“Há muito carapau para pescar”

Secretário de Estado do Mar diz que produtores de pesca têm de se adaptar à nova realidade.

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Manuel Pinto de Abreu tem os números à mão. O secretário de Estado do Mar abre um pequeno bloco de notas na página certa e recita-os, para corroborar o seu ponto de vista: “Um euro e trinta e oito, um euro e setenta e um, um euro e trinta e três, um euro e cinco…”

São preços médios do quilo de carapau. Há tempos que Pinto de Abreu vem defendendo que os pescadores deviam olhar com mais atenção para o potencial comercial da espécie. Disse-o em Janeiro, na Assembleia da República. E um deputado do PCP desafiou-o a “ir pescar carapau”, para ver se conseguiria viver disso.

O secretário de Estado mantém a sua posição. Os armadores não têm esgotado as quotas de pesca de carapau atribuídas a Portugal pela União Europeia e o país tem vindo a importá-los de Espanha. “Há dois anos importámos 16 mil toneladas, por 19 milhões de euros”, afirma.

Para 2015, a quota portuguesa subiu 64%, para 45 mil toneladas “Temos muito carapau para pescar”, afirma Pinto de Abreu.

Valorizar outras espécies pode ser uma forma de atrair-lhes a atenção dos pescadores, agora que a sardinha está em baixa. Há três anos, a Docapesca desenvolveu uma campanha para promover a cavala – hoje o peixe mais pescado no país. Houve alguns avanços. “A conserva de cavala superou a da sardinha em valor económico”, afirma Pinto de Abreu.

Mas os preços são ainda baixos. Em 2014, a sardinha vendeu-se a oito vezes o valor da cavala. E agora teme-se que, com o aumento da quota de carapau, o preço desta espécie também caia para valores menos inspiradores.

Ambas as espécies ainda estão longe de constituir uma alternativa sólida à sardinha. A preços do ano passado, seria preciso pescar o triplo de cavalas e o dobro de carapaus para igualar o rendimento do sector, caso não se capturasse uma única sardinha.

Ainda assim, Manuel Pinto de Abreu não vê outra alternativa senão uma adaptação da actividade pesqueira a um mar que não é o que era há dez ou vinte anos. “Há de facto um problema com a sardinha. E estamos no limite daquilo que o sector aguenta”, diz o secretário de Estado. “As organizações de produtores têm de reflectir como querem desenvolver a sua actividade”, completa.

As oportunidades de pesca, acrescenta Pinto de Abreu, não vão aumentar. Ou seja, a quantidade de peixes será mais ou menos a mesma. A repartição entre as espécies é que poderá ser diferente, o que obrigará a adaptações. “Temos de olhar para a frente e ver qual é a configuração adequada ao nosso esforço de pesca”, completa.

Estas considerações serão levadas em conta na elaboração de um novo plano de gestão para sardinha, dado que o actual termina o seu prazo de vigência este ano.

“Queremos continuar a pescar sardinha e a comer sardinha em Portugal”, garante Pinto de Abreu, referindo que as restrições deste ano em princípio não vão estragar as festas de Junho. “Andámos a gerir o stock para haver sardinhas nos santos populares. Se ela aparecer…”, diz o secretário de Estado.

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