"Até em Gaza temos de viver a vida, nem que seja só um pouco"

Ao lado dos campos de treino do Hamas, e dos bairros estilhaçados por bombas, há uma realidade paralela onde a classe média palestiniana é cortejada por massagens terapêuticas, aulas de ciclismo em ginásios e resorts com praias privadas.

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O restaurante no topo da torre Zafer Heidi Levine
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Sala da sauna no Techno Gym Heidi Levine

É a Gaza que fica fora do enquadramento dos fotógrafos de guerra, onde as famílias da minúscula mas ambiciosa classe média gastam 140 dólares (123 euros) numa villa à beira-mar, para proporcionarem aos seus filhos umas férias com piscina e palmeiras. É a Gaza com treinadores pessoais, bifes no ponto e salários decentes, num enclave com a mais alta taxa de desemprego do mundo.

Os funcionários públicos de topo, médicos, gerentes de fábricas e comerciantes da classe média que não abandonaram Gaza costumam dizer que estão ensanduichados entre o bloqueio israelita, com as suas restrições apertadas em relação a viagens e comércio, e a liderança palestiniana, incluindo o movimento islamista Hamas, que controla a Faixa de Gaza desde 2007, e travou três guerras com Israel em seis anos.

"Gosto de sair uma ou duas vezes por mês. Temos de sair, se tivermos dinheiro para isso. Até em Gaza temos de viver a vida, nem que seja só um pouco", disse Samia Hillis, 33 anos, uma advogada cujos dias são passados a trabalhar com crianças a sofrer de stress pós-traumático.

Hillis estava sentada com a sua sobrinha no novo restaurante no topo da Torre Zafer. As mesas estavam ocupadas por famílias que comemoravam festas de aniversário de crianças, por jovens casais que conversavam calmamente, e por mulheres – a maioria com lenços na cabeça, mas algumas não – a fumar tabaco com sabores em cachimbos de água.

A Torre Zafer foi atingida por peças de artilharia e mísseis israelitas no Verão passado. A artilharia de Israel destruiu uma antena de comunicações que estava no telhado do edifício. A cozinha do restaurante foi consumida pelo fogo. Um porta-voz militar israelita disse à Associated Press que o edifício era um "centro de actividade terrorista", mas não elaborou.

"Acho que as pessoas de Gaza merecem ter muito mais do que aquilo que têm", disse Basil Eleiwa, o gerente do restaurante, sublinhando que tenta manter os preços das sanduíches de frango com salada ou de pargo com limão a níveis razoáveis.

Eleiwa diz que o mercado da classe média em Gaza é "limitado, precioso e está quase em risco de desaparecer". Descreveu a economia de Gaza como estando a "resvalar por um precipício". Lembrou uma conversa que teve com um líder do Hamas, em 2007, depois de o movimento islamista ter assumido o controlo da faixa costeira. O líder do Hamas terá questionado se era realmente importante que 100.000 pessoas saíssem de Gaza. Basil Eleiwa salientou que esse é precisamente o número de pessoas da classe média no território.

Mas os sinais de reconstrução – ou a falta deles – são chocantes.

Nem uma única das 18.000 casas destruídas na guerra do Verão passado esta habitável. A reconstrução move-se a um ritmo gélido. O cimento adquirido no mercado negro é a principal moeda. O desemprego em Gaza, nos 43 por cento, é o mais elevado do mundo, segundo o Banco Mundial, que declarou que "o bloqueio, a guerra e uma governação fraca" deixou a economia de Gaza à beira do colapso. Quase 80 por cento dos 1,8 milhões de habitantes recebem assistência social.

Mas no caminho à beira-mar, restaurado com fundos do Qatar, abriu portas um stand de automóveis Grand Motors, com os modelos mais recentes da Mercedes-Benz para venda.  

"Estamos abertos há dois meses e vendemos dois", disse Moemen Abu Ras, um dos sócios. A sua família está no negócio da venda de acessórios em segunda mão para automóveis há três gerações. O mercado para carros de luxo é pequeno, mas ainda assim há um pequeno nicho para preencher. "Mas muito devagar", disse.

Há um Mercedes Classe E de 2014, com 20.000 quilómetros, à venda por 80.000 dólares. "Os impostos são o maior problema", disse Abu Ras, que compra os automóveis em dinheiro na Alemanha, importa-os através do porto israelita de Ashdod, e depois paga os impostos a Israel, à Autoridade Palestiniana e ao Hamas.

A um quilómetro e meio de distância, no recém-inaugurado Techno Gym, Gazans paga cerca de 100 dólares (88 euros) por mês para ser membro do clube, que tem ar condicionado, hidroterapia, aulas de spin e de natação, e máquinas de musculação, que foram importadas da China, mas que ficaram retidas em Telavive durante dois meses por causa da guerra.

"Isto não é um negócio; é um sonho", disse um dos sócios, Ammar Abu Karsh, que tinha acabado de dar uma aula, enquadrada por um cartaz onde se lê "Sem sofrimento não há recompensa". O clube tem mais de 500 membros.

"Gaza tem ginásios, mas nenhum como este", disse Mohammad Migdad, um praticante de musculação com enormes bíceps.

Migdad ajuda a treinar novatos e competidores, como ele. "Gastamos as nossas energias no desporto, em vez de andarmos por aí deprimidos ou a tornarmo-nos extremistas", disse. Confessa que a vida de um praticante de musculação em Gaza é difícil. "Não podemos viajar, e não há patrocínios", disse Migdad. "E se quisermos ter músculos grandes, temos de tomar suplementos, que têm um preço muito elevado."

No ginásio, uma embalagem de proteína Iron Whey, promovida por Arnold Schwarzenegger, custa 130 dólares (114 euros), quase o triplo do preço num ginásio na Califórnia.

Gaza tem apenas um hotel de cinco estrelas, o Mashtal, desde 2011. Esteve a encerrado durante anos, mas voltou a abrir. Do outro lado da rua fica a nova sensação, o resort Blue Beach, que tem uma piscina olímpica, jovens a servir cocktails, e uma praia privada.

Depois de uma estação de televisão israelita ter feito uma reportagem crítica sobre o resort – questionando de que forma iriam chegar turistas, a não ser através dos túneis usados para contrabando –, a gerência decidiu tentar passar mais despercebida. Um funcionário do hotel disse que a segurança do Hamas se queixou que os jornalistas estavam a passar uma ideia errada sobre Gaza.

"Em qualquer sociedade, durante uma guerra, fome, seja o que for, há sempre pessoas que arriscam nos negócios. Aqui, os comerciantes não têm esperanças de que o cerco acabe, por isso procuram outras oportunidades. Não há exportações. Não há vestuário, flores. Por isso, as pessoas tentam vender alguma coisa a Gaza. Alguns automóveis, restaurantes, resorts", disse Omar Shaban, um respeitado economista. Shaban encolhe os ombros. "Não é muito", disse.

Mas para os habitantes de Gaza que têm poder de compra, é o gosto dos pequenos prazeres da classe média que os mantêm com ânimo para continuarem. Numa villa balnear, na semana passada, a família Ammar saiu dos seus automóveis com pratos de húmus, azeitonas picantes, mangas e uvas, e com o volume da música quase no máximo. Pagaram 140 dólares para terem a villa só para eles durante 20 horas. Heba Ammar, de 24 anos, não podia esperar. "Se eu pudesse sair de Gaza", disse, "sairia a correr!"
Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post