Inatel prepara-se para dar formação e emprego a 100 refugiados

Programa Aylan da fundação inclui desenvolvimento de cursos profissionais em hotelaria para dotar refugiados de competências. No final, serão assinados contratos de trabalho. Cada uma de 12 unidades ficará responsável por uma família.

O campo de refugiados de Zaatari, o segundo maior do mundo ; Sana com o seu filho Mohamed
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O campo de refugiados de Zaatari, o segundo maior do mundo ; Sana com o seu filho Mohamed ALI JAREKJI/REUTERS

A Fundação Inatel está a colocar em marcha um plano para dar formação profissional e emprego a 100 refugiados nas suas unidades hoteleiras espalhadas por todo o país. Enquanto a grande discussão pública se remete actualmente à forma e locais de acolhimento, a fundação dá um passo em frente e pensa já na integração dos refugiados conferindo-lhes competências e uma oportunidade de trabalho. Doze unidades hoteleiras do Inatel deverão ficar responsáveis, cada uma, pela formação, de pelo menos uma família de refugiados.

“A ideia surgiu há cerca de duas semanas”, adiantou o presidente da fundação, Fernando Ribeiro Mendes, e resulta, em parte, do “choque” criado pela publicação nos jornais portugueses, nomeadamente no PÚBLICO, da fotografia do menino curdo Aylan, cujo corpo foi encontrado numa praia depois do barco em que seguia ter naufragado entre a Turquia e a ilha grega de Kos. Por isso, o Inatel decidiu dar o nome de Aylan ao programa de integração. “Há quem tenho criticado a publicação dessas imagens, mas foi uma chamada de atenção para nós. Uma forma de assumir-mos que é possível fazer algo para mudar as coisas”, sublinhou Fernando Ribeiro Mendes.

O conselho de administração do Inatel já aprovou o plano e a fundação está em contacto com a Plataforma de Apoio aos Refugiados e Conselho Português para os Refugiados. “Informamos o Governo, através do Ministério da Administração Interna, e a reacção ao plano foi a melhor. Vamo-nos articular com as entidades que acolherem, em termos de habitação, os refugiados para depois prosseguir com a formação e emprego”, acrescentou o presidente da fundação.

O plano é simples. O Inatel, que tem actualmente cerca de 800 funcionários distribuídos pela sua rede de unidades em todo o país, contrata em média, de forma temporária, mais 200 trabalhadores para responder às maiores necessidades sazonais da época alta do Verão. No Verão de 2016, Fernando Ribeiro Mendes, conta já ter ao serviço da Inatel refugiados como trabalhadores.

“Não estamos a falar de caridadezinha. Receberam formação específica, turística, cultural, hoteleira e também em idiomas e depois, provando as competências adquiridas, terão contratos de trabalho nas mesmas condições que cá têm os portugueses. Neste momento há uma onda de generosidade para lhes dar dormida e comida. Isso é essencial agora, mas depois de isso estar resolvido, o que farão? Pensamos numa via solidária orientada para a autonomização e independência criando oportunidades de trabalho”, ilustrou ainda Fernando Ribeiro Mendes.

O Inatel usará ainda na dinamização deste plano o seu contacto privilegiado com algumas cadeias de hotéis privados. “Vamos tentar criar também emprego em alguns hotéis com os quais trabalhamos”, disse o presidente da fundação.

Com 16 unidades espalhadas pelo país e com um total de 800 camas, a fundação aproveitará os seus próprios recursos, nomeadamente os cursos internos de formação em hotelaria, para formar os refugiados nesse âmbito. “Também arranjaremos formadores em língua portuguesa e inglesa”, apontou o responsável que, para já, não consegue indicar uma data concreta para iniciar a formação já que tal depende ainda das datas de chegada dos refugiados a Portugal que receberá cerca de 4500 pessoas.

A própria “tradição do Inatel neste tipo de acções também contribuiu para esta ideia”, admitiu Fernando Ribeiro Mendes. Na década de 1990 a fundação recebeu mais de 100 refugiados da guerra do Kosovo, mas na altura a iniciativa incluiu o acolhimento. Desta vez, o Inatel apenas admite providenciar acolhimento em algumas unidades face a casos “de excepcionalidade”, dado que tal seria incomportável com o funcionamento da rede hoteleira durante o Verão.