Crítica Cinema

Karaoke com Amy Winehouse

É um equilíbrio ambíguo: para existir o filme tem de participar do circo que denuncia.

<i>Amy</i>: para existir o filme tem de participar do circo que denuncia
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Amy: para existir o filme tem de participar do circo que denuncia DR

Não há talking heads em Amy, antes a (re)utilização de uma ampla variedade de material que foi dando conta em vida da vida em público de Amy Winehouse: talk shows, concertos pequenos ou para multidões, como aquele em Belgrado que marcaria um comeback e que foi o início da queda – Amy perdida em palco, o olhar a vaguear, sorriso congelado, assobios... –, imagens filmadas por amigos e amores, como Blake Fielder, sobre quem pesará o fardo de ter introduzido Amy às drogas duras para sustentar o seu hábito.

obre essas imagens aparecem no ecrã as palavras que Amy escrevia para as canções. O que pode servir para uma espécie de karaoke interior de um espectador emocionado. Mas funciona também como certificado de validade: sendo as palavras uma síntese, caucionada pela protagonista, da sua vida, se ela assim se expôs, o documentário de Asif Kapadia – nisso o filme é astuto – permite-se utilizar toda a gama de material que na sua essência é violador - fotos na casa de Camden no momento de consumo de drogas, a coca na mesa, as folhas de alumínio... -, integrando-se na máquina autodestrutiva sem fazer grandes perguntas. É como se se protegesse no karaoke, sobrevoando palavras, canções, imagens, emoções, sem questionar procedimentos. É um equilíbrio ambíguo: para existir o filme tem de participar do circo que denuncia, mexendo nos materiais sem os questionar - se o fizesse, talvez não existisse filme.