Editorial

Os três poderes e o impasse brasileiro

O Brasil não passa hoje por uma crise política, mas por uma crise institucional

É um momento sui generis da História do Brasil. Pela primeira vez, elementos que fazem parte ou estão ligados aos três poderes – o executivo, o legislativo e o judicial – estão, ao mesmo tempo, sob suspeição: o PT, partido do Governo de Dilma Rousseff; o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, do PMDB, até esta semana o principal partido aliado do Governo, e o Tribunal de Contas da União – instituição que tem que decidir se há desvio nas contas do Governo – cujo presidente tem um filho acusado de tráfico de influências no escândalo da Petrobras.

Para completar, os presidentes das duas maiores empreiteiras do país estão presos há um mês e, pela primeira vez, o nome do ex-Presidente Lula da Silva aparece como pré-réu – não na Operação Lava Jato, mas na investigação por tráfico de influências pela procuradoria do Distrito Federal.

Todos atacam  todos. O PMDB diz que o Governo manobra o Ministério Público. O Governo diz que o Ministério Público é manobrado pela oposição. Dilma Rousseff detém hoje o pior índice de popularidade de um Presidente brasileiro. A inflação sobe. O desemprego aumenta e os investimentos estão paralisados. A Presidente enfrenta a crise económica e os escândalos sucessivos de corrupção do partido, perde o apoio do seu principal aliado no Governo, não tem o consenso dentro do PT, nem o apoio explícito do principal líder político do país, que ainda é Lula. Nos bastidores, em Brasília, todos querem derrubá-la e o que se equaciona nos corredores é se ela será “cassada [alvo de suspensão de mandato] ou renunciada” e como outros beneficiarão desta queda. O PMDB quer o poder, o PSDB quer o poder. Afinal, o que vai sobrar do PT? Vai desaparecer como força política? Lula voltará à Presidência? Há muitas questões em aberto no sétimo mês de um Governo de um país em suspenso, que parece olhar-se pela primeira vez ao espelho e não gosta do que vê.