Eléctrico só para turistas no Príncipe Real motiva protestos

Junta de Freguesia da Misericórdia está contra criação de um circuito que “em nada beneficia os residentes” daquela zona de Lisboa. Associações defendem que o serviço seja alargado e que se recupere o eléctrico 24.

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Pedro Cunha/Arquivo

Depois de 20 anos desactivada, a linha do eléctrico que percorre a Rua da Misericórdia em direcção ao Rato, passando pela Praça do Príncipe Real, vai voltar a funcionar mas…só para turistas. O circuito Chiado Tram Tour, criado pela Carristur, empresa de turismo da transportadora lisboeta Carris, vai ser inaugurado na quinta-feira mas as vozes de protesto já se fizeram ouvir.

Os pormenores sobre o circuito, como o percurso e o preço do bilhete, só serão revelados na viagem inaugural, marcada para esta quinta-feira de manhã, na qual estará presente o presidente do conselho de administração da Transportes de Lisboa (que junta a Carris e o Metro de Lisboa) e da Carristur, Rui Loureiro. Mas é previsível que a carreira inicie no Largo de Camões, no Chiado, seguindo depois pela Rua de São Pedro de Alcântara, Rua Dom Pedro V e Rua da Escola Politécnica, passando no Príncipe Real e indo eventualmente até ao Rato.

Porém, a ideia não agrada à presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia, Carla Madeira. Num comunicado publicado na página de Facebook da junta, a autarca manifesta-se contra a activação deste serviço turístico e lamenta não ter sido contactada para emitir um parecer sobre o assunto.

"A instalação deste serviço, que em nada beneficia os residentes, contrariamente ao que aconteceria se fosse reactivado nesta linha o elétrico 24, significou a eliminação de inúmeros lugares de estacionamento na Rua da Misericórdia", lê-se na nota. Nos últimos dias, esta rua foi alvo de pinturas no alcatrão e recebeu pilaretes que impedem o estacionamento de veículos, facilitando assim a passagem do eléctrico. "Esta situação é de lamentar numa freguesia com grande e conhecido défice de estacionamento", acrescenta a junta.

Por seu lado, a Plataforma Eléctrico 24, que inclui representantes de várias associações (Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados, Associação de Moradores do Bairro Alto, Associação Lisboa Verde, Blog Menos Um Carro, Comissão de Moradores do Bairro Azul, Eficiência Energética, Fórum Cidadania Lx, Grupo de Amigos do Príncipe Real, Liga dos Amigos do Jardim Botânico, MUBI e Quercus Lisboa), acredita que a criação deste circuito turístico será "o primeiro passo para a reactivação da linha 24". Mas lamenta que vá ser utilizada apenas parte do troço antes feito pelo 24, em vez de ser recuperada na totalidade para um serviço regular de transporte público. "O mero e exclusivo serviço turístico retira valor à marca", considera, num comunicado divulgado nesta quarta-feira.

"A carreira do eléctrico 24 reúne todas as condições para se tornar um novo ícone dos eléctricos da capital, desde que seja devidamente acarinhada e publicitada pela CML, pela Carris, pelo comércio local e pelo Turismo de Lisboa", escrevem na nota.

O 24, que fazia a ligação entre Cais do Sodré e Campolide, começou a circular em 1905 e foi suspenso provisoriamente em 1995, para permitir a construção de um parque de estacionamento subterrâneo em Campolide. Quando estas obras terminaram, a construção da estação de metro no Rato e o reperfilamento do largo empurraram parte dos carris para debaixo de um passeio. Segundo a Plataforma Eléctrico 24, existe um protocolo assinado em 1997 entre a Câmara de Lisboa e a Carris com vista à reactivação do eléctrico. Mas isso nunca aconteceu.

Actualmente, o eixo compreendido entre as ruas do Alecrim, da Misericórdia e da Escola Politécnica é servido pela carreira 758, "que além de ser poluente e não cumprir horários, não tem conseguido dar resposta ao nível intenso de procura pelos passageiros", considera a Plataforma, lembrando que a zona é muito movimentada e tem poucas opções de estacionamento.

Em Setembro do ano passado, a Carris disse ao PÚBLICO que a reactivação da linha do 24 "não é uma prioridade", precisamente por existir já um autocarro a servir aquela zona. "Contudo, trata-se de matéria que não depende exclusivamente da Carris, pelas implicações que tem ao nível da necessidade de obras na via-férrea e na rede aérea, disponibilização de veículos, reordenamento viário e de estacionamento", acrescentou, afirmando que não tinha veículos disponíveis e que seria necessário investir na linha, "ao mesmo tempo que a expectável utilização desse serviço seria reduzida".

A Plataforma contrapõe: "As infra-estruturas encontram-se no lugar (catenária e carris), sendo a única linha que não se encontra tapada com alcatrão. Fisicamente, toda a linha de carris ao longo da linha do eléctrico 24 ainda existe, em todo o percurso, pelo que o investimento a fazer com a sua reabertura trará muito mais benefícios do que custos". Os subscritores dizem mesmo que existe um coleccionador privado que se disponibilizou para ceder quatro eléctricos.

Existe uma petição online pela reactivação, que tem já mais de 1500 assinaturas.