“Somos infelizes, não podemos ter a dignidade necessária para sermos cidadãos”

Estamos numa fase de final de ciclo, diz o filósofo grego Christos Yannaras: “O paradigma da primazia absoluta dos direitos do indivíduo está a desfazer-se.”

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Esta "é uma crise de vida ou morte", diz Christos Yannaras Marko Djurica /Reuters

Christos Yannaras, filósofo e colunista do diário Kathimerini (conservador), recebe-nos no seu gabinete em Atenas para descrever a situação política da Grécia, que é um “pesadelo”. Os partidos com hipótese de vencer as eleições de domingo estão presos ao mesmo programa. Exigências que, sublinha, com as sobrancelhas antes afáveis a marcar agora uma expressão grave, “impossíveis de cumprir a priori”.

PÚBLICO: Como vê a situação política actual na Grécia?
Christos Yannaras: Tenho a sensação de que Alexis Tsipras [antigo primeiro-ministro e líder do Syriza] tem talento. Não só pela palavra mas por pensamento político. Por outro lado, é uma pessoa que não tem maturidade social, e pertence a um domínio ideológico e político que sempre foi muito estreito. Mas é preciso ver que foi alvo de uma agressividade da parte da União Europeia verdadeiramente extraordinária. Foi a primeira vez que um político no Governo no quadro da União Europeia sofreu deste modo tanta agressividade. É um escândalo.

Isso foi evidente com a assinatura do terceiro empréstimo?
Os outros países poderiam ter reagido perante esta situação que foi verdadeiramente uma provocação. Quer dizer que cada povo não tem o direito de decidir qual será o seu Governo. É um totalitarismo terrível. Depois da queda da União Soviética, vivemos agora um totalitarismo capitalista que não tem limites. Para muitos cidadãos gregos esta situação é reveladora: revela a realidade da Europa de hoje. E há a ideia da moral de trabalho do norte contra o sul que dá prioridade às alegrias da vida. Um artigo do ministro de economia de França [Emmanuel] Macron tinha como título: “o Norte calvinista contra o Sul católico.” É um artigo de um ministro da Economia de França!

Como lidar com uma situação em que um modelo económico que não funciona…
[interrompe] É um falhanço total. Pedem-nos coisas impossíveis, a priori. Porque a economia deste país está em catástrofe. Exigem isto, suponho, para apagar este perigo entre aspas de um governo de esquerda na União Europeia. Os detalhes desta história são terríveis. Não sei o que vai acontecer. E com estas eleições não há esperança: de uma parte, todos os partidos estão submetidos à vontade de factores que dirigem a política europeia, a priori, e por outro temos os extremistas, de direita e esquerda, em quem não se pode confiar. Não se pode prever o que vai acontecer e a angústia é muito grande.

Como se vota quando tudo muda a cada vez? Quando votar Syriza num ano quer dizer uma coisa e noutro outra, o mesmo para a Nova Democracia, o Pasok…
[risos] É muito, muito difícil. É preciso ter uma maturidade e informação muito completa, para votar em alguém que há dois anos dizia uma coisa diferente do que diz hoje. Digo maturidade porque é preciso compreender o que se passou na União Europeia, todas estas noites de conversações entre a Grécia e a Europa, como houve um presidium de desconhecidos na Europa Ocidental que decidiram que partidos poderiam ser aceites na União Europeia e que partidos não. Isto é um pesadelo.

Nas eleições de 2012 tinha esperança nas forças pró-europeias. E agora?
A única esperança é que uma parte da população acorde com uma outra consciência política, e não só política, história e cultural. O que significa o que nos pede a Europa? Hoje vivemos a realidade europeia com uma hegemonia absoluta da Alemanha. O que significa a Europa, a cultura da Europa? A Europa não é apenas uma possibilidade de produção. São as suas universidades, as culturas diferentes de cada país – o uniformismo não pode representar a Europa.

A este nível a única esperança é de ver a realidade de outro modo. Mas isto não é realista, isto pressupõe tempo.

Neste momento há quem diga que se os políticos não podem fazer nada, caberá aos indivíduos fazer. Como?
A população está caída na miséria. Isso é muito visível. Desculpe mencionar aqui o meu próprio caso pessoal – estive na universidade 30 anos e a minha reforma foi cortada em 60%. Mesmo o que nos chamamos a classe burguesa passa por uma miséria… somos profundamente infelizes, não podemos ter a dignidade necessária para sermos cidadãos.

Tudo isto deita por terra a teoria de que os ciclos políticos se sucedem trazendo progresso?
Penso que estamos numa fase decisiva que nos levará ao fim de um ciclo político. Tenho mesmo a sensação de que – e sei que é uma grande palavra – é o paradigma actual está em vias de se desfazer.

Quando a economia se autonomiza em relação à sociedade, quando a política se autonomiza, isto significa que a sociedade não pode ir mais além. É uma crise de vida ou morte. E isto leva, creio, ao desaparecimento do nosso paradigma actual – quando digo paradigma refiro-me ao paradigma formado pela filosofia das luzes, a primazia absoluta dos direitos do indivíduo, tudo isso. Ninguém nos pode dizer quando esta desorganização será completa, e que espécie de paradigma virá.

Muitas pessoas têm evocado recentemente a História, por exemplo na questão dos refugiados. Esquecemos a História?
Sem dúvida. Já vimos na história da Europa casos parecidos, de chegada de um grande número de pessoas. Mas desta vez tem um carácter especial, porque o que se passa resulta de falhas políticas muito grandes. Isso provoca reacções psicológicas que não sabemos como irão acabar.

Qual poderá ser o papel de um filósofo grego neste momento difícil?
Há um dever, uma necessidade, de testemunhar a realidade, de perceber que os nossos problemas, a nossa crise, da Europa, não é uma crise económica. É uma crise do sentido da vida, da qualidade. Hoje, na Grécia, não há outra possibilidade, nenhuma outra qualidade de vida, que não seja o consumo. A amizade, o amor, a cultura, a expressão artística, tudo isto é uma construção sobre a realidade, e a realidade é apenas económica. Um filósofo pode testemunhar que a vida não acaba na economia. Há outras possibilidades.