Reportagem

Ver um concerto ao colo da mãe e ouvir canções contra os bons costumes

Este domingo o Parque da Cidade encheu-se de crianças e famílias para assistirem à primeira edição do Mini NOS Primavera Sound, uma versão do festival feita à medida dos mais pequenos – mas com vários pontos de contacto com o dos graúdos.

O Mini Primavera é uma festa orientada para os mais pequenos, mas os adultos também estão incluídos
O Mini Primavera é uma festa orientada para os mais pequenos, mas os adultos também estão incluídos Paulo Pimenta
Paulo Pimenta
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Mateus é um bebé Primavera Sound. Vai ao festival desde os sete meses, desde a primeira edição (2012), por casmurrice dos pais. “Durante a tarde e até ao sol se pôr o festival é bastante convidativo para as crianças. E só lhe faz bem começar a ouvir música desde cedo”, diz a mãe, Rita Silva. Ainda não tem idade para ter bandas preferidas mas isso não quer dizer que não reaja ao que está a ouvir. “No ano passado pareceu-me que ele gostou especialmente do concerto dos Midlake”, acrescenta o pai, Alberto Guedes.

Desta vez, Mateus veio ao Parque da Cidade para um festival feito à sua medida (e de muitas outras crianças): o Mini NOS Primavera Sound, uma versão do Primavera para crianças e famílias que decorreu este domingo, a partir das 14h. A entrada foi gratuita e a festa fez-se com concertos de Noiserv, B Fachada e Clã, oficinas, jogos e outras actividades didácticas.

A organização não avançou ao PÚBLICO o número de visitantes desta primeira edição mas era notória a enchente, bem como o trânsito caótico nas estradas de acesso. Às 15h já era possível traçar o perfil do ambiente: famílias deitadas na relva, com todos os habitantes da casa presentes, incluindo o cão; grupos a fazer piqueniques; crianças a correr pelo recinto com penas de índio e coroas de flores na cabeça; miúdos a andar de baloiço e outros a tocar instrumentos; muitos bebés ao colo e às cavalitas; muitas pessoas em longas filas de espera por uma cerveja (situação que valeu várias críticas à organização); visitantes de todas as idades a explorarem o recinto, que foi instalado numa zona diferente da do festival principal (este ano na sua quarta edição, agendada para 4 a 6 de Junho).

Ver bebés, crianças e famílias na edição portuguesa do Primavera Sound, festival nascido e criado em Barcelona, é algo habitual desde o primeiro ano. E é um tipo de público que tem vindo a aderir cada vez mais, assegura Marina Reino, gestora de projecto da NOS. “Fomos percebendo ao longo do tempo que os pais fazem questão de levar as crianças ao festival. No ano passado criámos um espaço para elas e disponibilizámos auscultadores para proteger os ouvidos dos mais pequenos e este ano decidimos criar uma extensão do festival, abrindo o conceito às famílias.”

O Mini NOS Primavera Sound é uma espécie de correspondente do Minimúsica, que acontece há nove anos dentro do festival mãe, em Barcelona. Contudo, não foi feito à imagem deste. “Olhámos para o nosso festival, o NOS Primavera Sound, para construir o Mini Primavera”, garante Reino. “Há vários elementos em comum, como o parque para guardar as bicicletas, o recinto verde, as coroas de flores e os sacos de piquenique.” E apesar de as famílias estarem em maioria não faltou o público habitual do Primavera: rapazes e raparigas entre os 20 e os 35 anos, miúdas de lábios encarnados e vestidos às flores, miúdos de barba, óculos vintage e tatuagens.

Ouvir canções de intervenção e tocar ukelele

O Mini Primavera é uma festa orientada para os mais pequenos, mas os adultos também estão incluídos. O mesmo se pode dizer do disco É Pra Meninos (2010), de B Fachada, que o músico português voltou a recuperar para o concerto deste domingo. É um álbum que não dispensa a lírica subversiva e a ironia bem temperada de Fachada, ensinando aos miúdos algumas verdades da escola da vida, entre elas que a ideia de rectidão e os bons costumes dominantes não são os mais correctos e que não faz mal se às vezes desobedecerem aos progenitores. Aos pais (vulgo, adultos), Fachada deixa-lhes o recado de que eles não têm sempre razão e que devem pôr um travão no moralismo.

“Tó-zé tu tem cuidado não sejas pau mandado/ Antes louco e malcriado que pensar só de emprestado/ Toda a vida te vão dar o mundo já bem mastigado/ Tu começa a praticar para não ficares moralizado”, canta Ana, 12 anos, enquanto vê o concerto. A mãe, diz-nos, não se sente ameaçada. “Já sou fã do B Fachada há muito tempo e fui eu que lho mostrei, portanto sei o que a casa gasta.”

E como “há que aproveitar estes palcos para falar sobre o cómodo e o incómodo”, diz B Fachada com uma claque de fãs jovens adultos à sua frente, também se ouviram temas como Camuflado, Dá mais música à bófia e Pifarinho, três canções de intervenção do nosso tempo, do último disco de Fachada (“Gastámos a flor da vontade a preparar um come back / Afogam-se as velhas vaidades em saudades do PREC”, canta ele em Camuflado, peça de folclore deturpado movido a teclados). Sem esquecer o clássico (nada infantil) Não pratico habilidades, com um Fachada deliciosamente indecoroso a explicar que é “com intensa sexualidade que se constroem as famílias” (para depois cantar versos como “Preguiçoso e mau de piça/ Sou um bruto a melhorar”).

A tarde de concertos arrancou num tom mais calmo e politicamente correcto com Noiserv, projecto a solo de David Santos, homem-orquestra cujas melodias dulcíficas e feitas de matéria de sonhos encaixam perfeitamente no universo infantil. “Sempre achei que a música do Noiserv era perfeita para as crianças. Estou muito contente por poder trazer a minha filha a ver um concerto dele”, conta Sofia Mota, 39 anos, com a filha Carlota de oito meses ao colo, que se vai estrear no Primavera dos grandes daqui a duas semanas. “Vou levá-la ao festival durante a tarde. Depois volto à noite sem ela. Quero muito ver os Underworld no sábado.”

Fora dos concertos, as crianças circulavam pelas actividades paralelas. No concerto/performance Melopeia cantavam sobre o tempo da Primavera e na banca da Missom Baquetas, uma das mais conceituadas fábricas de construção de instrumentos de percussão, tocavam cajón e aprendiam a construir um instrumento a partir de uma caixa de fósforos, de paus de gelados e de elásticos.

Na instalação participativa de som e luz criada pelos Holy Nothing, trio de música electrónica do Porto, e pelo artista plástico Rui Monteiro, os miúdos intervinham no rumo do som, gerando-se uma espécie de discoteca dos pequeninos. A uns metros, na Casa da Guitarra, uma loja e fábrica de instrumentos de corda tradicionais, havia aulas de ukelele e guitarras portuguesas à disposição para quem quisesse experimentar. “A guitarra portuguesa está a ser a rainha desta banca. Muitas crianças estão a pegar nela e a tocar, mostram interesse”, refere Alfredo Teixeira, um dos responsáveis pela Casa da Guitarra.

Pelas 17h30 continuava a entrar mais gente no recinto, meia hora antes de os Clã subirem ao palco para encerrarem o festival. A banda do Porto regressou a Disco Voador (2011), um álbum e um espectáculo “para supernovos”.

Depois deste Mini Primavera, dia 3 de Junho é a vez do Primavera nas Fontainhas, o segundo capítulo do aquecimento para o grande festival. O brasileiro Cícero e o rapper português Regula serão os convidados especiais e a entrada será gratuita.