Tiago trocou um laboratório em Cambridge pela política

Foram 15 anos fora de Portugal, a estudar e a trabalhar em investigação na área da oncologia. Tiago Brandão Rodrigues, 38, deixou Cambridge e voltou para ser cabeça de lista do PS por Viana do Castelo às próximas legislativas. “Não deixo de ser cientista”, garante

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O cientista nunca foi militante em nenhum partido mas sempre se viu como um homem de esquerda Adriano Miranda

Quando aterrou em Portugal a 14 de Agosto, Tiago Brandão Rodrigues não tinha viagem marcada de regresso a Inglaterra e as malas não tinham roupa contada para os dias de férias em família, em Paredes de Coura. Já no aeroporto, apercebeu-se de que “estava a voltar de vez” (“Mas o que é de vez?”, ainda questiona). O cientista, que nos últimos cinco anos desenvolveu investigação na área da oncologia na Universidade de Cambridge, é o cabeça de lista do Partido Socialista (PS) por Viana do Castelo nas listas às eleições legislativas de 4 de Outubro próximo.

O responsável pela mudança foi António Costa, começa por dizer Tiago ao P3. Em conversa numa esplanada em Caminha, o courense de 38 anos confessa que “o primeiro impulso foi responder não” ao convite do secretário-geral do PS. “Senti que tinha todos os graus de liberdade para dizer que não: era feliz, tinha uma vida híper mega estável, um projecto de trabalho e de vida que me realizava plenamente e uma rede social muito rica e saudável em Inglaterra”, enumera. Por isso mesmo, explica, sentiu “um imperativo de dizer presente e dar o corpo ao manifesto”. Apesar de nunca ter sido militante em nenhum partido, sempre se considerou “um homem de esquerda”.

Foram precisos vários dias para que tomasse a decisão. Aceitar “o desafio individual e colectivo” de concorrer a um lugar como deputado à Assembleia da República (AR) não significa que a sua “vida anterior” não fosse excitante. No Cancer Research UK — onde tinha um contrato de trabalho estável, sem termo — Tiago dedicava-se a estudar, em laboratório, técnicas de detecção precoce do cancro. No fim de 2013, apresentou na revista Nature Medicine uma técnica de ressonância magnética que provou conseguir detectar mais cedo e com maior precisão esta doença. Saltou para os noticiários, foi capa de revista, deu muitas entrevistas sobre a investigação que o apaixona, ganhou visibilidade e reconhecimento nacional, foi eleito P3rsonalidade 2013 pelos leitores do P3. Agora diz-se preparado para entrar numa área da sociedade “aparentemente não tão consensual”. Acredita que a cultura científica pode ter um contributo importante na política, “que não é um quadrado fechado”.

A ciência é, sem surpresas, uma das causas pelas quais pretende lutar a partir da bancada socialista na AR. Olha para a ciência “como uma das bases principais da criação de conhecimento, do sistema universitário e da economia”, reconhecendo, ao mesmo tempo, que o nosso sistema científico “tem sido posto à prova”. “Houve um desinvestimento bastante acelerado e importante e [o sistema científico português] só não colapsou pela resiliência e estoicismo de muitos dos nossos investigadores”, reitera. A ciência não pode continuar a ser periférica, “tem que se espalhar pela sociedade”, do meio científico para o tecido industrial e empresarial, sem esquecer o papel do Estado.

Conhecedor da tradição científica e tecnológica do Reino Unido, país que valoriza este tipo de conhecimento e investe nas universidades, Tiago aponta a “credibilização e a estabilização dos recursos humanos” como fundamental. Quando este princípio falha, assiste-se à “debandada geral de quem se dedica à ciência”, a polémica “fuga de cérebros” que tanto debate tem originado em Portugal. Nos países que já conheceu, em conferências e viagens de lazer, o cientista ouviu dizer, muitas vezes, que “Portugal tem segurança”. Mas a segurança no trabalho, diz, também é essencial: entender que existe uma carreira. “Dedicares-te a algo que te apaixona não tem que ser igual a empobrecimento”, defende. Daí a urgência em transformar bolsas em contratos de trabalho. “Tem que haver um momento de inflexão rápido e grave, feito musculadamente, e isso só pode acontecer se existir outra forma de proteger e pensar a ciência em Portugal.”

"Não deixo de ser cientista"

As contas da vida académica e profissional de Tiago são fáceis de fazer: 15 dos últimos 16 anos foram passados no estrangeiro (Espanha, Estados Unidos e Inglaterra). O país ao qual agora regressa já não é o mesmo: “Portugal mudou radicalmente porque o mundo e a Europa também mudaram”. Vê um país “novo, com novas valências e mais modernizado, onde aparentemente havia uma receita para nos catapultar para outros níveis de desenvolvimento”. Critica a actuação do Governo liderado por Pedro Passos Coelho, que acusa de ter tomado como prioridade “a precarização, a austeridade, o empobrecimento”. “Acreditam que essa é a receita para um país mais competitivo”, continua. “Mas nós não queremos um país mais competitivo à custa da não competitividade pessoal para comprar, criar família, fazer diferente, sonhar.”

O Alto Minho — uma das prioridades que diz ter — “é muito periférico na realidade portuguesa, mas tem uma situação geográfica absolutamente única”. Viana do Castelo está a meio caminho “entre dois pólos (Porto e Vigo), com acesso ao mar e o único parque nacional que temos, da Peneda-Gerês”. “Aqui é onde me identifico como eu mesmo”, define-se, referindo-se a Paredes de Coura e a Caminha, as duas vilas onde cresceu e para onde acaba sempre por voltar. Em cima da mesa estão também questões relacionadas com o Serviço Nacional de Saúde, a Segurança Social, a justiça e a escola para todos. Diz ter no relatório “Uma década para Portugal”, apresentado pelo PS em Abril último, “um instrumento em todas as áreas da construção da sociedade que podem mudar os próximos anos”.

Ao entregar a chave da casa que partilhava em Cambridge e cessar o contrato com a universidade que também era a sua desde 2010, Tiago não desistiu da ciência. “Não deixo de ser cientista por interromper a actividade”, faz questão de frisar. “Voltar está sempre nos meus planos. A vida política é um compromisso (…) balizado no tempo. E eu sei-o”, afirma. “Ter uma vida além da política dá-nos muita liberdade.” É por isso que vê a presença de Alexandre Quintanilha e Helena Freitas nas listas do Partido Socialista como “um motor inspiracional”. “Chego a emocionar-me ao ver pessoas entregarem-se assim a causas quando, aparentemente, não teriam que o fazer”, admite. “Olho para alguém como o Quintanilha e digo: ‘É assim que um dia quero defender o meu país’.”

Para já, compara, está a viver “um processo maratoniano” de adaptação. A família mais próxima — a mãe e o irmão, João Brandão Rodrigues, P3rsonalidade 2014 — apoiou “a nova aventura”. Quando Agosto terminou, Tiago não voltou a Cambridge. Foi a mistura de “uma sensação abrupta pela mudança radical com uma excitação enorme por poder dizer ‘aqui estou eu’”.