Há outra vez milhares de refugiados presos na hostilidade de Budapeste

A polícia recusa-se a deixar passar migrantes e refugiados sem passaporte válido e diz que medidas valem pelos próximos sete dias. A Alemanha continua a ser o sonho para quem chega à Europa.

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“Por favor deixem-nos ir”, pediram os refugiados sírios ATTILA KISBENEDEK/AFP

Ao contrário do que aconteceu segunda-feira, dia em que a polícia húngara abandonou inesperadamente a estação e deixou as portas abertas aos milhares que viviam há dias em acampamentos improvisados, os agentes voltaram a dizer nesta terça-feira que só viajava para fora da Hungria quem tivesse um passaporte europeu ou visto válido. Quase ninguém o tem.

Antes de romper o dia, as grandes filas de pessoas nos guichets e nas plataformas começaram a ser varridas pela polícia húngara para fora da estação. Cumpriam o alerta que se ouvia nos sistemas de som em Keleti: a estação seria encerrada. Reabriu horas depois, mas apenas para os que tinham passaporte. Os restantes passaram o dia ao calor, sem água ou apoio humanitário, como relatava no Twitter a jornalista austríaca Isabelle Daniel. Ao final da tarde, as dezenas de polícias de motim que vedavam a entrada principal para a estação foram rendidos por outros agentes, estes últimos armados com gás lacrimogéneo.

Presos entre um Leste europeu hostil e uma Europa em confusão sobre o que fazer com a maior enchente de refugiados desde a II Guerra, as pessoas protestaram em Budapeste. E cantaram o mesmo que se tem ouvido em várias cidades de trânsito europeias: “Merkel, Merkel”; “Alemanha, Alemanha”, “Deixem-nos partir, deixem-nos partir”. À medida que o faziam, o chefe da polícia de Budapeste anunciava que estas vistorias vão durar pelo menos sete dias e que só durante a noite de segunda para esta terça-feira haviam sido detidas cerca de 500 pessoas por atravessarem irregularmente a fronteira da Sérvia com a Hungria.

O caso húngaro
Grande parte dos países do Leste europeu não está interessada em receber refugiados e migrantes. Foram eles, aliás, em conjunto com Espanha e Reino Unido, que se opuseram ao sistema de quotas proposto em Maio. Por isso é que países como a Bulgária e a Macedónia se têm ocupado a fortalecer as suas fronteiras. Quando estas não conseguem evitar a entrada de migrantes, a resposta habitual é um empurrão, sob a forma de autocarros e comboios especiais, para o país seguinte na rota que os levará ao Norte e Oeste europeus.

A Hungria, por sua vez, tem uma resposta ambígua. Apesar de ser um dos países europeus que mais aceitam pedidos de asilo em comparação com o seu número de habitantes – menos de 10 milhões de pessoas –, o seu Governo conservador está em vias de terminar uma grande vedação na fronteira com a Sérvia. Mas, ao mesmo tempo que se diz incapaz de lidar com o fluxo de migrantes e refugiados nas suas fronteiras, impede-os, como nesta terça-feira, de seguirem caminho para os seus principais países de destino, como a Áustria e, sobretudo, a Alemanha.

“Nós não viemos para ficar na Hungria”, disse Ayham Kaka ao New York Times, ainda na noite de segunda-feira. Kaka, sírio de Alepo, acompanhado da sua mulher e filha bebé, passou dias agachado entre arames farpados nos Balcãs e ainda mais quatro acampado em Budapeste. Tinha finalmente um bilhete para Berlim, quando falou com o diário norte-americano. “É uma situação muito perigosa. A polícia é muito perigosa.”

A Hungria está na linha da frente da circulação migratória na União Europeia. Só ao longo da noite de segunda para esta terça-feira foram processados cerca de 2000 pedidos de asilo em Budapeste, segundo explica Zsuzsanna Vegh, a chefe do gabinete de imigração da Hungria, também ao New York Times. Desde o início do ano contam-se 44 mil pedidos, de entre os cerca de 150 mil migrantes que já passaram pelas fronteiras húngaras.

A postura de Budapeste face aos milhares de migrantes que se vão acumulando nas estações da capital é mais bem explicada por aquilo que o Governo conservador diz ser a islamização europeia. “É a própria existência de uma Europa cristã que está em causa”, diz o líder parlamentar do partido do Governo, o Fidesz, numa entrevista publicada nesta terça-feira no jornal Magyar Idok. “Queremos que os nossos netos cresçam num Califado Unido Europeu? A minha resposta é não.”

Esta não é uma opinião isolada no Fidesz. O chefe de gabinete do primeiro-ministro, Viktor Orban, repetiu-a ao início da tarde, no Parlamento húngaro. “Não creio que a Hungria precise de um único imigrante vindo de África ou do Médio Oriente”, disse Janos Lazar numa comissão parlamentar, citado pela Reuters. “Na última década, a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu foram governados por uma perspectiva de esquerda, em que aceitar toda a gente e deixar toda a gente entrar era o caminho para o desenvolvimento da Europa.”

Merkel, a salvadora
Nesta crise humanitária, a Alemanha tornou-se simultaneamente o maior sonho dos refugiados na Europa e a voz mais activa nos apelos contra a discriminação de migrantes e a favor de reformas na União Europeia para se fazer frente ao grande fluxo de pessoas. “Se começarmos a dizer ‘Não quero muçulmanos', isso não pode ser bom”, disse a chanceler, Angela Merkel, na segunda-feira. Respondia então às declarações do ministro eslovaco do Interior, que anunciou que o seu país preferia não receber refugiados muçulmanos.

A imagem benevolente da Alemanha atingiu um nível tal que se começaram a gerar rumores entre os migrantes de Budapeste de que Berlim enviaria comboios especiais para os recolher. A maioria do número recorde de 3605 migrantes que a principal estação de Viena recebeu na segunda-feira partiu imediatamente para a Alemanha. E, nesta terça-feira, a polícia de Munique dizia nas redes sociais que não poderia receber mais donativos para oferecer aos refugiados que chegavam à cidade.

A posição de abertura de Berlim não está isenta de críticas, as principais vindas de países de trânsito, como a Hungria e, em menor escala, a Áustria, que acusam a Alemanha de estar a induzir em erro os migrantes. Merkel assegurou nesta terça-feira que a Alemanha continua a cumprir as regras de Dublin, segundo as quais um refugiado que chega à União Europeia é obrigado a pedir asilo no seu primeiro país de passagem. Na prática, contudo, Berlim deixou de o exigir – para satisfação dos migrantes, que evitam fazer este pedido até chegarem ao Norte e Ocidente europeus.

A Alemanha e a França preparam entretanto a sua proposta conjunta para a reunião de emergência de ministros europeus do Interior, agendada para dia 14 de Setembro. Ambos os países querem evitar o chumbo do sistema de quotas e, nesta terça-feira, Merkel encontrou-se com o primeiro-ministro espanhol em Berlim. “A Comissão Europeia tem de identificar que países de origem são seguros… e temos de trabalhar para uma harmonização futura”, disse Mariano Rajoy no final do encontro, citado pelo El País