Opinião

Um "transportador de desassossegos"

Politicamente, António Nóvoa não sabe o que é, nem quem é. Sabe que lhe falta o cursus honorum da política, mas acha natural o desígnio de se projectar logo para o topo.

Na realidade, este artigo sobre António Nóvoa também se poderia chamar «O sonho comanda a vida». A noite de 29 de Abril, em que lançou a sua candidatura à Presidência da República, não foi inteira nem limpa. Fragmentos de versos de Sophia, de Zeca Afonso e de Sérgio Godinho foram usados para adornar e ocultar a absoluta vacuidade do discurso do candidato, ex-magnífico reitor da Universidade de Lisboa, descendente de uma “família da nobreza”. Esta informação relevantíssima, prestada há dias no decurso de uma reportagem-vídeo do JN, tranquilizou-me imenso. Portugal está farto de presidentes plebeus.

O discurso não tem princípio, meio e fim. Não passa de uma lista arbitrária de evocações, exortações, visões, desejos, intenções, desabafos, promessas, divagações. Os poetas estão lá para introduzir a tonalidade lírica e onírica que convoca os ouvintes para sonhar. Sonhar com “um caminho de mudança e de esperança” que não sabem qual é, onde está e para onde leva. Sonhar com “fazer a diferença” que não sabem em que consiste nem no que resulta. Sonhar com “uma outra visão, uma outra ideia do que pode ser Portugal”, não lhes sendo dito quais sejam nem com que se parecem. E por aí fora, uma longa, longa série de lugares-comuns e puras abstracções servidas numa pseudo-poesia barata e possidónia. Nóvoa revolta-se contra “uma austeridade” que fragilizou e empobreceu Portugal e indigna-se com uma “política” incapaz de apresentar “uma única ideia de futuro”. Lê-se e pasma-se: ele próprio não apresenta nem a sombra de metade duma. Um voto em Nóvoa é um cheque em branco.

É-o por razões mais graves, que ocorrem percorrendo a entrevista ao PÚBLICO de 30 de Abril. De novo, lê-se e pasma-se. A sua ideia de campanha eleitoral é todo um programa para a Presidência. Informal, basista, feita de “redes animadas pelas pessoas”; sem a “organicidade” que mata a imaginação e coarcta a iniciativa espontânea das “pessoas”. Nóvoa espera delas quase tudo, incluindo as ideias que ele não tem. Resultará? Há “risco”, mas o “transportador de desassossegos” (assim lhe chama Barata Moura) “preferirá sempre morrer ingénuo do que amargurado”. Não lhe ocorre que a ingenuidade na fase adulta da vida ou indica estupidez e imperdoável inexperiência, ou significa que se passou pela vida sem dar por ela, em estado de permanente distracção. Mas grave é apenas a hipocrisia, porque a universidade é um meio humano como qualquer outro: com invejas, raivas, disputas, competições e por aí fora, como na política. E, tal como na política, não se chega a reitor sem muito jogo de cintura. Nóvoa não é puro e virginal.

Porém, mais grave do que a hipocrisia, é a incógnita política que Nóvoa representa. Sabemos que execra a austeridade, mas deixa-nos no absoluto desconhecimento da alternativa que teria a oferecer — pelo motivo de que nem ele sabe. É facto que jura renegociar a dívida “até ao limite do possível”, mas ignora por onde passam o limite e o possível. Reconhece que somos prisioneiros dos compromissos assumidos com a Europa e que “honradamente temos de os cumprir”. Mas já nada nos obriga a cumpri-los “de forma ordeira”. Iremos todos em voos fretados berrar para Bruxelas? A Europa, paradoxalmente e infelizmente, “transformou-nos a todos em eurocépticos”. Há lá muito que mudar, “e seriamente”. E Nóvoa é o homem providencial para abraçar esse combate e demonstrar ao mundo “que as políticas de austeridade [não] são uma inevitabilidade”. Como a Grécia tem constatado, os credores europeus são fáceis de converter e comover.

Sabemos também que se “irrita” com “a inevitabilidade do centro” em Portugal; que acha o “famoso arco da governação (…) uma coisa verdadeiramente insuportável”. As contas são fáceis de fazer: com esse “arco” malfadado, 20% dos portugueses ficam “excluídos” “logo à partida”. O remédio, como se adivinha, está em puxar o arco para a esquerda até incluir o Bloco e o PC. Mas, nesta hipótese humana e generosa, ficam excluídos 80% dos portugueses. Temos então um problema ainda maior? Não, ou pelo menos assim o diz Nóvoa. Porquê? Porque com o seu génio negocial e a sua vocação para os consensos, de que constantemente se gaba, fará milagrosos entendimentos. “A partir do respeito pela diversidade, temos de ter a capacidade de fazer entendimentos que resultem da vontade popular.” Mas que talismã lhe dirá qual é a vontade popular, pois que ela só se revela validamente através do voto partidário? Ao cabo de tantos e tantos anos, e de tantos esforços, Nóvoa ainda não assimilou um dado elementar da vida política portuguesa, a saber, que a extrema-esquerda recusa liminarmente todo o “entendimento” com qualquer partido integrante do “insuportável” arco da governação. Ainda ontem o Bloco apresentou um programa eleitoral que tomava por pressuposto assumido a saída de Portugal do euro, e da Europa, aliás, já há muito defendida pelo PCP. Como pensa Nóvoa “entender-se” com eles?

Não pensa nada. Inquirido, há dias, se se sentia mais próximo do Partido Socialista ou do Partido Comunista, o candidato à Presidência da República respondeu: “Não sei.” Está tudo dito. Politicamente, António Nóvoa não sabe o que é, nem quem é. Sabe que lhe falta o cursus honorum da política, mas acha natural o desígnio de se projectar logo para o topo. De resto, salvo um convívio informal com a LUAR nos seus tempos de juventude, que lhe proporcionou o conhecimento de Zeca Afonso e “os momentos mais importantes da sua vida”, nunca se conspurcou no antro dos partidos. A sua candidatura, que ainda não recebeu o apoio declarado de nenhuma dessas agremiações, é “pessoal”. Esta circunstância confere-lhe uma “independência” “na qual sectores militares se revêem com alguma simpatia”. Eis o que nos deve tranquilizar a todos. Tanto mais que “sempre [foi] muito desalinhado”. “Nunca me filiei.”

Não tenhamos dúvidas de que este “transportador”, caso António Costa cometa o erro colossal de o impor ao PS, vai derramar sobre as nossas cabeças (e sobre a dele) uma chuva de “desassossegos”.

Historiadora