O tempo de perder o medo

Meia brasileira, meia portuguesa – “eu sou esse híbrido” – Andréa Zamorano já não é só dona da Hamburgueria Gourmet. É escritora. Acaba de lançar o seu primeiro romance, A Casa das Rosas, situado no Brasil dos anos 80. Uma história sobre um pai e uma filha. E sobre o fim do medo.

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Andréa Zamorano conta que foi muitas vezes que, no meio dos hambúrgueres que saíam da cozinha (dois deles têm nome de escritores, o Murakami e o Nemésio), se sentou e escreveu RUI GAUDÊNCIO

“Vida miserável” era coisa que Andréa Zamorano sabia que não queria voltar a ter. Já tinha tido uma infância com dificuldades no Rio de Janeiro e “não queria repetir”. Por isso foi adiando o projecto de ser escritora. “Achava que uma carreira na escrita leva anos para funcionar, se é que funciona. Viver da escrita exige muita coragem.” E depois havia outro problema. “Tinha medo de falhar”.

A vontade de escrever estava nela há muito tempo. Foi por isso que aos 17 anos deixou o Brasil e veio para Portugal estudar Letras. “Sempre achei que antes de ser escritora tinha que ser leitora e ler o máximo que conseguisse do universo.” Mas quanto mais lia mais o medo crescia. “É muito assustador, você começa a ler Gabriel Garcia Marques, Jorge Amado, Fernando Pessoa, e pensa ‘quem sou eu, esta criatura que ousou sonhar que um dia seria capaz de escrever?’”.

Mas se estamos aqui é porque Andréa venceu todos os medos e acaba de lançar o seu primeiro livro, A Casa das Rosas (Quetzal). Estamos sentadas numa mesa do restaurante de que é proprietária, juntamente com o marido, a Hamburgueria Gourmet – Café do Rio, entre o Terreiro do Paço e o Campo das Cebolas, em Lisboa. E Andréa conta que foi muitas vezes numa destas mesas que, no meio dos hambúrgueres que saíam da cozinha (dois deles têm nome de escritores, o Murakami e o Nemésio), se sentou e escreveu.

Os frequentadores do restaurante talvez se lembrem de, há uns quatro anos, verem Andréa, sempre de riso aberto e gestos largos de boa anfitriã, subitamente sossegadinha, mergulhada dentro da sua história. E tudo porque uma tragédia a fez decidir que era tempo de perder o medo.

“Quando abrimos o nosso primeiro restaurante tinha um cliente carioca que ia lá almoçar praticamente todos os dias. Para mim era um prazer recebê-lo e me acabava de rir com ele.” O cliente, o arquitecto Rómulo Tavares, regressou ao Brasil, e algum tempo depois Andréa recebeu a notícia: Rómulo, de 33 anos, fora assassinado por assaltantes à porta da sua casa em Ipanema. “Aquilo me destruiu. Aquela morte entrou em mim e eu chorei muitos dias. Então fui como que tomada pelo sentido de imperatividade da vida. Não há nada que te possa parar. Não podes esperar o momento certo porque podes não estar aqui quando o momento certo chegar. Vive o que tens a viver e pronto. Foi aí que eu falei ‘Acabou! Agora sou escritora’”.

Inscreveu-se num curso de escrita e daí a algum tempo estava a trabalhar no seu primeiro romance. O tema surgiu numa conversa, um dia ao jantar, com o marido e a filha mais nova. “Começámos a conversar sobre até onde vai o amor de um pai, quando é que passa a ser uma obsessão, quando é que os limites são transpostos. A partir dessa ideia de uma relação doentia entre um pai e uma filha comecei a construir todo o livro.”

A cidade, onde se perde e se acha

Pai e filha, Virgílio, “figura repulsiva”, homem “intrinsecamente mau”, alguém em quem “a maldade existe antes de tudo”, e Eulália, menina rica, assustada, em vésperas de fazer 18 anos, ganham vida numa casa que existe na realidade, a Casa das Rosas, em São Paulo. “É a única casa do tempo dos barões do café que ainda resiste na Avenida Paulista e é onde hoje funciona o Centro Cultural Haroldo de Campos.” É aí que tudo se passa, uma casa com rosas, sufocante, numa cidade imensa, em ebulição.

“Decidi localizar a história em 1984 que é o ano do fim da ditadura militar no Brasil e do movimento Directas Já pelas eleições directas para presidente, o ano em que a população brasileira sai à rua a clamar pelos seus direitos e a sua liberdade.” Dentro da casa a vida existe como numa bolha, mas a luta dos brasileiros vai acontecer a par da luta de Eulália pela liberdade. Também ela, a menina da Casa das Rosas prestes a chegar à maioridade, vai sair à rua.

Andréa tinha 15 anos nessa altura e viveu com entusiasmo o movimento político. “A minha mãe não me queria deixar ir para a rua, dizia que ia ser presa”, ri. “Foi um período lindo, as pessoas não paravam de se manifestar, perderam o medo da ditadura. Ainda consegui ir a uma manifestação, escondida, claro. Toda essa consciência social, essa transformação… foi maravilhoso. E o meu deus na altura era o Lula, claro, o Che Guevara brasileiro, o cara que ia mudar tudo. Foi um sonho completo. Foi muito bom ter sido revolucionária aos 15 anos.”

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Apesar de ser carioca, a cidade do livro tinha que ser São Paulo, explica. “A filha tem um movimento de errância, de deambulação e para esse movimento funcionar ela tinha que estar numa cidade opressora, gigantesca, uma cidade que só poderia ser São Paulo, Nova Iorque, Tóquio, de uma dimensão avassaladora. A cidade é o lugar onde ela se perde e se acha”. E, entre as três, São Paulo era a que Andréa melhor conhecia (ainda não esteve em Tóquio, embora tenha entre os seus planos escrever um livro passado no Japão).

Mas, mais do que a força da cidade, a história é marcada pela força da natureza. Enquanto os brasileiros perdem os seus medo e Eulália perde o seu medo, a terra manifesta-se como força viva. São Paulo seca e só se libertará pela chuva. Ao mesmo tempo, Eulália faz dois amigos, Juan Garcia Madero, o poeta de Os Detectives Selvagens, livro de Roberto Bolaño (personagem que Bolaño cria no final dos anos 90, mas que aparece a Eulália no Brasil dos anos 80), e um macaco chamado Koi.

Daqui, desta força da terra e desta dimensão mágica que se vai apoderando da história, nasce um livro que tem muito de latino-americano. Foi intencional? “Não posso negar essa força telúrica, mas nunca tinha pensado no livro como sendo latino-americano, embora, claro, estivesse a trabalhar uma forma de realismo mágico, de fantástico. O que o torna interessante é a dúvida: o macaco existe ou não? A mãe [de Eulália, desaparecida quando ela nasce] falou ou não? Está tudo num limiar de hesitação. E essa é a principal característica do realismo mágico, o tratar essa estranheza com muita normalidade.”

Talvez seja isso que explica a atracção de Andréa pelo Japão – não será por acaso que a citação que antecede o segundo capítulo é do escritor japonês Haruki Murakami e diz assim: “No mundo em que vivemos, o que sabemos e o que não sabemos coexistem, num estado de perfeita confusão, fatalmente ligados, como gémeos siameses.”

“Tem essa coisa do Japão como lugar imaginário, que permite muito a mistura do real e do ficcional”. Embora, pensando bem, continua a autora, “essa vivência supra-normal que encontramos na América Latina” seja algo que sempre existiu também em Portugal, pelo menos no interior do país. Ou, se calhar, a perda da magia acontece “quando nos afastamos do interior e nos deslocamos para as cidades”.

Andréa – que vive em Portugal há tantos anos como os que viveu no Brasil – confessa achar “redutora” a ideia de que é uma escritora brasileira. “Reduzir-me a brasileira é cruel para mim. Acho que sou esse híbrido.” Algo que, diz, se reflecte muito na forma como escreve. “Trabalho esse hibridismo linguístico. Como as personagens são brasileiras, quis estabelecer uma fronteira entre a minha voz [na narração] e a delas em discurso directo, usando de um lado a norma portuguesa e do outro a brasileira. Mas acabei não sendo capaz de delimitar essas fronteiras. O discurso directo deles acaba contaminado pela minha voz, e vice-versa. Tudo é contaminação de parte a parte.”

Terminado este primeiro livro, Andréa esperou. “É uma angústia. Você envia o livro e ninguém diz nada.” E, “para não desesperar”, começou a escrever o segundo. Depois chegaram as boas notícias. O editor Francisco José Viegas gostou, a Quetzal decidiu publicar, as pessoas começaram a ler e a gostar. “Estava cheia de medo de fazer as coisas mal, de não ser aceite, de usar uma figura do Roberto Bolaño. Fiz com medo, mas pulei do precipício.”

Do segundo livro ainda diz pouco. “Estou num impasse. Quero fazer uma coisa em que as pessoas me reconheçam mas não quero repetir fórmulas”. Para já, sabemos uma coisa: “É também um livro que tem a força da natureza, uma força tremenda, tremenda.” Será Andréa Zamorano. Sem medo.