Comentário

A solidão de Angela

No caso grego Angela Merkel enfrenta provavelmente a decisão mais dramática da sua vida.

1. Como era inevitável, a decisão sobre a Grécia, seja ela qual for, será tomada na cimeira da zona euro, convocada para a próxima segunda-feira. As decisões políticas cabem aos líderes e, ainda mais, aquelas que podem ditar o futuro da Europa. A palavra decisiva caberá à chanceler alemã.

Angela Merkel enfrenta provavelmente a decisão mais dramática da sua vida. Liderar tem custos por vezes muito altos, como ela própria tem aprendido nos últimos tempos. Como sempre, a chanceler decidirá no último minuto e com o menor custo possível. Seja ele político ou financeiro. Tem dois cenários à sua frente e não pode adiar mais uma escolha. Já deu alguns sinais sobre qual será o da sua preferência. “Ela quer evitar um Grexit quase a qualquer custo”, escreve Nikolaus Blome, jornalista alemão, no site do Politico-Europa. O que a move é diferente do que move o seu ministro das Finanças, Wolfgang Schaueble, que está genuinamente convencido de que o euro ficaria melhor sem a Grécia e que os riscos de um contágio seriam mínimos. Para ela a questão é política e tem a ver com o seu papel na História. Wolfgang Munchau, o colunista do Financial Times, já escreveu noutras ocasiões de grande incerteza que Merkel não gostaria de ficar na História como a chanceler que veio do Leste para acabar com União Europeia. Blome cita um “murmúrio” perfeitamente audível de Merkel há meia dúzia de meses: “A Alemanha seria olhada como tendo destruído a Europa pela terceira vez no espaço de um século”.

2.Dos dois cenários, é a saída que ela mais teme. “Está prisioneira da história alemã”, diz Blome. A diferença é que o apoio que sempre teve na Alemanha à sua política europeia e que foi até agora a sua grande força, desta vez não parece estar garantido. Nos media, nas associações patronais, no seu próprio partido crescem os apoiantes do Grexit. Wolfgang Schaueble tem estado na linha da frente das negociações que decorrem no Eurogrupo e sente o desgaste. Não suporta o vedetismo histriónico do seu homólogo grego. É um sentimento bastante generalizado. Mas não é esta a questão principal. Para os chefes do Tesouro dois mais dois continuam a ser quatro. As contas são diferentes quando se passa ao Conselho Europeu e as decisões são políticas - dois mais dois podem ser cinco. Os líderes europeus sabem como tomar decisões suficientemente ambíguas para encontrar um compromisso sem fechar totalmente a porta a “clarificações” futuras. É neste quadro que a chanceler vai decidir. Há apenas uma regra que deve ser preservada: evitar a capitulação de um dos lados. Merkel não pode desiludir totalmente os alemães, mas está no seu terceiro mandato, prestes a superar a longevidade de Helmut Kohl, e sabe que a decisão que tomar sobre a Grécia se projectará muito para além das próximas eleições. Pode usar algum do capital político que acumulou e está em boa posição para chegar a um acordo. Teve o cuidado que não entrar na guerra das acusações. Nunca disse que “se lhe tinha esgotado a paciência”, a frase mais ouvida nas últimas semanas na boca dos responsáveis europeus. Chega ao Conselho Europeu sem se ter comprometido com nada. Terá apoios à mesa do Conselho mas também alguns críticos. Alexis Tsipras tem de levar alguma coisa consigo de regresso a Atenas, que prove aos gregos que valeu a pena. É este exercício difícil que vai ter de ser feito na próxima segunda-feira. Como escreve o Financial Times num longo editorial a apelar ao bom senso, deixar cair a Grécia no caos seria “um rude golpe para o ideal europeu”.

3. A chanceler quer um acordo e a Grécia precisa de um acordo. É impensável imaginar que o primeiro-ministro grego considere de ânimo leve um default, empurrando os gregos para uma situação ainda mais desumana. É difícil de entender o que o faz esticar a corda nesta contagem decrescente para a hora da verdade. Aposta que Merkel não o deixará cair mas corre o risco de se enganar, como se enganou sobre outros apoios que nunca chegaram. A visita que ontem fez a Vladimir Putin foi um péssimo cartão-de-visita para desanuviar o ambiente e retomar alguma confiança mútua. Para quem o ouviu, parece que não precisa da Europa para nada. Ultrapassou todos os limites. Porquê?

Há coisas em que os gregos têm razão. O que Yanis Varoufakis disse na quinta-feira, em conferência de imprensa depois de mais uma reunião falhada, seria normal se viesse da boca de muitos economistas americanos: faremos as reformas mas precisamos de mais tempo para pôr a economia a crescer. O que lhe falta hoje é credibilidade, que esbanjou nos últimos cinco meses. Berlim também poderia hoje admitir que a receita da troika pode não ter sido a melhor se, cinco anos depois, a Grécia voltou ao ponto de partida. E há ainda outra questão muito simples: se Antonis Samaras fosse ainda o primeiro-ministro, os responsáveis europeus (a começar por Merkel) tratá-lo-iam da mesma maneira? Samaras convocou eleições porque as negociações com a troika estavam num impasse. Também ele se negava a aceitar algumas das receitas mais amargas impostas por Bruxelas. Enganou-se nos cálculos e perdeu. Uma vacina para dissuadir futuros Syrizas? Não chega nem será o melhor caminho. São também os nacionalistas do Norte que ganham terreno que é preciso dissuadir. Basta olhar para a Dinamarca, onde os populistas ficaram acima dos liberais, ou para a Finlândia, onde os Verdadeiros Finlandeses já estão no governo. Aliás, os líderes europeus vão fazer tudo para que uma solução para a Grécia possa ser encontrada sem novo resgate oficial. Seria muito difícil fazê-lo aprovar em muitos parlamentos nacionais.