compilação têm acesso garantido à beta multijogador de Uncharted 4, o que pode ser encarado como a vontade da Sony em estreitar o interregno que separa o calendário de Março. Então a quem se dirige este pacote de três jogos actualizados? Quem já jogou Uncharted e não gostou, certamente não encontrará aqui modificações para mudar de opinião; quem nunca jogou tem aqui as três melhores versões dos jogos; quem já jogou e é fã, bem, tem que aferir quão fã é.

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