Morreu Charles Correa, visto como o maior arquitecto da Índia

Foi o autor da Fundação Champalimaud, em Lisboa. Defendia e praticava uma arquitectura que respeitava a relação com o lugar, e socialmente empenhada.

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Charles Correa Daniel Rocha
A Fundação Champalimaud vai lançar um programa pioneiro na área do cancro
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Centro Champalimaud Pedro Cunha
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Casa Tubo em Ahmedabad
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Torre Kanchanjunga, em Bombaim
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Memorial de Mahatma Gandhi

Charles Correa, o maior arquitecto da Índia foi o título da exposição retrospectiva que foi dedicada em 2013, em Londres, pelo Royal Institute of British Architects (RIBA) a este nome fundamental da arquitectura da segunda metade do século XX.

Com esta grande exposição, a prestigiada instituição britânica mostrava na Europa o trabalho de um arquitecto a quem, em 1988, tinha já atribuído a Medalha de Ouro RIBA, e que apresentava como uma personalidade “altamente significante”, tanto para a arquitectura na Índia, mas também a nível global, e cuja obra era a manifestação física do seu país “como nação, da sua modernidade e progresso”.

Charles Correa, que esta terça-feira morreu na sua casa de Bombaim, aos 84 anos, e que tinha longínquas raízes portuguesas, tem o seu nome também ligado ao nosso país através da Fundação Champalimaud, em Lisboa (2008-10), um projecto muito celebrado da última fase da sua obra.

A crítica de arquitectura do PÚBLICO Ana Vaz Milheiro, que na altura da inauguração do também designado Centro de Investigação para o Desconhecido entrevistou o arquitecto indiano, diz que este “é um projecto belíssimo, que manifesta um entendimento muito justo” da integração do edifício na margem do Tejo, e simultaneamente da função para que foi pensado. “É também um projecto de grande humanidade e generosidade, feito a pensar no utente e até mesmo na dimensão da doença – o cancro – para que está vocacionado”, acrescenta, estabelecendo um paralelismo entre o edifício de Charles Correa e aquele que o arquitecto brasileiro Paulo Mendes da Rocha desenhou para acolher o Museu dos Coches. “São dois projectos que manifestam um grande entendimento da paisagem, e que nos podem ajudar a reflectir sobre o papel da arquitectura em lugares como estes”, nota a crítica e investigadora.

Aquando da inauguração da Fundação Champalimaud, e na citada entrevista ao PÚBLICO, Charles Correa explicou como ficou impressionado quando visitou pela primeira vez Belém para conhecer o local onde seria construído o Centro de Investigação para o Desconhecido: "Ouvira falar de Belém e perguntei: 'É o mesmo lugar de onde os descobridores partiram?'; responderam que sim e pensei: 'Então tenho que ir ver esse lugar onde o rio se transforma em oceano'. Quis ter uma boa ideia antes de aceitar o projecto; seria estúpido vir de tão longe e fazer uma coisa vulgar”.

Esta atenção ao lugar, e de entendimento da arquitectura como site specific, é, de resto, uma das marcas da obra de Charles Correa, que na década de 1960, pouco tempo depois de montar o seu atelier em Bombaim, integrou “uma geração de arquitectos que transformou a linguagem moderna internacional em expressões locais”, assinala ainda Ana Vaz Milheiro. “É um arquitecto que vem de um país novo, emergente, e que vinga através da valorização da tradição, dos valores locais”, acrescenta, incluindo o trabalho de Correa no movimento das visões utópicas da arquitectura que privilegiavam o papel das populações, dos moradores, como agentes, também eles, das transformações urbanas – um pouco como viria a acontecer, por exemplo, em Portugal, logo a seguir ao 25 de Abril de 1975, com o Processo SAAL.

Exemplo maior desta faceta da obra de Correa, que também praticou o urbanismo, é o plano para a Nova Bombaim, que nos anos 70 visava estender a cidade para acolher dois milhões de novos habitantes.

Mas Charles Correa – “que foi muito amigo do arquitecto Manuel Vicente (1934-2013), cuja obra se desenvolveu principalmente em Macau”, lembra Milheiro – chegava a essa visão social da arquitectura a partir de uma formação de elite, idêntica à de muitas outras figuras que, a partir de uma grande preparação cultural, se tornaram defensores das culturas ancestrais dos seus países.

Formação nos Estados Unidos

Nascido a 1 de Setembro de 1930 em Secunderabad, Charles Correa estudou em Bombaim, entre o St. Xavier’s College e a Universidade. Viajou depois para os Estados Unidos, onde se formou em Arquitectura na Universidade de Michigan (1953) e depois no MIT - Massachusetts Institute of Technology (1955).

De regresso ao seu país natal, estabelece o seu escritório em Bombaim, em 1958, pouco mais de uma década passada sobre a independência da Índia. A primeira obra a chamar a atenção foi, quando tinha apenas 28 anos, um monumento em Nova Deli a celebrar precisamente o herói da independência, Mahatma Gandhi.

Logo a seguir, no início da década de 60, projecta a que ficou conhecida como a “casa tubo”, em Ahmedabad, que ficou como modelo de casa para ser usada de uma maneira nómada, e ficou como exemplo de arquitectura sustentável. Ou seja, um edifício com disposições de acordo com as horas: um espaço para de manhã, outro para a tarde, outro para a noite. A Torre Kanchanjunga, em Bombaim, marcada pelos seus apartamentos com amplas varandas a permitir a ventilação, é também um exemplo desta visão de um design contemporâneo sustentável.

O Hotel da Cidade de Goa, o Museu Nacional de Artesanato e o Instituto Britânico, ambos em Nova Deli, ou a Missão Permanente da Índia na ONU, em Nova Iorque, são obras de referência na sua carreira. Além-fronteiras, projectou também o Ismaili Centre (2000), em Toronto, Canadá, e o Instituto de Investigação Cerebral do MIT, em Boston (2005), projecto que certamente pesou na decisão da Fundação Champalimaud de o convidar a projectar o novo Centro de Investigação para o Desconhecido, em Lisboa.

Ana Vaz Milheiro lembra que a escolha de Charles Correa foi então “muito bem acolhida pelo meio arquitectónico em Portugal”, que reconhecia nele não só a competência mas também uma sensibilidade muito especial para este tipo de equipamentos.


Aliás, já em 2005, Charles Correa recebera o grau de doutor honoris causa pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa. Uma distinção que já havia recebido na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, além de vários prémios importantes, como a já citada medalha do RIBA, o Prémio da União Internacional de Arquitectos e o Prémio Aga Khan de Arquitectura.

Quando, nessa altura, esteve em Lisboa para receber o honoris causa, Correa disse ao PÚBLICO como a habitação era parte importante no seu trabalho. "Hoje fala-se pouco dela, ao contrário do princípio do século XX. Ela não é só importante por razões sociais e económicas, um problema óbvio na Índia, mas também para treinar a cabeça de um arquitecto. Ao contrário de um museu ou de um aeroporto, que podem funcionar sem estar em ligação com o sítio onde estão inseridos, a habitação é como a palavra na frase, é como a sintaxe, tem de relacionar-se com várias coisas. Tem de estar em ligação com a cultura, o clima, os materiais, o estilo de vida das pessoas", defendeu.

Reagindo agora ao seu desaparecimento, o presidente do Instituto Indiano de Arquitectos, Prakash Deshmukh, disse à AFP: “Charles Correa foi a inspiração para a infusão da modernidade na arquitectura indiana depois de 1947. Perdemos um inspirador de tendências e uma amada figura paternal”. Já o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, lamentou no Twitter a morte de Correa, para quem a sua arquitectura “era amplamente acarinha”. As suas obras “reflectiam o seu brilho, o seu zelo inovador e um sentido estético maravilhoso”. Também no Twitter, o escritor indiano Amitav Ghosh lembrou Charles Correa como “um dos maiores arquitectos da Índia moderna e um grande amigo”.