Bill Cosby testemunha que pagou pelo silêncio de mulheres com quem teve sexo

Comediante nega acusações de mais de 25 mulheres de abuso sexual. New York Times revela novas declarações do actor depois de Obama ter sido confrontado com o caso.

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Eric Thayer/REUTERS

Um testemunho com dez anos, prestado sob juramento no âmbito de um processo por abuso sexual, continua a delapidar a persona pública e moral de Bill Cosby, outrora um dos “pais” da América sentada no sofá das sitcoms – e que nega as acusações de mais de 25 mulheres.

O New York Times revela que o entertainer admitiu ter usado a sua influência profissional para tentar ter sexo com algumas mulheres, e que pagou para manter casos extraconjugais em segredo. Deu um sedativo a uma jovem – será que ela tinha capacidade para consentir a relação sexual subsequente? “Não sei”, respondeu.

Foram quatro dias de interrogatório no âmbito do processo movido por Andrea Constand, ex-basquetebolista e uma das responsáveis pela equipa de basquetebol feminino da Universidade de Temple, que diz ter sido violada por Cosby em sua casa, em Filadélfia. O caso foi resolvido por acordo, que envolveu uma cláusula de confidencialidade e outros alegados crimes já terão prescrito.

Mas o diário nova-iorquino, que em 2014 escrevera sobre partes do mesmo processo em que o entertainer admitia ter negociado com o National Enquirer para que o tablóide não publicasse uma entrevista com uma das suas alegadas vítimas (os media americanos foram escrevendo sobre vários dos casos na altura), acabou agora por aceder ao depoimento, mil páginas resultantes do interrogatório, disponíveis através de um serviço de transcrição e recolha de prova.

No testemunho, Cosby mostra-se “alguém que usava uma combinação de fama, aparente preocupação e poderosos sedativos na busca de jovens mulheres”, como resume o jornal e se lê nos excertos do testemunho que o diário disponibiliza online e que foi recolhido num hotel em Filadélfia, e em algumas vezes na presença de Constand.

Nas muitas horas de interrogatório, Cosby descreve detalhadamente encontros sexuais com jovens – recordando o prazer que lhe foi dado por uma modelo de 19 anos no seu sofá, confirmando o uso que fazia de comprimidos sedativos “da mesma forma que alguém podia dizer ‘bebe um copo’”, negando ter dado algo mais forte do que três anti-histamínicos a Constand num jantar em que partilharam “um momento sexual”. E diz ser “um leitor bastante bom de pessoas e suas emoções nestas coisas românticas sexuais”, frisando que tudo foi consensual.

Os abusos de que Constand, na altura com 30 anos, se queixa terão acontecido nesse jantar em 2004. Cosby, casado desde 1964, tinha então 66 anos e diz que estavam a “brincar ao sexo". "A brincar, acariciarmo-nos, estamos a brincar”, acrescenta.

A jovem, que discutia a sua carreira no desporto com Cosby, relata uma outra realidade, em que lhe foram dados comprimidos que ele descreveu como “naturais” para relaxar. Sentiu-se mal e semiconsciente, enquanto ele a tocava e a obrigava a tocá-lo nos genitais. Reforçando que se tratou de um acto consentido, Bill Cosby pediu a Andrea Constand ao telefone, meses depois e já com a jovem a viver no Canadá: “Fala à tua mãe do orgasmo" isto depois de ter sido confrontado pela mãe da alegada vítima. Mais tarde, perante as lágrimas de Constand durante o depoimento, Cosby repetiu que ela era “uma mentirosa”.

Constand foi a primeira a acusar Cosby num tribunal cível, depois de ter tentado uma acusação criminal sem sucesso. Treze outras queixosas testemunharam no processo de Constand, relatando outros alegados abusos. Há duas semanas, parte do testemunho de Cosby foi revelada após um pedido judicial da agência Associated Press. Dela extraiu-se que o comediante confirmara que obteve sedativos (de nome comercial Quaaludes, usados como droga recreativa há algumas décadas) com o objectivo de os dar a mulheres com quem queria ter relações sexuais. Precisou um caso em que tal aconteceu e que os dera ainda a "outras pessoas".

Segundo o New York Times, Cosby confirma que em 1976 deu Quaaludes a Therese Serignese, de 19 anos. Questionado pela advogada de Constand, Dolores Troiani, sobre se ela estaria em condições de assentir sexo consensual depois de lhe ter dado o fármaco, Cosby respondeu: “Não sei”. O actor ofereceria depois dinheiro a Serignese, e explicou tratar-se de uma recompensa por ela ter boas notas. Sobre outra alegada vítima que testemunhou no caso, Beth Ferrier, respondeu que “sim”, que mostrou interesse pela sua carreira e pela morte do seu pai, porque “queria ter contacto sexual com ela”, como lhe perguntou a advogada.

Ferrier é a mesma mulher cuja entrevista ao National Enquirer foi cancelada (o jornalista chegou mesmo a submeter a ex-modelo a um teste de detector de mentiras, que ela passou). A ex-modelo diz ter tido uma relação com o comediante nos anos 1980, que terminou quando um dia acordou depois do que suspeitou ter sido o consumo de drogas ocultas no seu café – que fora dado por Cosby. Estava num carro e havia indícios de actividade sexual enquanto estava inconsciente. “As minhas roupas estavam uma desgraça, o soutien desapertado”, disse ao Philadelphia Daily News em 2005.

O humorista, que se lançou no circuito stand-up na década de 1960, ficou mundialmente conhecido com a série homónima Cosby Show (1984-92). Era o chefe da família Huxtable, um patriarca televisivo cuja rectidão bonacheirona se transferiu para o Bill Cosby da esfera pública, a estrela negra de sucesso defensora de valores tradicionais criticando um jovem Eddie Murphy por usar palavrões no seu número de comédia, ou invectivando os jovens afro-americanos a melhorarem a sua imagem, por exemplo.

Das poucas vezes em que aceitou falar do caso, Bill Cosby negou as acusações de mulheres que, desde a década de 1960, dizem ter sido molestadas sexualmente pelo humorista – em muitos desses relatos é mencionado o uso de drogas. Nunca foi formalmente acusado de qualquer crime e continuou a dar espectáculos no final de 2014, mas viu um projecto com o Netflix e outro com a NBC cancelados.

Bill Cosby mantém o silêncio perante as revelações e acusações que gotejam, mas simultaneamente regressa a sua voz do passado, uma e outra vez a corroer a sua versão dos acontecimentos e a sua moral. Isto acontece numa altura em que até o Presidente dos Estados Unidos se viu confrontado com o caso, quando na semana passada reagiu à petição a exigir que seja retirada a Cosby a Medalha da Liberdade, a mais elevada distinção dada a um civil nos EUA, atribuída em 2002.

Em conferência de imprensa, Obama recusou comentar casos específicos, esclarecendo que “não há precedente para revogar uma medalha”, nem “mecanismos” para o fazer. “Direi isto – se se der uma droga a uma mulher, ou a um homem, sem o seu conhecimento e depois se tiver sexo com essa pessoa sem consentimento, isso é violação e neste país, em qualquer país civilizado, não deve haver tolerância para a violação”.