Crítica

Os amanhãs que cantam baixinho

Entre o produto corporativo e o elogio do humano, Tomorrowland é uma aventura spielberguiana à qual falta o rasgo de génio.

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Ainda não é desta que Brad Bird o consegue replicar num filme de “acção real” DR

O futuro já não é o que foi em tempos — o próprio cinema “de grande público” mudou (e não necessariamente para melhor).

 
Tomorrowland congrega na sua equipa um sem-número de brilhantes talentos da “nova geração” de entertainers hollywoodianos para tentar recuperar uma ideia: a do “maravilhoso” que se foi perdendo com a progressiva submissão ao poder do super-herói. Aos comandos desta viagem a um universo paralelo que parece cumprir todos os sonhos perfeitos do pós-Segunda Guerra Mundial, encontramos Brad Bird, um dos animadores da Pixar (autor de Os Incríveis e de Ratatui), e Damon Lindelof, cúmplice regular de J. J. Abrams desde os tempos de Lost. E, na história de uma adolescente respingona e rebelde (excelente Britt Robertson) que um pin “mágico” arrasta para uma aventura “maravilhosa” em busca de uma cidade utópica, é todo o Spielberg vintage — digamos, dos Encontros Imediatos de Terceiro Grau até ao Parque Jurássico — que se convoca abertamente. Só isso já chegaria para prestar atenção a Tomorrowland que, ainda por cima, desenha na sua utopia futurista dos amanhãs que cantam uma vontade de combater a passividade e o negativismo dos tempos que correm, de erguer o estandarte da imaginação e da energia. Nesse aspecto, aliás, também não andamos longe do Interstellar de Christopher Nolan, que também fazia da estratégia a longo prazo o centro da sua história, mesmo que de modo bem mais sisudo. A questão, em suma, é: como salvar o mundo de si próprio?

A resposta que Bird e Lindelof dão, no entanto, está longe de ser cabal ou sequer conseguida. Assumindo-se como filme de família na tradição Disney, Tomorrowland é um bicho ambicioso e esquizofrénico, que arranca da grelha de partida a todo o gás mas prova não ter motor para aguentar a corrida. Começa como uma aventura juvenil a meio caminho entre E.T. e o seu discípulo directo Super 8, com uma série de piscadelas de olho retro-futuristas e steampunk feitas com evidente paixão de cromo obsessivo. E afunda-se progressivamente num entretenimento sincero mas laborioso onde a espectacularidade começa a parecer mais “areia para os olhos” do que parte integrante do tecido do filme — é incompreensível que um cineasta oriundo da animação, onde a narrativa é trabalhada à exaustão, deixe tanta ponta solta e tanto buraco no argumento. Tomorrowland começa às tantas a parecer uma enorme campanha de auto-promoção para as atracções dos parques Disney que hão-de vir, mais do que um filme.

Isso não invalida que se sinta aqui uma enorme sinceridade na sua invocação do poder da imaginação e do optimismo, na sua vontade de fugir ao esquema banal do blockbuster de efeitos especiais. É essa esquizofrenia contraditória entre o produto capitalista corporativo e o elogio do espírito humano, amplificada pelo genuíno engenho visual que Bird e a sua equipa tiram regularmente da cartola, que torna Tomorrowland interessante, mesmo que falhado.