Neste parque, que já foi uma ETAR, pode acontecer quase tudo

Parque Ambiental do Buçaquinho, entre Esmoriz e Cortegaça, em Ovar, recebe encontro literário para crianças e famílias. B Fachada canta em Agosto.

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A 25 de Abril de 2013, a área de 24 hectares do Buçaquinho renasceu como parque ambiental Adriano Miranda
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Poderia ser mais um espaço verde, propício a passeios, a estender a toalha, a brincadeiras no parque infantil com baloiços e escorregas, ao jogging. Também é. Mas não é só. Este verde mexe e treme debaixo dos pés. Paulo Furtado, The Legendary Tiger Man, já ali esteve na pele de DJ. Capicua foi ali cantar antes do seu boom. JP Simões também por ali passou.

Tudo mudou a 25 de Abril de 2013. A história de uma Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR), que cumprira a sua missão entre 1993 e 2005, ficava para trás no tempo e uma área de 24 hectares renascia como um parque ambiental com seis lagoas que teimavam em esquecer a sua anterior função. O cheiro de ervas aromáticas invadiu o ar, a biodiversidade preparou-se para ser melhor apreciada e uma cafetaria com esplanada de chão de madeira, com bolos caseiros, regueifas e caladinhos, abria as portas. Dois anos depois, a dinâmica salta à vista num currículo de respeito para pouco tempo de actividade. Fauna e flora estão a ser registadas, o centro de educação ambiental explica a miúdos e graúdos o quão a natureza é generosa, as lagoas têm novos inquilinos, a cafetaria continua a mostrar por que razão não é apenas um sítio para beber café com um cartaz cultural que colocou o parque no mapa do que acontece em Ovar.

Este sábado, às 16h30, 50 meninos e meninas do Coro Infantil da Universidade de Lisboa abrem a primeira edição de Gigantes Invisíveis – Encontro Literário Para os Mais Novos Leitores com Trava Lengas e Lengas Línguas no parque do Buçaquinho. Tudo pode acontecer à volta do livro. “A ideia não é ter uma feira do livro, mas que o livro seja o princípio e o fim do jogo”, adianta Pedro Saraiva, da Imaginar do Gigante que organiza este momento. Até dia 14, há várias artes à volta da literatura. Teatro, música, dança. “O livro é o mote e a ideia é ser transversal às diferentes artes, que haja partilha em família”, acrescenta Elsa Brandão da Imaginar do Gigante, estrutura que tem dois ano e meio e que uma vez por mês estende uma manta no Buçaquinho para as Leituras no Parque. Gigantes Invisíveis traz pequenas editoras ao parque, oficinas de ilustração e de escrita, teatro de formas de movimento, momentos para escolas. Este sábado, a escritora Manuela Leitão está à conversa às 17h30. Na terça-feira, debate-se A História da Criança em Portugal com Maria João Martins, num encontro moderado por José Manuel Couto, com um interlúdio musical a cargo da harpista Catarina Malcata Rebelo. Na quarta, há livros no ar às 16h30 e Gatafunhar, ou seja, uma oficina de escrita e teatro. No último dia, 14, os poemas voam com o lançamento de papagaios e há mais oficinas e leituras. Todas as actividades são gratuitas.

O parque é frequentado por pessoas que habitualmente não iam a Esmoriz ou a Cortegaça. Os três irmãos que gerem a cafetaria perceberam que havia um público interessante e que fazia sentido desenharem um programa cultural. E ele surgiu. Em Agosto de 2014, Capicua, JP Simões, Peixe, Birds Are Indie, Ana Deus e Alexandre Soares, Paulo Furtado como DJ, estiveram na cafetaria. O próximo Sons do Parque está fechado. Coelho Radioactivo a 1 de Agosto, Golden Slumbers a 8, Long Way to Alaska a 15, Ana Cláudia a 22 e B Fachada a 29. Também ali foram feitas conferências que discutiram a erosão costeira, o pão-de-ló de Ovar, a tanoaria, mais exposições de fotografia, teatro infantil, saídas de campo para perceber como os biólogos trabalham, e ainda o Click!, uma mostra de cinema de animação. Os três irmãos da Cafetaria não tiveram tempo para respirar antes da abertura. Em três semanas, trataram de tudo para a 25 de Abril de 2013 abrirem as portas. Abriram-nas de peito aberto e sem planos a longo prazo. Mas havia uma certeza, uma convicção. “A casa não é só para tirar cafés, é mais do que isso, tem de ser mais do que uma cafetaria”. “É um local de encontro e de partilha de ideias e de descoberta de coisas novas”. E de gente de várias partes, de Espinho, Gaia, Oliveira de Azeméis.

Alberto Castelo, produtor cultural, é frequentador assíduo do parque. Está satisfeito com o que lá acontece. Antes da abertura estava expectante. “É tentador ter um espaço e ceder a uma política comercial”. Percebeu que essa política é muito particular, não há batatas fritas ou pastilhas elásticas à venda, a carta é cuidada. Mesmo com a afluência de tanta gente sobretudo ao fim-de-semana. Gosta do que vê à volta. Do espaço e do que lhe entra pelos ouvidos. “Identifico-me com a selecção musical”. E a componente cultural, para quem percebe da arte, merece-lhe elogios. “As escolhas são cuidadas e são sempre surpresas agradáveis”.

Esquilos, raposas e cravo do mar
Inês Vaz tem binóculos e máquina fotográfica prontos a entrar em acção. Está a terminar o curso de Biologia na Universidade de Aveiro e participa no levantamento das aves que moram no parque do Buçaquinho. Naquele fim de tarde, a sua máquina há-de disparar várias vezes. “Há aqui várias espécies vulneráveis ou em vias de extinção”, revela sem adiantar nomes. Um problema, avisa, é não deixar que as plantas invasoras, sobretudo as acácias, tomem conta do que não devem. Inês não tem apenas olhos para as aves. “Este parque é bastante bonito, é um bom sítio para passear”.

Dos canteiros das ervas aromáticas há odores que não passam despercebidos. Anis, alecrim, malva, manjerona, cravo do mar, óregãos flor do tabaco, tomilho, camarinhas mostram os seus talentos. E, por ali, já se viu uma gineta, uma espécie de gato com rabo aos anéis brancos e pretos, um tritão-marmorado, um picapau malhado grande, raposas, texugos, esquilos.

A educação ambiental espreguiça-se para vários lados. A Câmara de Ovar não abre mão dessa componente e entregou o levantamento da fauna e flora do parque, e também da barrinha de Esmoriz, à Universidade de Aveiro e à Universidade do Porto. E o Centro de Educação Ambiental do Buçaquinho, edifício de rés-do-chão, promove várias iniciativas e já envolveu mais de 2.000 crianças do pré-escolar e do 1.º ciclo em actividades. “O parque é um sucesso. É um dos principais cartões de visita do município de Ovar, atrai muita gente e dinamiza a nossa economia local”, refere Salvador Malheiro, presidente da Câmara de Ovar. A costela ambiental é, sublinha, “o pilar fundamental” dos 24 hectares. A afirmação dessa vertente é, portanto, clara. Mas muitas outras coisas acontecem. “Além da questão ambiental, tem um programa cultural diferente dos outros e onde se nota a qualidade das propostas”. A estratégia de descentralização das iniciativas culturais também passa por aqui. Salvador Malheiro salienta o envolvimento da Cafetaria e das juntas de freguesia de Esmoriz e de Cortegaça que não se acomodam e sugerem iniciativas. E sabe que este parque é uma referência de nível elevado que é preciso manter.