Editorial

Agradar a gregos, a troianos e a alemães

Alemanha diz que não tem pressa para fechar um acordo. E tem 100 mil milhões de razões para não a ter

Os gregos finalmente chegaram a acordo com a troika para que esta possa dar luz verde ao terceiro resgate financeiro. "Finalmente há fumo branco", anunciava o ministro das Finanças Euclides Tsakalotos ao final de mais uma maratona de 23 horas de negociações num hotel em Atenas. Resumindo a reunião através da frieza dos números, é um cheque de 85 mil milhões de euros em troca de 35 medidas, muitas delas de austeridade, que não fazem adivinhar um futuro risonho para um país que esteve seis anos consecutivos com a economia em recessão.

Os responsáveis da Comissão Europeia apressaram-se a vir dizer que o que se tinha conseguido era apenas uma base técnica para o acordo, sendo que ainda faltava o “consentimento político”, que é como quem diz, o OK da Alemanha e da França. E o que diz a Alemanha? Um porta-voz do Ministério das Finanças alemão veio dizer que a libertação das tranches do empréstimo deveria ser proporcional ao ritmo de implementação das reformas, que é o mesmo que dizer que não acredita muito na boa vontade do Governo grego em implementar as medidas. Juerg Weissegerber afirma que a Alemanha está pronta para avaliar o terceiro resgate grego, “mas que a qualidade vem antes da velocidade", ou seja, sem grandes pressas.

Pressa foi aliás coisa que a Alemanha nunca mostrou nos últimos anos para resolver a crise das dívidas soberanas, e essa postura não é alheia ao facto de a própria economia germânica, pelo menos no presente, estar a beneficiar imenso dessa mesma crise. Ainda esta semana um estudo publicado pelo Instituto de Investigação Económica Leibniz conclui que a Alemanha já “lucrou” mais de 100 mil milhões de euros com a crise da zona euro. Como? Beneficiando da procura anormalmente elevada por parte dos investidores que fugiam das obrigações dos países periféricos para investir nas bunds alemãs, um activo de refúgio em tempos de turbulência dos mercados. E se calhar o arrastar da agonia europeia tem tido muito que ver com esta falta de incentivos da Alemanha para colocar um ponto final na crise.

Até lá, o Governo grego vai fazendo uma ginástica para agradar aos credores, sem provocar uma rebelião a nível doméstico. Não é por acaso que o Parlamento aprova o novo pacote de austeridade quase em simultâneo com novas medidas para cortar os benefícios fiscais dos deputados e dos ministros. Já que não se consegue contrariar a austeridade, ao menos tenta-se moralizar a austeridade.

Mas o mais preocupante no compromisso para o terceiro resgate é que o cenário macroeconómico que serve de base ao acordo prevê que a economia grega continue em recessão este ano (entre 2,1% e 2,3%) e em 2016 (0,5%). Por culpa do radicalismo do Syriza que paralisou a economia nos últimos seis meses e por culpa do excesso de austeridade imposta pelos credores. E sem grandes pressas, e à velocidade imposta pela Alemanha, a Grécia caminha para uma década perdida.