Reportagem

“Na prisão, aprendi que um livro faz parte de nós”

O projecto A poesia não tem grades já levou poetas portugueses a milhares de reclusos desde 2004. Na prisão regional de Setúbal, em Setembro, fez-se silêncio, para se ouvir Florbela, Eugénio de Andrade, Cesariny, Natália Correia, José Luís Peixoto, e outros. "A poesia pode salvar vidas."

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"Na prisão, uma pessoa perde tudo. Fica sem vontade de viver.” Rui Gaudêncio
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A leitura dos poemas "deu para esquecer estas grades aqui". Rui Gaudêncio
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"Passo o tempo a pensar na vida lá fora. Mas nada me espera lá fora." Rui Gaudêncio
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"Marcou-me o poema de os cinco à mesa. Fez-me lembrar que houve uma altura na minha vida em que perdi toda a gente." Rui Gaudêncio
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Filipe Lopes iniciou este projecto em 2004 e acredita que pode mudar vidas através dos livros. Rui Gaudêncio
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"Existe uma grande vontade, da parte dos reclusos, para assistir a estas actividades. Existe matéria-prima para ser trabalhada nestes locais”, diz Filipe Lopes. Rui Gaudêncio

No pequeno pátio cinzento, grupos de dois ou três caminham. Chegam ao muro, voltam, fazem o percurso inverso, como numa piscina vazia. O movimento, repetido, cria a ilusão de que a estrada é longa. Mas caminhar dentro de um rectângulo fechado serve apenas para preencher a inutilidade das horas de quem está preso: um ano e quatro meses; dois anos e três meses; sete meses. Por tráfico ou roubo, furto, violência doméstica, ou condução sem habilitação legal.

Já foram condenados ou cumprem pena preventiva no Estabelecimento Prisional de Setúbal, prisão de segurança alta e de elevado grau de complexidade de gestão que recebe na maioria, mas não só, pessoas dos concelhos de Setúbal e Almada. “Uma pessoa perde tudo. Fica sem vontade de viver.” Todos os dias, o que fazem é “pensar no que aconteceu”. Como é agora a vida (sem eles)? Como será (com eles de volta)? E quem vão ser?

“Nada me espera lá fora”, diz José, 24 anos. A única pessoa que o poderia visitar é a irmã, mas nunca o fez. Tantas vezes o avisou e ele sempre a ignorou. “Está magoada comigo”, diz José, voz arrastada e olhar toldado. “Nunca pensei que estar preso fosse assim.” Pior do que imaginava. Pior do que tudo o que, na vida, lhe aconteceu: a mãe abandonou-o, quando ele era um bebé, o pai perdeu-se no álcool e entregou-o – a ele e ao irmão mais velho – a um lar de rapazes, quando José tinha 11 anos. O irmão está, também ele, preso, no [Estabelecimento Prisional de] Pinheiro da Cruz. “Está lá há mais tempo do que eu aqui.”

O pior nesta prisão sobrelotada, são os dias de castigo: ficam fechados na cela quadrada, que à noite recebe o dobro dos reclusos que deveria acolher, nesta prisão com 350 reclusos, muito acima da lotação de 170. A idade média ronda os 35 anos.

Amor, ironia e humor
Entre o menos mau estarão momentos raros como este, quando o parlatório do Estabelecimento Prisional de Setúbal, se enche não de visitas, mas de reclusos, para ouvir Filipe Lopes ler poemas. O animador da iniciativa A poesia não tem grades já o fez centenas de vezes desde 2004 e cerca de 30 vezes este ano, por quase todo o país, em vários tipos de espaços – alas com celas de um lado e de outro e por cima, salas de visitas, espaço para aulas ou biblioteca.

“A leitura é uma forma de viver”, diz frente aos presentes, sentados na sala de visitas – a mesma que para José é sempre uma sala vazia. Entre os mais de 20 reclusos com o olhar preso no visitante, há risos (quando há humor nos versos), sorrisos (quando há ironia ou amor), e um silêncio prolongado no fim de um poema de José Luís Peixoto.

“Na hora de pôr a mesa, éramos cinco. (…)

Cada um deles é um lugar vazio nesta mesa onde como sozinho.”

O poema comove, por ser a expressão exacta da solidão que cada um sente. “É um poema de profunda saudade”, resume um dos presentes, frente aos colegas, já depois de Filipe Lopes lhes dizer: “O vosso lugar é hoje um lugar vazio na mesa de alguém.”

“Já senti essa solidão. Já estive à mesa sozinho, muitas vezes. Já perdi pessoas, para mim, muito importantes”, completa Filipe, mais tarde, em privado. Tem 22 anos, está preso desde os 19. “Quando vim preso, a minha família passou a ver-me com outros olhos.” Algum dia voltará a ser quem foi? "Toda a gente merece uma segunda oportunidade", diz.

“Sei que cometi um crime. Mas gostaria que os meus familiares me perdoassem. Quando sair em liberdade, quero sustentar os meus filhos e não ser apontado por um dedo”, diz Leonel, também em privado. Todos os dias, convive com uma pesada mágoa. “É na cadeia e nos hospitais, que vemos quem realmente sente a nossa falta. Gostaria de saber que a minha família ainda existe.”

Se pudesse, Leonel continuaria a falar, assim, sem pausas: do arrependimento todos os dias presente, das ausências infindáveis, da filha bebé que só viu duas vezes, do sonho de “poder trabalhar na cozinha” da prisão, e ocupar o tempo e aprender, como aprende, desde há pouco tempo, com os livros. E das barreiras que não sabe como transpor ou resolver. O tempo aqui não é escasso, mas é contado. Por isso, à pressa, termina: “Foi bonito”, sobre o momento de poesia que lhes foi oferecido.

“Marcou-me esse poema”, diz Luís, ainda sobre o poema e a presença de pai, mãe e irmãos a desfazer-se no coração de alguém. “Fez-me lembrar que houve uma altura na minha vida em que perdi toda a gente." Mãe, tio, avô e avó. "As pessoas que me criaram. Vi toda a gente morrer. Só acalmei agora quando encontrei a minha mulher. Tenho dois filhos pequenos. Agora falto eu à mesa deles.”

Nem tudo precisa de ser profundamente triste. E Leonel sorri: “Gosto muito de leitura. Lá fora, eu não sabia o que era o mundo da leitura, da escrita. Aqui eu aprendi que um livro faz parte de nós.”

"Ler para limpar a cabeça"
Ele e José juntaram-se ao Clube de Leitura da prisão, onde vão descobrindo livros, através das páginas que cada um no grupo lê, em voz alta, para todos. No início de Setembro, liam A Volta ao Mundo em 80 Dias de Júlio Verne. É outra forma de “limpar a cabeça”. “Esquecer.”

Filipe Lopes volta a dizê-lo sempre que entra numa prisão: “A poesia pode salvar vidas. Todos precisamos de alguma coisa que nos eleve um pouco do chão.” E lê Embriaga-te de Baudelaire, com o espaço, a luz, e os olhares, a transmitir mais ou menos esperança.

Quer esteja na Carregueira, em Alcoentre ou em Caxias, na prisão feminina de Odemira ou na de Évora, acredita sempre que a leitura abre uma janela. E persiste em desenvolver este projecto, sem apoios. Entre as mais de 300 empresas privadas portuguesas contactadas (entre elas as 100 maiores empresas portuguesas e outras 200 – algumas pertencentes ao grupo das empresas que praticam a responsabilidade social) nenhuma se mostrou disposta a apoiar, a não ser uma cadeia de hotéis que oferece alojamento durante as deslocações pelo país.

Na maioria dos casos, as administrações empresariais invocam não ter orçamento. Duas ou três responderam que dariam apoio se o projecto se dirigisse a outro público – e não a reclusos – e que a iniciativa não se coaduna com a imagem que a firma quer passar, lembra Filipe Lopes. O dinamizador da iniciativa entende “as dificuldades por que passam muitas empresas” mas acredita que, neste caso, o que existe é uma dificuldade de muitas delas em se associarem a este público.

“O enorme estigma que existe na sociedade [relativamente à população prisional] vai até às empresas”, diz. Mas não desiste: “Existe uma grande vontade, da parte dos reclusos, para assistir a estas actividades. Existe matéria-prima para ser trabalhada nestes locais.”

O projecto nasceu em 2003, e recebeu apoios da Direcção-Geral do Livro, mas apenas entre 2004 e 2007. Recentemente, foi atribuída uma verba para desenvolver o projecto nos três Estabelecimentos Prisionais da Região Autónoma do Açores, até ao final do ano, por parte da Direcção Regional da Cultura dos Açores.

O principal parceiro, a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais, não tem capacidade financeira para apoiar, podendo apenas acolher e facilitar a iniciativa. Assim, é a Associação de Ideias, instituição sem fins lucrativos, criada por Filipe Lopes, que proporciona “tempo e verba para deslocações em função da disponibilidade gerada pelas actividades culturais remuneradas em escolas, bibliotecas e similares”.

O livro O lado de dentro do lado de dentro, que reúne textos originais de Afonso Cruz, Alice Vieira, José Mário Silva, Filipa Leal, André Gago ou Richard Zimler foi editado este ano para recolha de verbas. Filipe Lopes está decidido “a tentar mudar vidas através dos livros”, diz. Considera que apoiar o processo de recuperação dos reclusos é “uma tarefa com benefícios para todos” na procura de “uma sociedade mais inclusiva e segura”.

Um caminho de possibilidades
No fim da sessão, em Setúbal, os gestos soltam-se, as faces iluminam-se. O ar está carregado de expectativa, como se este fosse apenas o início de um caminho de possibilidades que não gostariam de interromper. A viagem pela dezena de poemas, trazidos por Filipe Lopes, trouxe-lhes um alento fugaz que raramente sentem: Adeus de Eugénio de Andrade, Ser Poeta de Florbela Espanca, Em Todas as Ruas te Encontro de Mário Cesariny, Descalça vai para a Fonte de Camões, Poema da Auto-Estrada de Gedeão, entre outros, como Truca-truca, poema que Natália Correia escreveu em resposta a João Morgado, na Assembleia da República, no debate sobre a legalização do aborto, ou o aviso a “todos os polícias” de que anda um homem livre “realmente perigoso” em Chamada geral de Mário-Henrique Leiria.

Este último é o escolhido por Bruno, 28 anos: “Sempre fui muito revoltado com a polícia, por causa da minha família”, diz. “A polícia ia lá a casa porque havia muitas discussões. Aquilo marcava-me. Muitas vezes, saíamos todos, eu, a minha mãe e os meus irmãos, para fugir do meu pai. Não foi uma nem duas, aconteceu um monte de vezes.”

Por momentos, é possível partilhar, até com desconhecidos: “Estes poemas retrataram por inteiro toda a minha vida”, resume Mário. Foi quadro dirigente de um grupo de empresas, e agora responde pelo crime de violência doméstica. Sempre o negou. Vive, por isso, com “a liberdade do pensamento”, diz. “À espera da liberdade institucional.”

Leonel e Mário são nomes fictícios