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Voz e Guitarra mostra vitalidade do cancioneiro português em Lisboa

Em duas noites consecutivas, dezenas de artistas apresentam o projecto Voz e Guitarra ao vivo, no encerramento das Festas de Lisboa. Sexta e sábado, 3 e 4 de Julho, às 22h. A entrada é livre.

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Dead Combo e Luísa Sobral, no traço de António Jorge Gonçalves António Jorge Gonçalves

Para encerrar as Festas de Lisboa era difícil encontrar proposta mais variada e, ao mesmo tempo, triunfal. O projecto Voz e Guitarra vai ser apresentado em duas noites consecutivas no Terreiro do Paço (às 22h, com acesso livre), trazendo para o espaço da grande praça lisboeta a experiência consumada no duplo disco editado em 2013 e que envolveu nada menos do que 33 nomes da música popular portuguesa, em versões de temas de várias épocas.

Esse projecto, aliás, nasceu dezasseis antes, no ano anterior à Expo’98, num disco duplo que foi pioneiro entre nós deste conceito: artistas a juntar cantar a canções próprias versões de canções alheias à sua escolha, mas apenas com vozes e guitarras. Em 1997, esse disco duplo juntava nomes como Rui Veloso, Sérgio Godinho, Jorge Palma, Filipa Pais, João Gil, Luís Represas, Pedro Jóia, Nuno Rafael, Flak, Vitorino, Janita, João Afonso, Xana, Né Ladeiras, Zeca Medeiros ou Tim.

Depois, em 2013, quando a euforia já dera lugar à crise, a mesma dupla que idealizou e produziu o projecto (António Miguel Guimarães, que teve a ideia, e Manuel Paulo Felgueiras, o produtor) arriscou um Voz e Guitarra 2, de novo em CD duplo. Na lista estavam Ana Bacalhau, Ana Deus, André Indiana, António Zambujo, Carlos Guerreiro, Carlos Nobre, Dead Combo, Filipe Cunha Monteiro, Gaiteiros de Lisboa, João Pedro Pais, José Peixoto, Júlio Pereira, Luís José Martins, Luísa Sobral, Luís Varatojo, Mafalda Veiga, Márcia, Maria João, Mário Delgado, Marisa Liz, Moz Carrapa, Nancy Vieira, Nuno Prata, Patrícias SA, Pedro Casais, Rui Reininho, Rui Vaz, Samuel Úria, Sara Tavares, Tiago Maia, Tiago Pais Dias e Tim. Do primeiro projecto, só transitaram para o novo disco três nomes (num total de 33): Tim, Moz Carrapa e Mário Delgado. A edição foi acompanhada por um conjunto de ilustrações de António Jorge Gonçalves, que fotografou todos os músicos e desenhou a partir de cada uma das fotografias.

Manuel Paulo, um dos directores artísticos de ambas as edições, recorda o projecto: “A ideia, embora não fosse hermética, era que cada artista fizesse uma canção sua e uma versão. Mas nem sempre isso sucedeu porque, por exemplo, o António Zambujo cantou uma canção do Rui Veloso e outra do Jorge Palma, não cantou nada dele. O mesmo se passa nestes espectáculos ao vivo. E é interessante haver canções mais inesperadas.”

Quanto ao que ficou nos discos, ele encara-o como testemunho gravado do respectivo tempo: “Quer o volume 1 quer o volume 2 acabam por ser quase um cancioneiro do que se fazia na época de cada um deles. Ficaram muitos nomes de fora, num e noutro, porque não podia estar toda a gente.”

Ao vivo, agora, entram vários nomes novos (como David Fonseca, Miguel Araújo ou Gisela João, por exemplo) mas também outros que entraram no disco de 1997. “Os novos nomes que entram agora nos espectáculos ao vivo podiam ter estado no disco. Os espectáculos acabam por ser o corolário daquilo que foi a gravação em estúdio, sendo que ao vivo as canções adquirem outra carga.” E há, além disso, o lado visual. “Essa é, aqui, uma mudança muito grande. O António Jorge Gonçalves vai fazer ilustrações ao vivo e usará também, com certeza, aquelas que fez para o disco. Ele fotografou todos os artistas e depois trabalhou graficamente as fotografias. É um tipo fantástico, tem um bom gosto extraordinário e é realmente uma mais-valia no projecto.”

A adesão dos músicos ao projecto, desde o início foi entusiástica, lembra Manuel Paulo. “E foi entusiástica porque é um desafio. Pegar nas canções e despi-las, apresentá-las muito próximo daquela que foi a sua primeira metamorfose. E vê-se que, quando as canções são boas elas aguentam-se perfeitamente com uma guitarra e uma voz.” Ao ouvir, depois, o resultado final, surpreendeu-se. “Houve várias surpresas. Eu nunca tinha trabalhado, por exemplo, com a Mariza Liz, dos Amor Electro, que fez uma versão absolutamente extraordinária de uma canção que eu por acaso conhecia (Quando o coração chora de amor), popularizada pelo Carlos Guilherme. Também gosto muito da versão que a Luísa Sobral fez de uma canção do Rui Veloso, Pequena dor. Gosto, de um modo, geral, de todas, porque acho que as versões são muito bem conseguidas.” E há outro factor a ter em conta no resultado final: “É interessante ver como malta nova vai buscar canções, não à geração anterior mas a duas gerações acima, canções do Fernando Tordo e do José Mário Branco, em lugar dos Trovante ou do Rui Veloso.”

Fará sentido prolongar o projecto de Voz e Guitarra noutros discos, em anos futuros? Manuel Paulo responde afirmativamente: “Creio que sim. Entre o primeiro e o segundo houve um hiato temporal grande, mas agora talvez não seja preciso esperar tanto tempo. Mas faz sentido, porque quem ouvir o primeiro disco e o segundo tem uma panorâmica bastante interessante do que fazia na época em termos de música pop.” E acrescenta, sublinhando o valor da matéria-prima: “O nosso cancioneiro tem coisas absolutamente fantásticas. Se a ideia da Voz e Guitarra tivesse aparecido nos anos 40 nós íamos tendo ao longo das décadas um mostruário muito interessante da evolução da canção popular”.

A 3 de Julho, os nomes previstos na primeira noite do espectáculo Voz e Guitarra são estes (entre parêntesis indicam-se as canções que deverão tocar e cantar): Tim & Moz Carrapa (Por quem não esqueci e Gritos mudos), Luísa Sobral (Pequena dor e Fora do tempo), David Fonseca (Eu não sei dizer e A gente vai continuar), Mafalda Veiga & Mário Delgado (Cavalo à solta e Imortais), Vitorino & Mário Delgado+ Moz Carrapa (Queda do império e Traz outro amigo também), Moz Carrapa (Imaterial), Kalu & Mário Delgado+Moz Carrapa (Charlatão e Tonto), Samuel Úria (Para ninguém e Chamar a música), Dead Combo (Visões ficções), Márcia & Filipe Cunha Monteiro (Às vezes o amor e Deixa-me ir), Jorge Palma & Mário Delgado+Moz Carrapa (Foi por ela e Essa miúda), Gisela João & Norberto Lobo (Que amor não me engana), Olavo Bilac & Mário Delgado (Fruto proibido e Primeiro beijo).

No sábado, 4 de Julho, o alinhamento (também segundo a lista oficial distribuída à imprensa) é o seguinte: Tim & Moz Carrapa (Gritos mudos e Engrenagem), Sérgio Godinho & Miguel Fevereiro (Acesso bloqueado e Não vás contar que mudei a fechadura), Rita Redshoes & Mário Delgado (Vestido e Não tenho medo da morte), Sara Tavares & Mário Delgado (Problema de expressão e Queda livre), Carlos Nobre & Mário Delgado (Há sempre um mas e Músicas e políticas), Ana Deus & Luis Varatojo (Primeiro fado e Por um triz), Mário Delgado (Dom Quixote), Luís Represas & Mário Delgado+Moz Carrapa (Zorro e Sorriso), João Pedro Pais & Mário Delgado (Lembra-me um sonho lindo e Nada de nada), Miguel Araújo (Dona Laura e No rancho fundo), Ana Bacalhau & Mário Delgado (Estrela da tarde e Sexto andar) e, por fim, António Zambujo & Mário Delgado (Nativa e O meu amor existe).

Para quem queira “visitar” o som e o grafismo do projecto antes dos espectáculos, há alguns vídeos bastante exemplificativos no Youtube. Vejam-se, por exemplo, Visões ficções, com Márcia e os Dead Combo; ou Problema de expressão, de Sara Tavares.

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