Torne-se perito Crítica

A Leste do paraíso

Anton Corbijn filma James Dean antes do estrelato como um actor em busca do seu lugar no mundo.

Foto
Life cai em demasia na reprodução da iconografia da época

Quem buscar um traço comum entre os filmes assinados pelo veterano fotógrafo holandês Anton Corbijn encontrará à superfície uma aparente ausência de traços comuns: uma biografia do cantor dos Joy Division, Ian Curtis (Control, 2007), um policial “antonioniano” (O Americano, 2010), uma adaptação de John le Carré (O Homem Mais Procurado, 2014) e, agora, um olhar sobre o James Dean pré-estrelato.

Olhando melhor, contudo, descobre-se o interesse de Corbijn pelas figuras que estão simultaneamente “ao lado” e “no centro” do seu tempo: o Ian Curtis de Sam Riley em Control, o Edward Clarke de George Clooney em O Americano, o Günther Bachmann de Philip Seymour Hoffman em O Homem Mais Procurado, e, finalmente, o James Dean de Dane de Haan e o Dennis Stock de Robert Pattinson em Life são idealistas ambiciosos que procuram encontrar o seu lugar num mundo que não lhes dá grandes tréguas.

Isso é ainda mais particularmente visível em Life, filme que é acima de tudo uma meditação sobre a fama e os compromissos usando a ascensão meteórica de um dos grandes mitos da Hollywood do século XX como ponto de partida. Apanhando Dean no “limbo” entre o término da rodagem e a estreia de A Leste do Paraíso, num momento em que o seu nome ainda não tinha sido anunciado para Fúria de Viver, Corbijn e o argumentista Luke Davies exploram a sua breve relação com o fotógrafo freelancer Dennis Stock, que vê no carisma e na modernidade do actor a sua hipótese de fugir ao rame-rame da fotografia de plateau e passadeira vermelha. Dean, por seu lado, é pintado como ambivalente em relação à fama, apenas a admitindo nos seus próprios termos e não nos do jogo viciado da máquina de relações públicas de Hollywood contra a qual a sua própria imagem nos filmes se coloca.

Corbijn encena a parceria entre Stock e Dean como uma espécie de “tango apache” entre feras desesperadas pelo reconhecimento, uma aliança circunstancial que tanto pode ser benéfica para ambos como travar as suas carreiras, naquele que é o aspecto francamente mais interessante de um filme que se deixa aqui e ali cair em demasia na reprodução embevecida da iconografia de época. É sempre complicado dar corpo a figuras reais, ainda por cima tão exploradas como James Dean, mas Dane de Haan apanha bem a pose e a atitude do actor (já o Jack Warner de Ben Kingsley é mais caricatural do que outra coisa), e Robert Pattinson faz esquecer de vez o seu estatuto de ídolo adolescente com uma interpretação seguríssima que ancora todo o filme. E o fotógrafo holandês volta a esquivar-se elegantemente e deliberadamente às gavetas onde andamos todos a querer metê-lo desde o magnífico Control — filme ao qual ainda não conseguiu dar sucessor ao mesmo nível.

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