Barcelona: a activista que o povo elegeu alcadesa

Ada Colau, a nova autarca de Barcelona, recebeu muitas visitas nas duas semanas de campanha. Membros de partidos europeus, como o Syriza grego ou o Bloco de Esquerda (Marisa Matias), académicos e políticos do resto de Espanha. Mas houve visitantes mais especiais do que outros.

Aos 41 anos, Ada Colau será a primeira mulher à frente da capital catalã
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Aos 41 anos, Ada Colau será a primeira mulher à frente da capital catalã Albert Gea/Reuters

José Coy, sindicalista de Múrcia, um dos fundadores do movimento antidespejos, promotor das Marchas da Dignidade que o ano passado inundaram Madrid vindas de todo o país, “tinha de passar” pela capital catalã. “Um dia recebi um telefonema de uma mulher, voz fininha, a perguntar-me como era isso da Plataforma de Afectados pelas Hipotecas [PAH]. Foi há muitos anos, eu estava desempregado, agora até sou membro de uma cooperativa”, brincou quando pediu a palavra num comício de Ada Colau, no bairro de Poble Sec.

“É uma grande mulher, uma mulher do povo. E precisamos de eleger homens e mulheres populares”, disse Coy ao PÚBLICO. “Não podia deixar de vir dar-lhe o meu apoio.” Quando falou aos militantes da candidatura Barcelona En Comú, Coy terminou com um desejo. “Agora que vais ser alcadesa só espero que nos continuemos a ver”, disse a Colau. Depois, os dois deram um longo abraço.

Ada Colau tem 41 anos, nasceu em Barcelona e aqui vive com o marido, o economista da PAH Adrià Alemany, e o filho de quatro anos. Há uma semana, depois do abraço a Coy, dizia querer governar, mas ainda não acreditava que seria eleita autarca da sua cidade. Foi, e é, a primeira mulher que vai ocupar o cargo.

Estudou Filosofia, mas nunca acabou o curso, envolvendo-se nas lutas antiglobalização e no movimento Ocupa. Em 2006, entrou no Movimento por uma casa digna em Espanha e em 2009 foi fundadora da PAH de Barcelona, uma das primeiras do país. Há uma década que faz da luta pelo direito à habitação a sua principal ocupação. Para além da PAH, de que foi porta-voz até Maio de 2014, trabalhava como responsável pela área da Habitação no Observatório de Direitos Económicos, Sociais e Culturais.

Os habitantes de Barcelona habituaram-se a vê-la com a T-shirt verde do STOP Desahucios, a campanha que nasceu em 2010 para impedir despejos através de acções de desobediência civil. Chegou a ser presa num protesto à porta do Banco Popular – nas redes sociais, partilha-se agora uma fotografia em que um polícia a tenta obrigar a levantar-se do chão com a legenda: “Senhora alcadesa, precisa de ajuda?”

Os despejos são a face mais brutal da crise em Espanha – só em 2014, houve 68 mil no país, a maioria de famílias obrigadas a sair da sua primeira e única habitação – e Barcelona “tem o recorde”, como lembrou Colau. A PAH consegue impedir as primeiras e as segundas tentativas, com gente que vem de longe e de perto para se solidarizar com os despejados. Enquanto isso, vai tentando negociar com as entidades bancárias, quando estas estão dispostas a conversar.

A PAH fez mais do que isso. A Lei das Hipotecas que vigora em Espanha é muito antiga e contrária à legislação europeia e à própria Constituição do país. Para tentar obrigar o Congresso a fazer uma nova lei, a PAH recolheu mais de 1,4 milhões de assinaturas – para levar a debate uma iniciativa de legislação popular (ILP) são precisas 500 mil. Foi Colau que entregou a iniciativa da PAH aos deputados em Madrid. Estes foram obrigados a debatê-la, mas o Partido Popular, no poder, usou a sua maioria absoluta para a esvaziar de conteúdo. Coube a Colau aparecer aos media a dizer que a PAH se desvinculava da lei que o Parlamento acabou por aprovar – afinal, não chegava mobilizar milhões, era preciso entrar nas instituições.

Não estar sozinho

A ILP é de 2013, tal como a decisão do Tribunal de Justiça da UE a considerar a lei das hipotecas espanhola contrária ao direito europeu e a incentivar os juízes a recusarem aplicá-la. Foi por essa altura que os ministros do PP deixaram de ignorar Colau e passaram a descrevê-la como “criminosa”, “comunista”, “vermelha”, “arruaceira”. Ela percebeu que aguentava o embate. Ajudava não estar sozinha. Tinha o apoio de um movimento que se tornou gigante, que não impediu gente de ficar sem casa, mas que permitiu que ninguém fosse despejado sem ter pessoas à sua porta, a oferecer ajuda e um ombro, a dizer a cada um: “Não estás sozinho.”

“Não estão sozinhos. A culpa não é vossa”, dizia Colau a quem aparecia nas assembleias semanais da PAH, a partir de 2012 no rés-do-chão no n.º 95 da Rua Enamorats, quando a plataforma passou a dispor de uma sede. Quem vinha chegava nervoso e demorava a ganhar coragem para falar. Depois ouvia os outros e ganhava ânimo.

Colau diz que cresceu com a PAH e com a sensação de poder que esta deu a pessoas que não tinham nada. Primeiro, perde-se o emprego, depois corta-se em tudo, mesmo na comida, só depois se deixa de pagar ao banco. Foram estas pessoas que votaram em Colau e fizeram da sua candidatura, apoiada por grupos de cidadãos e pelos partidos Podemos, Iniciativa e Ecologistas, a mais votada no domingo.

Colau venceu em seis dos dez distritos (que integram 73 bairros) em que a cidade se divide. Em Nou Barris, por exemplo, onde há dias com 16 despejos e a esperança de vida é de menos três anos do que em Las Corts; onde o rendimento per capita é de 10.500 euros anuais, três vezes menos do que os 35 mil de Sant Gervasi, o maior distrito da cidade, junto ao Passeio da Gràcia.

Xavier Trias, até agora autarca da cidade, membro da Convergência e União (nacionalistas de direita, no poder na Catalunha) comentou assim a vitória de Colau: “Vejo-a como uma senhora muito mandona, por isso imagino-a a mandar.”

Os despejos serão naturalmente uma das prioridades da nova alcadesa, que quer multar os bancos com casas vazias que se recusem a arrendá-las a preços razoáveis, mas o “grande desafio”, diz, é o “modelo de cidade”. Sustentável, mais igualitário.

Para isso, a Barcelona En Comú tem um programa que implica acabar com a “pobreza energética”, rever privatizações (como as da Saúde) e “acabar com os privilégios”, o que tanto significa que nenhum funcionário do município ganhará mais de 2200 euros ou terá viatura de serviço, como que a autarquia deixará de assinar contratos com empresas que não cumprem a lei laboral, a maior parte delas multinacionais. Também quer mais creches, reforçar as cantinas escolares e abrir mais vagas públicas nas escolas e nos ATL.

“Fácil?” “Nem pensar”, diz Colau. “Mas exequível, com a participação de todos.”