Opinião

Hermínio Martins, sociólogo ilimitado

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Hermínio Martins foi professor em Oxford durante três décadas DAVID CLIFFORD

O sociólogo Hermínio Martins morreu no dia 19, em Oxford, onde foi professor durante cerca de três décadas.

Breve e escasso foi o rumor público da sua morte, prova de que, fora de um estrito círculo académico com o qual manteve alguma colaboração nos últimos anos (principalmente o ICS, Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa), de uns poucos investigadores que repercutiram publicamente a sua “lição” e o homenagearam, e de esporádicos meios profanos (lembremos uma longa entrevista que João Urbano, na revista Nada, lhe fez há alguns anos), a grandeza, a importância e a dimensão internacional da sua obra teórica e científica não lhe garantiram, entre nós, um vasto reconhecimento. E, no entanto, todo o seu trabalho suscita uma recepção alargada, já que é marcado pela superação de fronteiras disciplinares e pela travessia de vários campos científicos: moveu-se na sociologia com uma abertura exemplar, o que implicou um aprofundado diálogo entre os saberes e uma reflexão privilegiada sobre os problemas epistemológicos e metafísicos relacionados com a investigação nas disciplinas empíricas. Hermínio Martins foi o mais filósofo dos cientistas sociais portugueses, como é bem evidente nesse livro monumental intitulado Experimentum Humanum. Civilização Tecnológica e Condição Humana (Relógio D’Água, 2011), que se reclama de uma “sociologia filosófica da tecnologia”.  

Foi, aliás, com a intenção de estudar filosofia que Hermínio Martins deixou Lourenço Marques, onde nasceu em 1934 (e onde fez parte de uma notável constelação de escritores e intelectuais, entre os quais se contam Fernando e José Gil, Hélder Macedo, Eugénio Lisboa) e foi para Londres nos anos 50. Mas logo se sentiu desmobilizado pelo domínio da “filosofia linguística”, como ele lhe chamou, na universidade inglesa. Ciente de que não era preciso fazer filosofia para alimentar os seus interesses e ideias filosóficas, encontrou na London School of Economics uma licenciatura interdisciplinar que lhe permitiu seguir um curso de lógica e método científico com Karl Popper e ser orientado pelo filósofo Ernest Gellner, autor de estudos importantes de antropologia social, ciência política e sociologia.  Para tema da sua tese, Hermínio Martins escolheu a obra de um dos nomes fundadores da sociologia: Durkheim. Sociologia e Filosofia na Obra de Durkheim e a sua Escola foi o tema ambicioso de uma tese que interrompeu para ocupar um lugar de professor de sociologia na Universidade de Leeds. Alguns anos depois, acabaria por ingressar no St. Antony’s College, da Universidade de Oxford. Mas o seu percurso de professor e investigador compreende também universidades americanas (Pensilvânia e Harvard), com breves estadias em universidades brasileiras.

O primeiro longo estudo que Hermínio Martins publicou em inglês foi sobre A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas S. Kuhn, e a transformação da imagem da ciência que essa grande obra provocou. Começou aí, em termos curriculares, uma reflexão constante sobre questões da epistemologia e da filosofia da ciência. Nessa parte do seu percurso, estabeleceu fortes relações analíticas e críticas com autores tão importantes como Kuhn, Lakatos e Feyerabend, em torno dos quais se desenvolveu, em Inglaterra, um amplo debate na área da sociologia do conhecimentos científico.  Mais tarde, Hermínio Martins deixou-se impregnar pelas questões propriamente filosóficas e sociológicas da articulação da ciência com a tecnologia. E esse é um domínio importantíssimo da sua obra, servido por uma imensa erudição histórica e científica.  A sociologia filosófica da tecnologia, tal como Hermínio Martins a praticou, convida a um percurso antropológico, a uma incursão pela antropologia do artifício, onde ganham relevo os problemas sócio-psicológicos do homem na era da técnica. As questões do pós-humano e da pós-história inscrevem-se na conceptualização de grande alcance a que procedeu Hermínio Martins.

Num outro plano, a sua condição de “sociólogo português vivendo num país livre” (em Portugal, esteve ameaçado de prisão até 1974) incutiu-lhe “o dever cívico” de fazer um estudo sobre o Portugal contemporâneo. Daí nasceu um livro que se chama Classe, Status e Poder e Outros Ensaios Sobre o Portugal Contemporâneo e que consiste num estudo dos mecanismos de poder e de controlo, da estratificação social, assim como da formação e reprodução das elites no Portugal sob a ditadura. Hermínio Martins praticou com enorme produtividade uma sociologia comparativa, algo que ele lamentava ser pouco praticado pelos sociólogos portugueses, embora reconhecesse os enormes avanços da sociologia em Portugal, tendo em conta que só muito tardiamente ela teve implantação universitária. Mas este não foi o único aspecto em que Hermínio Martins manifestou um empenhamento que esteve muito para além da sua carreira enquanto cientista social. Preocupou-o a tendência para a hiper-especialização e a ausência de comunicação entre as disciplinas; mobilizou-o a degradação da universidade e a alienação daquilo que ela devia preservar como o seu património mais próprio; insurgiu-se contra o “medo da teoria” e denunciou os imperativos curriculares que levam a um “frenesi do articulismo”. Foi com nobreza, soberania e elevação  um investigador excepcional, um homem de ciência e de saber, um universitário.