Editorial

Pequenos e falidos. Cinco meses depois

Novo ministro, novo mandato e uma legitimidade reforçada. É desta que haverá acordo?

Há cinco meses, o académico Yanis Varoufakis era nomeado ministro das Finanças pelo Syriza que tinha acabado de ganhar as eleições. Na primeira entrevista que deu, ao programa Late Night Live, do canal australiano ABC (Varoufakis tem dupla nacionalidade, grega e australiana), o novo ministro das Finanças disse ao que vinha: “Nós não queremos entrar em guerra com ninguém na União Europeia. Nós não fazemos bluff. Não ameaçamos ninguém. Nem sequer queremos negociar… Queremos deliberar em conjunto. Nós não queremos impor as nossas ideias ao resto da Europa. Somos demasiado pequenos, e demasiado falidos, para o fazer”.

Cinco meses volvidos, a Grécia continua pequena e está mais falida do que antes. Os bancos estão encerrados por falta de dinheiro e pelo menos até quarta-feira assim continuarão. E a cortesia do “não fazemos bluff” e “não ameaçamos ninguém” há muito que desapareceu, depois de cinco meses de desgaste e negociações infrutíferas. Ao acusar os parceiros europeus de estarem a fazer “terrorismo à Grécia”, Varoufakis elevou em demasia o nível de hostilidade. Como tal foi sensata a decisão de Alexis Tsipras de fazer sentar à mesa do Eurogrupo, não Varoufakis, o autodenominado "marxista errático", e que fez jus pelo ao epíteto de errático, mas o mais circunspecto Euclides Tsakalotos.

Tsakalotos e Varoufakis têm muito em comum. De mochila às costas e sem gravata, são ambos economistas, académicos e com grande parte da carreira feita no estrangeiro. Ao contrário do “recém-chegado” Varoufakis, Tsakalotos está ligado ao Syriza desde a fundação do partido. E o seu perfil mais discreto fez com que tivesse sido escolhido por Tsipras para conduzir as negociações com a troika. Se destoam em termos de personalidade, em termos de ideologia partilham a mesma visão e a mesma repulsa pela austeridade.

Será este governo mini-remodelado que a partir desta terça-feira vai retomar as negociações com os líderes europeus. Angela Merkel e François Hollande já disseram que "a porta das negociações permanece aberta" e Alexis Tsipras irá entrar por essa porta, não só com um novo ministro das Finanças, mas com uma legitimidade renovada que lhe foi dada por uma esmagadora maioria dos gregos que no Domingo disseram um sonoro ‘não’ à austeridade excessiva.

E na mala leva ainda uma declaração conjunta que foi subscrita por todos os partidos gregos, à excepção dos comunistas e da Aurora Dourada, em que se dá ao governo grego um mandato para negociar em Bruxelas não só um programa de ajustamento com reformas, mas também medidas que possam espevitar o crescimento e baixar o fardo do endividamento. A grande incógnita agora é saber que propostas concretas apresentará a Grécia, e qual será a receptividade que terá em Bruxelas. Com o tempo dramaticamente a escassear, e parafraseando Varoufakis, já não é tempo de negociar, mas sim de “deliberar em conjunto”.