PS acusa Governo de “fabricar estatísticas com fundos estruturais”

Maioria assinala momento histórico, garantindo que valores já estão abaixo do que era verificado em 2011.

Foto

À partida, seria de esperar que a divulgação dos números do desemprego gerasse consenso entre os agentes políticos. A maioria falou em dia “histórico” e até Carlos Silva, o secretário-geral da UGT — a central sindical próxima do PS —, veio a público fazer o “reconhecimento pelas políticas públicas onde nós também damos o nosso esforço e demos naturalmente os nossos contributos”.

Só que o regozijo não passou de Faro, onde o ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social e o líder da UGT se encontraram para celebrar um protocolo. Por Lisboa, o cenário apresentado pelos partidos da oposição foi bem mais sombrio.

Entre as diferentes reacções da esquerda, um factor sobressaiu enquanto denominador comum: o da quantidade de população activa fora dos radares estatísticos. A deputada socialista Ana Catarina Mendes elencou-os por categorias: os que tinham emigrado (500 mil pessoas), os desencorajados, os desempregados em formação profissional (que indicou terem passado de 25 mil para 160 mil nos últimos quatro anos) e os "mais de 70 mil" estagiários.

Foi à conta destas duas últimas categorias que Ana Catarina Mendes fez a mais dura acusação ao Governo: "Nunca como hoje o Estado foi ‘tão importante’ na criação emprego — e coloco entre aspas. Isto não tem a ver com a actividade económica, mas com o empenho que este Governo tem em fabricar estatísticas com fundos estruturais europeus para criar a ilusão de que estamos a ter mais emprego em Portugal", garantiu.

O PCP falou do mesmo, embora recorrendo à expressão da "taxa mascarada". O comunista Jorge Cordeiro estimou que se todos estes portugueses fossem contabilizados, a taxa de desemprego seria "muito superior a 30%". Lembrou os "500 mil portugueses que foram obrigados a emigrar", somando a estes os 250 mil inactivos que desejariam trabalhar e que não contam para a estatística, e os 240 mil que estão em situação de subemprego.

Em números absolutos, o PS optou por fazer a comparação com 2011. "Há hoje menos 218 mil empregos desde que este Governo tomou posse. É a maior destruição de emprego em Portugal dos últimos 50 anos. Não tem nenhum paralelo no Estado democrático em Portugal", afirmou Ana Catarina Mendes.

No mesmo dia, o Governo falava de uma taxa de desemprego inferior à de 2011. A vice-presidente da bancada do CDS, Cecília Meireles, defendeu o mesmo: "Estes números fazem história na história destes últimos quatro anos." Para lá da aparente contradição entre as duas posições, Mota Soares optou por fazer outra contagem. “Há mais 226 mil postos de trabalho do que no início de 2013, que foi o pico da crise”, disse o ministro antes de anunciar que Portugal tinha dado “a volta”.

Já o ministro da Economia falou em "230 mil postos de trabalho liquídos", sublinhando que "o mérito" da sua criação "é das empresas, do sector privado". "O Estado faz o que pode para facilitar a vida às empresas, e o turismo é disso exemplo. (...) Mas o mérito é das pessoas que arriscam o seu dinheiro em Portugal", declarou Pires de Lima aos jornalistas. 

Para o governante centrista, os números divulgados pelo INE "são dados importantes, muito positivos do ponto de vista do emprego em Portugal", mas para os quais "não vale a pena olhar para os dados com euforia, porque ela não é justificável". Pires de Lima acrescentou ver "com alguma tristeza" a reacção da "oposição política", por considerar que com ela a oposição está "a dizer que não acredita nos portugueses e na capacidade do sector privado". 

No meio do debate ficava o INE. As diferentes interpretações sobre os números do desemprego geravam desconforto entre os trabalhadores do instituto. Talvez por isso, Carlos Silva tenha avisado que não contassem com a UGT “para dizer mal e o bota-abaixo”: “Nós temos que dizer bem daquilo que há que dizer bem. Quando piorar, nós cá estaremos para malhar no Governo e em quem quer que seja que esteja no poder.”