Exames do 4.º e do 6.º anos “afectam todo um ano lectivo”

“E se eu chumbo?”, inquietam-se muitos dos 217 mil alunos dos 4.º e 6.º anos que, de amanhã a quinta-feira, fazem provas de Português e de Matemática. Professores e pais queixam-se dos efeitos perversos das provas no funcionamento das escolas.

PÚBLICO/arquivo

Faltam apenas uns minutos para o toque de saída. A professora Eduarda Seco procura fazer baixar o nível de ansiedade na sala de uma das escolas do 1.º ciclo da Quinta das Flores, em Coimbra, explicando às crianças do 4.º ano que devem estar serenas em relação às provas nacionais que vão fazer esta semana. Assegura que estão “mais do que preparadas” e que “devem descontrair-se”. Mas quando, minutos depois, pergunta “Então, contem-me lá, o que vão fazer no domingo?”, há um ou outro aluno que anuncia que vai à piscina ou a uma festa de anos, mas a maior parte não hesita: “Estudaaar!”

Aquele grupinho faz parte dos cerca de 103 mil alunos do 4.º ano que amanhã e quarta-feira fazem as provas nacionais de Português e de Matemática. Na terça e na quinta-feira será a vez de os 114 mil estudantes do 6.º realizarem os exames a uma e a outra disciplina. Terão estudado o suficiente? Na sala de aulas da escola de Coimbra, Eduarda Seco, a professora, quase deita as mãos à cabeça antes de insistir para que usem o fim-de-semana para espairecer. Alguns cedem: primeiro estudam, depois vão passear ou brincar. Outros desconfiam: “E se eu chumbo?”

“São sempre momentos de tensão. Nós bem dizemos que não se deve dramatizar, que esta é uma prova normal, que só vale 30% na classificação final. E parece-me que, de uma forma geral, os níveis de ansiedade nas famílias baixaram em relação há dois anos, quando os alunos do 4.º fizeram provas nacionais pela primeira vez. Mas é muito difícil fazer passar a mensagem quando nas escolas os exames afectam todo o ano lectivo”, lamenta Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap).

Como os representantes dos dirigentes escolares e das associações de professores de Matemática e de Português, Ascenção critica o calendário das provas, que prejudicará alunos de outros anos de escolaridade — na maior parte dos casos é preciso esvaziar os milhares de escolas em que elas decorrem, o que deixa também muitos milhares de estudantes sem aulas durante cinco manhãs, a meio do período. O Ministério da Educação e Ciência (MEC) alega que está a dar “uma segunda oportunidade aos alunos que revelam maiores fragilidades”. Isto, porque as crianças que não ficarem aprovadas à primeira têm tempo para beneficiar de um período de “acompanhamento extraordinário”, antes da 2.ª fase de exames.

“A questão é que, com este calendário, o que na realidade se verifica é que, para além de contaminarem todo o ano lectivo, estas provas eliminam o 3.º período: quando regressam das férias da Páscoa, os alunos iniciam uma espécie de treino intensivo para as provas e, quando finalmente as fazem, sentem-se de férias, já é impossível retomar a actividade de forma natural”, contrapõe Filomena Viegas, da direcção da Associação de Professores de Português.

Ritmo “alterado”
Na escola do 1.º ciclo da Quinta das Flores, os professores confirmam que “o ritmo de ensino foi profundamente alterado nos últimos anos”, principalmente devido às provas nacionais, mas não só. “Os programas são extensos e as metas, que definem a um pormenor inimaginável o que cada aluno deve saber no final de cada ano (e não do ciclo, como antes), são imensas e, em demasiados casos, desadequadas à maturidade dos alunos”, lamenta Eduarda Seco.

José Carlos Marcelino, professor na mesma escola, também do 4.º ano, concorda. “Como se costuma dizer, não conseguimos levantar o pé, e com os exames nesta altura do ano, ainda pior. A pressão é constante. Se um de nós tem o azar de adoecer, não consegue dar o programa”, comenta.

Aquilo que podia ajudar a resolver o problema da falta de tempo — a exclusão de alguns conteúdos da prova — não resulta, segundo dizem, “por falta de organização”. Este ano, o MEC fez saber que não seriam avaliados na prova do 4.º ano a organização e o tratamento de dados, mas a informação só chegou no final de Janeiro, quando essa matéria já tinha sido dada. Os dois professores comentam que é um tema que “os miúdos adoram” e que o poderiam ter guardado para a parte final do ano lectivo, depois dos exames.

Notas de alunos ou escolas?    
“Mas estas provas são assim tão importantes? O ministério insiste que são provas nacionais, e não exames, e que visam sobretudo monitorizar o sistema. Porquê tanta pressão?”, critica a líder da Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação (Cnipe), Isabel Gregório. Coloca “a possibilidade” de ela ser gerada “principalmente pelos professores, que são avaliados pelo resultado dos alunos”.

A sugestão não agrada a José Carlos Marcelino. Confirma que um dos critérios do MEC para avaliar as escolas é a diferença entre a classificação interna e a nota nos exames, mas, apesar de considerar que isso tem “efeitos perversos”, assegura que não é o que os move, mas sim a “obrigação de preparar os alunos para as provas”. Diz, além disso, que, “se porventura há pais que não se preocupam, são muitos os que se interessam e se envolvem profundamente nessa preparação”. Conta que não é raro indicar aos alunos que façam um exercício do género dos que podem sair no exame e eles reclamarem que já o fizeram em casa, com os pais, “que compraram livros de exercícios”.

A coordenadora de escolas do 1.º ciclo do agrupamento a que pertence a Quinta das Flores, Eugénia Carriço, reforça que “cada vez mais os pais e as crianças se preocupam com as notas na pauta”. Diz supor que isso acontece porque “aquelas já serão tidas em conta, se quiserem, mais tarde, pôr os filhos em colégios privados”. As próprias crianças, comenta, “já não se contentam em saber que tiveram Muito Bom, que equivale a 90” a 100%”, num teste. “Perguntam ‘É um Muito Bom de quanto?’”

“Criou-se um clima de competitividade que atinge as crianças cada vez mais cedo. Talvez por causa da ideia dominante de que precisam de ter notas altas para poderem escolher o curso superior, damos connosco a exigir dos miúdos muito mais do que os nossos pais exigiram de nós”, reflecte Gabriela Rodrigues, mãe de uma criança do 6.º ano do mesmo agrupamento de escolas. Gabriela diz conhecer casos de outros pais de crianças daquele ano de escolaridade “que dão medicamentos aos filhos, para a concentração”. “E que, além disso, os colocam em centros de estudo desde o início do ano, para os treinarem para os exames e, depois, ainda estudam com eles, em casa.”

Ela própria pôs a filha em explicações de Matemática e Português, no 3.º período, e leva-a às aulas extras das mesmas disciplinas, oferecidas nas últimas semanas pela escola. Contrabalança lembrando-a de que, “se tiver más notas nos exames, não é o fim do mundo”, e não a pressionando para que estude em casa as mesmas matérias. Até porque, lembra, “além das provas nacionais, os alunos têm os testes das outras disciplinas, que se acumulam nesta fase do ano”.

Gabriela sente que a filha e os colegas “andam exaustos”. Filinto Lima e Manuel Pereira, das duas associações nacionais de dirigentes escolares, recordam que, “para parte das crianças, este ano lectivo foi ainda mais cansativo do que é normal”, devido ao atraso na colocação de professores que ocorreu na sequência de um erro no concurso promovido pelo MEC. Isso obrigou a recuperar aulas, aumentando a carga lectiva.

“Aqui na escola, tenho alunos do 6.º ano que estão há meses com aulas extras e que chegam a ter três horas de Português nalguns dias”, exemplificou Filinto Lima. São casos como este que levam a presidente da Associação de Professores de Matemática a afirmar que “mais facilmente os efeitos do atraso na colocação de professores se farão sentir a outras disciplinas e em relação a crianças que não têm exames este ano do que a Matemática e a Português”. “Os directores não esconderam, desde o início, que iam investir na recuperação e na preparação intensiva dos alunos que tinham provas”, disse, apontando esta situação como “mais um efeito perverso dos exames”.

Jorge Ascenção, da Confap, concorda, pela mesma razão, que os problemas do início do ano com a colocação de docentes “não se farão sentir nas pautas”. O que “não significa que não haja razões para preocupações”, ressalva. Diz que “é urgente reflectir sobre os efeitos, na escola, da introdução de exames no 4.º e no 6.º anos”, e apela ao próximo Governo para que tome uma decisão que envolva todos os partidos. “Já precisávamos de estabilidade no sistema”, justifica.