O fantasma dos festivais passados vive em Montemor-o-Velho

Nos anos 1990, chamámos-lhe “mini-Avignon”: o lugar onde mais do que uma geração de criadores e de espectadores portugueses teve o que nunca tinha tido. Em 2012, um “corte cego” fez o Citemor entrar numa espiral de subfinanciamento e chegar à situação-limite em que o encontramos hoje.

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As escadas rolantes inauguradas em 2013 vão ter ao castelo, espaço que o Citemor ajudou a reocupar SÉRGIO AZENHA

Do que alguns se lembram primeiro, porque deixava marcas, é dos mosquitos.

Continuam implacáveis, os mosquitos de Montemor-o-Velho. Uma picada e é quase proustiano, isto de o fantasma dos festivais passados voltar à vida, assombrando esta vila que às 15h30 de um sábado de Agosto parece desabitada (sobram os utentes da Santa Casa da Misericórdia, que vêm tomar ar para os bancos da Praça da República, e então gera-se um certo trânsito de cadeiras-de-rodas) mas onde todas as noites há lotação esgotada para ver o que resta do Citemor, o festival de artes performativas a que em 1995, no Se7e, Jorge Listopad chamou o nosso “mini-Avignon”. Mais umas escadas rolantes inauguradas em 2013 que parecem uma alucinação cyborg enxertada num centro histórico morto-vivo (nem a Câmara Municipal consegue contar quantos ficaram, mas são poucos e regra geral estão velhos), menos um restaurante famoso (11 anos seguidos de estrelas Michelin e no presente “nada para comer a não ser insectos”, confirma o recepcionista do Hotel Abade João), a vila de 700 habitantes está como a deixámos há dez anos (ou 15 ou 20).

Mentimos: há dez (ou 15 ou 20) anos, este hotel ainda era só uma pensão.

Um castelo lá em cima (tentamos a casa de chá, continua fechada), uma Praça da República cá em baixo (tentamos a Galeria Municipal, continua fechada), uma vila-fantasma no meio: “mini-Avignon” talvez tenha sido um exagero, mas há uma ligação entre o grande acontecimento anual do teatro europeu e o festival que começou amador em 1974 e depois se tornou destino obrigatório para mais do que uma geração de criadores e de espectadores. Verdade, o jantar no Ramalhão era só um bónus: todos os anos havia espectáculos irrepetíveis em lugares irrepetíveis (celeiros no Faroeste, casas sem telhado, armazéns abandonados), lotações esgotadas na pensão e no restaurante, e fenómenos para além do teatro e da dança: até Test Dept., até Tony Allen.

Em 1992, o ano Test Dept., o Citemor já era o centro de um certo mundo, ao ponto de o mesmo Se7e ordenar “que se interrompam as férias, que se pare o país, a festa é agora em Montemor-o-Velho”. Em 2003, o ano Tony Allen, Montemor-o-Velho já ficava oficialmente a caminho de Avignon: Rodrigo García, o dramaturgo e encenador argentino que então ainda estava no processo de se tornar uma figura de culto (hoje é director do Centro Dramático Nacional de Montpellier), tinha chegado três anos antes à Sala B com After-Sun para pôr todos os jornais a falarem das suas manobras perigosas com coelhos indefesos, e logo a seguir escreveu e estreou no Citemor outra peça em que choviam frangos, pacotes de arroz e latas de feijão, A História de Ronald, o Palhaço do McDonald’s, que dali partiu de facto em direcção a Avignon. Mas muito antes de chegar Rodrigo García – ou, mais tarde, Angélica Liddell, que aqui fez a primeira apresentação integral da trilogia Lesiones Incompatibles com la Vida / Broken Blossoms / Yo No Soy Bonita em 2007 e depois partiu não só para Avignon como para a Bienal de Veneza (e, quatro anos depois, chegou à Culturgest) –, o Citemor já era o lugar onde O Bando fez pelo menos um dos espectáculos mais estarrecedores da sua história e onde o Teatro da Garagem reuniu pela primeira vez, numa maratona mítica que começava às 16h e acabava pelas 4h, todas as peças originais de Carlos J. Pessoa. Como também já era o lugar onde vimos o futuro do teatro, e chamava-se tgStan (é científico: o teatro português não voltou a ser o mesmo depois desse choque civilizacional). Ou o lugar onde a nova dança portuguesa atirava o corpo para a luta (Francisco Camacho, de resto, veio para ficar, até hoje: ali mostrou e/ou estreou, sucessivamente, Nossa Senhora das Flores, Dom São Sebastião, More, Sporting Decadence, Silence So Sexy, Superman / Dossier Hitch…).

Começa a ser altura de finalmente falarmos do presente sem futuro desta 37.ª edição do festival que se fez há uma semana em total precariedade, com os artistas a custearem deslocações e materiais para não deixar morrer o Citemor e um contingente de voluntários a ajudar pro bono em tudo, desde ceder casa e quintal para as refeições das equipas até imprimir folhas de sala. Atiremos só mais uns nomes para a luta – Olga Roriz, Lúcia Sigalho, João Grosso, As Boas Raparigas, Paulo Ribeiro, Miguel Pereira, Paulo Castro, Nuno Cardoso, João Garcia Miguel, Tiago Rodrigues, João Galante, Mala Voadora, Patrícia Portela, John Romão, Teatro do Vestido – para que se perceba que este também é o lugar onde se fez uma parte substancial da história das artes performativas portuguesas. E agora regressemos a 2015, o ano horrível em que o festival vai acabar a não ser que seja salvo por “medidas de emergência” (segue-se, até um encontro que se espera conclusivo no Teatro Taborda, em Outubro, um período de auscultação da comunidade artística sobre formas de viabilizar o Citemor). Não em nome do que foi, reclamam os dois directores, Armando Valente e Vasco Neves, ambos exaustos, no day-after da edição-limite (mas pelo menos os telemóveis já não estão sempre a tocar): “Acabamos invariavelmente a evocar um passado mítico e as coisas maravilhosas que fizemos – especialmente o milagre de termos produzido um espectáculo com pouquíssimos recursos que acabou no programa principal do Festival de Avignon. Mas o Citemor devia ser defendido por tudo o que ainda é e por tudo o que ainda pode vir a ser.”

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Armando Valente, director do festival desde 1992

São 18h15 de um domingo de Agosto em Montemor-o-Velho. Todos os artistas que se ofereceram para fazer o que pode ter sido o último Citemor se foram embora. Vista da esplanada do Café D. Dinis, a Praça da República está ainda mais vazia.

Ter ou não ter
Lançada em 1974 pelo Centro de Iniciação ao Teatro Esther de Carvalho (CITEC), uma das muitas associações culturais de um concelho com uma fortíssima tradição de teatro amador, a Semana de Teatro do Castelo de Montemor-o-Velho passaria a chamar-se Citemor em 1982, o ano em que acolheu pela primeira vez um grupo profissional, a Companhia de Teatro de Almada. É outra medalha que o Citemor pode reivindicar: não sendo o festival de teatro do país que se realizou mais vezes (vai à frente o FITEI, com as suas 38 edições; o Festival de Almada tem 32), é o mais antigo. Tanto que se o CITEC tinha nascido em 1970 para “acabar com o teatro velho”, 22 anos depois era ele próprio que necessitava de uma renovação – pelo menos aos olhos da geração que ali se iniciara entre o final da década de 80 e o início da década de 90 e que além de algumas das principais companhias de teatro do país pós-revolucionário tinha podido ver no Citemor concertos de Sétima Legião, Miso Ensemble ou Rafael Toral (era assim o festival nesse tempo: podia começar com matança do porco e cantares regionais e acabar com Carlos Zíngaro).

1992, o tal ano Test Dept., é por isso, o ano zero daquilo que hoje se entende por Citemor: em que Armando Valente chega, com Nuno Duarte e José Manuel Pinheiro, à direcção do festival; em que, com o patrocínio do programa Coimbra – Capital Nacional do Teatro, comissariado por Ricardo Pais, o Citemor se transforma numa espécie de estados-gerais do Novo Teatro Português; em que o orçamento passa de três mil para 12 mil contos; em que o Se7e envia dois jornalistas para cobrirem a “festa na aldeia” que começava a chamar gente de todo o país (no ano seguinte, em 1993, outra “festa na aldeia” ficava para a história: a primeira rave no castelo de Montemor-o-Velho, que então, também por impulso do Citemor, deixava de ser visto como no man’s land).

Decorreram entretanto mais de 20 anos. Além do castelo, o Citemor ocupou igrejas, quintas, celeiros, palácios, mercados, armazéns e casas em ruínas, produzindo e em muitos casos encomendando espectáculos memoráveis que por terem sido feitos para aquelas circunstâncias específicas nunca mais puderam ser reproduzidos (e ainda reabilitou, com o CITEC, o Teatro Esther de Carvalho). Voltando a Rodrigo García e à sua A História de Ronald…: “A cena da chuva de comida só apareceu porque a Sala B, onde o espectáculo foi criado e estreado, não tinha tecto. Era impactante no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, onde o vi mais tarde – mas imaginar que originalmente a comida caía mesmo do céu e não da teia de um teatro… Aqui não havia metáfora, era tudo verdade”, recorda ao Ípsilon John Romão, que veio pela primeira vez ao festival em 2006, como assistente do encenador argentino, e desde então ali concluiu e estreou várias das suas peças (este ano trouxe Pasolini Is Me, que apropriadamente encerrou o Citemor com uma espécie de rave no castelo). Velocidade Máxima (2009), em que contracenava com dois prostitutos, foi uma delas: “Na Sala B, eu pude ter duas pessoas que pertencem à rua verdadeiramente a céu aberto, só que entre quatro paredes. Essa imagem original era tão forte que nunca mais conseguimos fazê-la com a mesma tensão. Quando passámos o espectáculo para o Negócio [em Lisboa] ou para o La Laboral [em Gijón] passou a ser outra coisa.”

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Sérgio Azenha
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Com a crise, também o Citemor passou a ser outra coisa – de anos dourados como 2002, quando teve o seu orçamento mais resplandecente, próximo dos 249 mil euros, um festival que estava perfeitamente integrado no sistema de apoio público à criação caiu para níveis insustentáveis de subfinanciamento. Tem sido uma espiral, e não parece fácil sair, sendo que para um festival de teatro, sobretudo em Portugal, sobretudo periférico, ter ou não ter apoio da DGArtes faz toda a diferença (só para que nos lembremos do lugar onde estamos em 2015: no país onde nem os teatros nacionais conseguem garantir mecenas).

O que aconteceu exactamente para que um festival que em 2003 aparecia mencionado nas sugestões de Verão da Caras e em 2004 era citado pelo presidente do Instituto das Artes, Paulo Cunha e Silva, como “um dos centros de excelência” fora de Lisboa e Porto? Primeiro, em 2012, a carta em que a DGArtes propunha ao Citemor – e a mais 141 entidades – um “corte cego” de 38% em relação ao apoio contratualizado um ano antes. E depois, em 2013, uma candidatura conjunta com a Câmara Municipal de Montemor-o-Velho aos recém-criados Apoios Tripartidos que foi chumbada pela DGArtes. “Pela primeira vez fomos avaliados por funcionários sem rosto e não por um júri da área. Essa candidatura, que nos teria permitido trabalhar em rede com Espanha e França, teve um plano de comunicação elogiado, uma nota artística de oito pontos em dez (o melhor classificado teve 8,5)… Mas tinha havido uma decisão prévia que condicionou os resultados: diminuir o número de candidaturas a apoiar para cerca de metade, de forma a poder conceder-lhes a totalidade do montante solicitado”, explicam Armando Valente e Vasco Neves.

Por um ponto se perde e por um ponto se ganha o apoio – e o Citemor, que ficou a menos de seis pontos do melhor classificado da região Centro (a ACERT, de Tondela), perdeu. Sendo que, estranhamente, o parâmetro em que é mais castigado (com três pontos em dez) é o do contributo para a internacionalização dos artistas portugueses – um ano depois de ter levado a Madrid, numa extensão do festival ao Teatro Pradillo, Francisco Camacho, Teatro do Vestido e Rafael Alvarez. Desde então, basicamente tem tentado sobreviver: com um apoio pontual de 25 mil euros em 2014 (“pocket money”, considerou na altura Armando Valente, lembrando que o festival chegou a ter orçamentos anuais superiores a 200 mil euros e que o último apoio bianual da DGArtes, em 2011, excedia os 140 mil), sem apoio nenhum este ano porque o concurso abriu em Maio, ou seja, com um atraso que o torna inútil para o festival. Tudo indica que os resultados finais sejam publicados apenas em Setembro – chegarão demasiado tarde para um festival que decorreu de 6 a 8 de Agosto.

A água primeiro
A direcção do Citemor acusa a DGArtes de “não ter olhado para a história, para o passado, para o trabalho do festival”. Podia ter sido diferente? Deolindo Pessoa, um dos fundadores (e membro da actual direcção) do CITEC, a associação a que o festival permanece ligado – e que assegura, apesar do corte no financiamento, a programação do Teatro Esther de Carvalho –, admite que sim. “O Citemor foi e é importantíssimo. Não se pode esquecer que referências como o Rodrigo García, a Angélica Liddell, a Olga Mesa ou a La Ribot nunca tinham vindo a Portugal. Mas sofreu muito com a degradação dos apoios – e, na minha opinião, também com um certo divórcio entre a população local e a organização. Por um lado porque deixou de apostar na comunidade; por outro porque as divergências com o poder local causaram fricções”, conta ao Ípsilon. A inactividade prolongada do CITEC, que só nos seis ou sete últimos anos voltou a ter produção regular, também pode ter contribuído para o desenraizamento de um festival que sempre foi muito maior do que Montemor-o-Velho: “O Citemor devia ser o culminar da actividade anual do CITEC e não a actividade anual do CITEC – e para apostar no festival houve um claro desinvestimento na produção regular do grupo. Foi isso que permitiu, na década de 90, o apogeu do Citemor. Só que não se fazendo coisas durante o ano os públicos perdem o hábito de ir ao teatro. É o velho ditado: preso por ter cão, preso por não ter.”

Será um dos problemas. O outro é a Câmara Municipal de Montemor-o-Velho, com a qual o Citemor está aliás em litígio: o executivo socialista que ganhou as últimas eleições depois de 12 anos de maioria PSD-CDS anulou, por considerar “ilegal”, o subsídio de 100 mil euros que o anterior tinha concedido ao Citemor, relativo a quatro edições do festival (2009 a 2012). “A Câmara contratualizou com o Citemor um apoio de 40 mil euros por edição. Devido à situação grave de endividamento do município, esse montante foi renegociado e passou dos 160 mil euros devidos para 100 mil. É uma dívida reconhecida e que está contemplada no plano de recuperação económica – mas a Câmara já disse declaradamente que não paga”, lamenta o dirigente do CITEC, “um dos poucos espectadores que frequentam o Citemor desde os anos 70” e que, apesar “de pontuais divergências”, admira “o esforço e o trabalho” da organização (“Têm feito omeletes com poucos ovos, e este ano sem ovos nenhuns”).   

Emílio Torrão, o presidente da Câmara, reconhece que o Citemor é útil ao concelho – mas diz que o festival nunca poderá ser feito às custas de uma autarquia tão pequena como a de Montemor-o-Velho, muito menos enquanto ela estiver tão endividada. Quanto ao subsídio em litígio, que argumenta ter sido ilegalmente aprovado “nos últimos dias de mandato”, quando já se sabia que seria outro executivo a ter de pagar a conta, garante que respeitará a decisão do tribunal. Quanto ao futuro, repete que o Citemor será apoiado “nos mesmos termos que as outras associações”: “O valor do subsídio que anulámos está muito próximo do montante global disponível para todas as outras entidades do concelho – incluindo as bandas filarmónicas, que promovem o ensino da música e prestam um serviço inestimável. Não me parece que a Câmara deva matar toda a cultura de Montemor-o-Velho para salvar o Citemor.”

“Toda a cultura de Montemor-o-Velho”, continua Emílio Torrão, é intensa o suficiente para manter “sempre preenchida” a agenda do concelho – de actividades amadoras. São essas, defende, que é obrigação da Câmara apoiar: “Pela sua escala nacional, o Citemor deve ser apoiado pelo Estado através da DGArtes: tudo o que o município pode dar é pouco para um festival desta dimensão, a não ser que o abastecimento de água ou a recolha do lixo fiquem para trás. Mas também acho que o grande problema do Citemor é nunca se ter desligado do financiamento público e procurado formas alternativas de financiamento, um patrocinador, um mecenas. Tem nome e tem passado para isso, não os usou.”

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Continuamos, claro, no país em que nem os teatros nacionais conseguem garantir mecenas e em que os concursos públicos não foram propriamente criados a pensar em festivais que não respeitem o modelo habitual de apresentação de espectáculo seguida de apresentação de espectáculo. No país, lembra Armando Valente, “em que uma estrutura de Lisboa pode receber da DGArtes – e talvez justamente – mais do que estava destinado para toda a região Centro em dois anos”. E nisto onde é que fica um festival cujas idiossincrasias (a distância em relação aos grandes centros, a vocação laboratorial, a aposta em co-produções, o investimento na edificação de um repertório contemporâneo, o predomínio de residências artísticas prolongadas, a criação site-specific para espaços não-convencionais, a liberdade dada aos criadores para aproveitarem a estadia no festival da forma mais produtiva para o seu trabalho, “sem qualquer tipo de ingerência, sem qualquer obrigatoriedade de chegar a um espectáculo acabado”, mas “com uma atenção ao projecto e às necessidades dos criadores que é sempre incrível”, para citarmos livremente dois dos artistas regulares presentes na edição deste ano, John Romão e Joana Craveiro) não cabem nas grelhas de nenhum dos formulários que a DGArtes disponibiliza para o apoio às artes e que tendem a valorizar, por exemplo, o número de sessões e de espectadores, nem na agenda de um executivo que herdou uma dívida gigantesca e só a reabilitar uma rede de água “do século passado que está a colapsar” já gastou mais de 500 mil euros?

Incomodados com a “falta de respeito” da Câmara, para a qual “parece ser indiferente que o festival se faça em Montemor-o-Velho ou noutro lado qualquer”, Armando Valente e Vasco Neves lamentam que o poder local “nunca tenha sabido tirar partido do contributo que o Citemor deu e podia continuar a dar para a coesão e a identidade do território”, e nomeadamente de um centro histórico ameaçado pela desertificação ao ponto de a autarquia ter tido de lançar um programa de reabilitação urbana com carácter de urgência. Talvez o Citemor seja um pouco como as escadas rolantes que cortam a vila ao meio e terminam num emaranhado de silvas (projecto que Emílio Torrão também herdou, apesar de ter votado contra quando estava na oposição) – uma alucinação cyborg, numa vila que nunca conseguiu sequer ser consequente a atrair turistas e num país em crise.

Vestir a camisola
Entretanto, e enquanto Emílio Torrão interrompe as suas férias para atender o telefonema do Ípsilon, Armando Valente estica cabos eléctricos no castelo, horas antes de o 37.º Citemor ali terminar com o karaoke pasoliniano de John Romão. “Normalmente”, esclarece, “haveria uma equipa técnica dedicada a cada espectáculo”. Como não há dinheiro, ali está o director do festival a vestir a camisola – como na véspera o fizeram ainda mais literalmente dois coreógrafos muito lá de casa, Francisco Camacho e Elena Córdoba, com Uma Ficção na Dobra do Mapa. Iniciada por correspondência e depois montada em apenas um dia de ensaios presenciais, foi a prenda deles para este Citemor: acabava com Francisco e Elena a vestirem e a despirem sucessivamente todas (menos duas) as t-shirts oficiais do festival, as últimas das quais produzidas já em regime do-it-yourself por não haver orçamento para mais (é só ir ao site, descarregar o stencil e fazer em casa). 

Foi assim que se fez todo o Citemor da semana passada – “o Citemor do milagre”, como se diz à mesa do Café D. Dinis. “Naturalmente”, Francisco Camacho e Elena Córdoba pagaram do seu bolso as viagens desde Itália e Espanha. “Naturalmente”, Joana Craveiro, gorada a residência que ia fazer (uma série de entrevistas a filhos de retornados numa região onde descobriu haver uma incidência invulgar dessas histórias), criou “especificamente para o Citemor, como acto de resistência cultural”, uma apresentação informal a partir dos materiais que recolheu noutro lugar e que daqui a um ano darão um espectáculo de que o festival provavelmente terá de desistir, porque pode já nem sequer estar vivo.

Já não devia estar vivo agora: 2012, o primeiro ano em que se fez praticamente sem meios (curiosamente, o ano em que o Teatro do Vestido de Joana Craveiro ali iniciou a sua presença regular, quase como “um manifesto” de gratidão “a uma estrutura que durante tantos anos apoiou incondicionalmente os artistas”), era para “ser irrepetível” porque para a direcção parecia “criminoso” o princípio de os artistas trabalharem sem receber. Repetiu-se em 2013, em 2014 e em 2015 – em condições cada vez mais precárias mas com espectadores suficientes para encher um teatro, um celeiro, um centro histórico vazio. Foi assim há uma semana: uma pequena multidão a apinhar-se numa sala onde só deviam caber 40 pessoas porque para a organização também parecia criminoso deixar espectadores de fora; uma pequena multidão a dançar Morrissey no castelo como maneira de dizer que, mais do que todos Pasolini, somos todos Citemor (e que, portanto, “perante a crise, antes festejar do que desistir”); uma pequena multidão a debater com uma perfomer emergente, Raquel André, o que fazer com a sua Colecção de Amantes, espectáculo com que se estreará num teatro nacional agora dirigido por um encenador que também já foi Citemor; uma pequena multidão a subir as escadas rolantes atrás de uma mulher de vestido transparente, saltos-agulha e cornos na cabeça.

Uma alucinação.