França e Holanda compram a meias dois retratos de Rembrandt

Chefes de governo dos dois países acordaram adquirir em conjunto, por 160 milhões de euros, o par de retratos de Rembrandt que a família Rothschild quer vender. As telas, que retratam um comerciante de Antuérpia e a sua esposa, serão alternadamente expostos no Rijksmuseum e no Louvre.

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Os dois quadros de Rembrandt representam o casal Marten Soolmans e Oopjen Coppit DR

A Holanda e a França vão mesmo comprar em conjunto, por um valor total de 160 milhões de euros, as duas telas de Rembrandt colocadas à venda por Éric de Rothschild, representante do ramo francês da famosa dinastia de banqueiros judeus. A ministra da Cultura holandesa, Jet Bussemaker, anunciou esta quarta-feira que o acordo entre os governos dos dois países tinha sido alcançado num recente encontro em Nova Iorque – onde ambos participavam nas comemorações dos 70 anos da ONU – entre o primeiro-ministro da Holanda, Mark Rutte, e o presidente francês François Hollande.

“Agora que está garantido o financiamento imediato por parte da França”, escreve Jet Bussemaker numa carta enviada ao Parlamento holandês, “o governo decidiu adquirir em conjunto os retratos de casamento”. A designação deve-se ao facto de estes dois retratos de corpo inteiro, que chegaram às mãos da família Rothschild no século XIX, terem sido encomendados a Rembrandt para celebrar as núpcias de um abastado comerciante de Antuérpia, Marten Soolmans, com uma rica herdeira de Amesterdão, Oopjen Coppit.

A ministra da Cultura holandesa garante que o actual proprietário das pinturas vê com bons olhos esta “forma inédita de cooperação cultural europeia”, que evitará a separação de duas telas que têm estado sempre juntas desde o segundo quartel do século XVII. Uma das cláusulas do acordo verbalmente firmado entre Rutte e Hollande estipula, ainda segundo Jet Bussemaker, que as duas pinturas “sejam expostas alternadamente, sempre em conjunto, nos dois museus mais reputados e visitados da Europa”, ou seja, o Rijksmuseum, em Amesterdão, e o Louvre, em Paris.

Marten Soolmans e Oopjen Coppit casaram-se em 1633 e Rembrandt concluiu os seus retratos em 1634, numa altura em que acabara de chegar a Amesterdão, vindo de Leiden, “para retratar a elite”, explicava há dias o director do Rijksmuseum, August Wim Pijbes, sublinhando que o “modo fenomenal” como o pintor “captou a corpo inteiro este jovem casal” tornam estas telas um caso especial.

Os retratos de corpo inteiro não são frequentes em Rembrandt, e é também raro que apareçam obras tão significativas como estas nas mãos de privados, o que explica o interesse que o anúncio da sua venda despertou em França, onde ainda se encontram, e na Holanda, onde já chamam aos dois retratos o irmão e a irmã da célebre Ronda da Noite, uma das jóias da exposição permanente do Rijksmuseum.

Até ao desenlace hoje conhecido, Pijbes tinha boas razões para achar que o Rijksmuseum poderia vir a ficar com as duas telas, já que o governo holandês se propunha adquirir uma delas, cabendo ao museu de Amesterdão conseguir os 80 milhões necessários para adquirir a outra, o que deixaria Paris de fora.

Mas a ministra da Cultura francesa, Fleur Pellerin, acabou por ver concretizado o seu plano de aquisição conjunta, que já apresentara em Julho passado à sua homóloga holandesa.

Éric de Rothschild começou por contactar o Louvre em 2013, explicando que estava disposto a ceder as obras por cerca de 160 milhões de euros, um valor que o museu considerou demasiado elevado. O seu orçamento para aquisições era de apenas 8 milhões de euros, e o máximo que o Louvre alguma vez pagara por uma tela tinham sido os 19 milhões de euros desembolsados em 2009 pelo retrato do conde Louis-Mathieu Molé, que Ingres pintou em 1834, pouco antes de o seu modelo ascender a primeiro-ministro de França.

Após um ano de negociações, a compra foi recusada e o Ministério da Cultura, com o acordo do director do Louvre, Jean-Luc Martinez, passou a necessária autorização de exportação, permitindo a Éric Rothschild vender os Rembrandts no estrangeiro. A decisão originou um significativo movimento de protesto em França, o que ajuda a explicar que o governo de Hollande acabasse por voltar atrás na sua decisão, comprometendo-se a assegurar, com o apoio mecenático do Banco de França, os 80 milhões necessários para comprar um dos retratos.